Sífilis, a epidemia que já não é mais tão ‘silenciosa’

Casos da doença aumentaram 32% no último ano. Crescimento tem a ver com o comportamento sexual e o despreparo dos profissionais de saúde

     

    O Ministério da Saúde lançou na quinta-feira (20) uma campanha nacional de combate à sífilis. O ministro da Saúde, Ricardo Barros, classificou a incidência da doença como “epidemia”. Em 2015, foram 65 mil casos, um aumento de 32% em relação ao ano anterior.

    A doença é especialmente preocupante em gestantes, pois pode provocar aborto ou, se transmitida para o feto, pode causar má-formações no bebê, como surdez e deficiência cognitiva. Em 2015 foram 33 mil gestantes infectadas - número 20% superior a 2014. Segundo o ministério, 50% dos casos da doença são detectados no final da gestação, o que aumenta os riscos para o feto.

    O governo federal anunciou uma série de medidas para tentar conter o avanço da doença. As principais são a detecção precoce no caso das gestantes, no início do pré-natal, e estratégias de comunicação para prevenção.

    “Assim poderemos incentivar a testarem principalmente as grávidas para evitar a transmissão vertical da doença. Trazemos soluções factíveis no compromisso que assinamos hoje.”

    Ricardo Barros

    Ministro da Saúde

     A doença

    O que é

    É uma doença sexualmente transmissível provocada pela bactéria Treponema pallidum.

    Transmissão

    Por relação sexual sem preservativo e da mãe para o filho durante a gestação ou parto. A doença pode ser adquirida mais de uma vez na vida.

    Sintomas

    Inicialmente a doença se manifesta através de uma ferida no órgão sexual ou na boca, local de entrada da bactéria. Não há dor ou coceira. Depois de semanas ou meses, já em sua fase secundária, pode causar manchas no corpo, especialmente na palma das mãos e dos pés. A fase terciária da doença pode aparecer após 40 dias, com lesões na pele e nos ossos, no sistema cardiovascular e neurológico. Há risco de morte.

    Diagnóstico

    Há um teste rápido, disponível no Sistema Único de Saúde, capaz de diagnosticar a doença em 30 minutos.

    Tratamento

    É feito com o antibiótico penicilina. A pessoa e seu parceiro devem ser tratados.

    Sífilis congênita

    É o nome que se dá à doença quando o bebê é infectado ainda no útero. Pode causar aborto, parto prematuro, má-formações e morte. Se a mãe for diagnosticada com a doença, deve iniciar o tratamento com penicilina o mais cedo possível para evitar a transmissão.

    Cada vez mais comum

    É comum que se use o termo “epidemia silenciosa” ao se falar da sífilis. O número de casos da doença tem crescido consistentemente nos últimos anos:

     

    A criação de um plano nacional de combate à sífilis também não é uma estratégia nova. O governo federal lançou um programa parecido há três anos.

    A notificação da doença passou a ser obrigatória em 2010. Isso explica, em parte, a escalada numérica nos últimos anos. Mas não é o único motivo.

    Há uma tendência de queda no uso de preservativos, principal forma de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis. Uma pesquisa realizada com casais heterossexuais mostrou que 67% deles não usam camisinha. O principal motivo para a negativa é a confiança no parceiro.

    Outro fator que explica o aumento é a falta de preparo dos profissionais de saúde no diagnóstico da doença, fator que o governo pretende resolver com a aprovação de um manual técnico, que será utilizado em unidades de saúde do país.

    A falta de penicilina

    A penicilina Benzatina, conhecida como Benzetacil, remédio usado para tratamento da doença, ficou em falta no mercado mundial desde 2014. A escassez aconteceu por causa do aumento da demanda e pode ter contribuído para o crescimento no número de casos.

    O governo informou que, em caráter emergencial, comprou 2,7 milhões de frascos do medicamento.

    Há ainda mais um fator para preocupação: tanto a sífilis como a gonorreia, outra doença sexualmente transmissível, estão se tornando mais resistentes aos antibióticos utilizados no tratamento. O alerta é da Organização Mundial da Saúde. O uso inadequado e excessivo de antibióticos é a causa. A OMS recomenda uma única dose de penicilina para tratar a doença.

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