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#Niunamenos: por que as mulheres argentinas entraram em greve e foram às ruas

Assassinato brutal foi o estopim para protesto, em um contexto em que crimes contra mulheres aumentam consideravelmente no país

     

    Na tarde desta quarta-feira, 19 de outubro, milhares de mulheres argentinas vestiram preto e pararam de trabalhar durante uma hora, das 13h às 14h. Depois, às 17h, seguiram em marchas organizadas em várias cidades do país - em Buenos Aires, a passeata saiu do Obelisco e foi até a Praça de Maio, dois pontos de referência na capital argentina.

    O protesto foi organizado pelo movimento “Ni Una Menos”, que há dois anos luta pela prevenção e combate à violência contra a mulher na Argentina. Além deles, mais de 300 partidos, organizações e coletivos apoiaram o ato. Nos últimos anos, episódios chocantes de estupro e assassinato de mulheres intensificaram o apoio ao movimento e o fizeram crescer para outros países latinoamericanos, como Peru, Colômbia e Chile.

    O protesto desta quarta-feira foi motivado pela indignação com o assassinato brutal da estudante Lucía Perez, de 16 anos, em Mar del Plata, no litoral argentino. Perez foi drogada, estuprada e morta por empalamento por dois homens no dia 15 de outubro.

    O crime chocou o país e ocorreu uma semana depois do 31º Encontro Nacional de Mulheres, em Rosário, que além de debates sobre a pauta feminista também organizou uma marcha de protesto cujo tema era a violência contra mulher. Cerca de 70 mil pessoas participaram da manifestação.

    A força do movimento argentino

    Os dados do Ministério de Segurança argentino mostram que, entre 2008 e 2015, os crimes sexuais aumentaram em 78%. Em 2015, foram registrados 235 feminicídios, isto é, casos em que mulheres foram assassinadas por serem mulheres.

    Na maioria dos casos - 95% deles - os assassinos são conhecidos da vítima, e em metade deles eram cônjuges ou ex-cônjuges. No entanto, foram os casos de assassinatos por desconhecidos que chocaram o país e engrossaram os protestos.

    “Muita gente que apoia e vai para a rua não se declara feminista ou é a favor, por exemplo, de pautas feministas, como o aborto. São pessoas que se identificam com a defesa de direitos humanos para as mulheres e o fim da violência”, explicou ao Nexo a ativista argentina Luisa Stegmann, comunicadora de uma organização de trabalhadoras sexuais, a RedTraSex.

    De acordo com ela, isso explica em parte a grande adesão ao movimento. Na Argentina, sindicatos participaram da greve das mulheres e há registro de empresas privadas que apoiaram a paralisação junto às funcionárias.

    Outra explicação é que os casos de assassinatos de mulheres por homens desconhecidos se conectam com a percepção de insegurança e de aumento do poder do narcotráfico, que tem crescido na Argentina - uma pauta que tem vasto apelo entre a população geral.

     

    “A força do movimento se dá principalmente pelo ‘cansei’, pela identificação de uma consciência de gênero - que ainda não é feminista, porque o feminismo implica um passo a mais, que é identificar a violência machista com o sistema patriarcal”, analisa a pesquisadora em estudos de gênero, arte e comunicação e jornalista Micaela Férnandez Darriba.

    Segundo ela, nesse momento o movimento é bastante heterogêneo quanto a pautas e orientação política. Agora, a intenção do movimento feminista é politizar essa indignação. “Precisamos torná-lo sensível a todas as causas do feminismo, entre elas a descriminalização do aborto”, defende.

    Inspiradas pela paralisação das mulheres polonesas em outubro de 2016, as ativistas argentinas organizaram uma greve geral de uma hora. O mote, segundo Darriba, é “se eu não sou considerada como sujeita ou cidadã, já que podem me ‘coisificar’, me explorar sexualmente, me traficar, me estuprar, me torturar e me assassinar, então que produzam sem mim”.

    Políticas públicas

    A pressão gerada pelo “Ni Una Menos” teve efeitos positivos em 2015. A pressão de coletivos feministas e um protesto que reuniu milhares de pessoas resultou na criação, pelo governo argentino, de um Registro Nacional de Feminicídios - uma pasta na Secretaria de Direitos Humanos dedicada ao desenvolvimento de políticas públicas específicas para casos de violação de direitos humanos das mulheres. Essa era uma das reivindicações das ativistas, além da descriminalização do aborto e do fim da violência obstétrica, por exemplo.

    Contudo, há insatisfação diante da falta de comentários do governo federal argentino sobre a última manifestação, em junho de 2016, e sobre a greve desta quarta. O presidente, Maurício Macri, não fez nenhuma declaração sobre o movimento “Ni Una Menos” e a paralisação organizada para hoje.

    O governo de Macri não é visto com bons olhos pelas defensoras dos direitos das mulheres. Em 2014, quando era prefeito de Buenos Aires, o agora presidente fez uma declaração apoiando a ocorrência de assédio verbal na rua e dizendo que ele mesmo o praticava.

    “Todas as mulheres gostam de uma cantada. Eu não acredito naquelas que dizem que não [gostam], se ofendem. Não há nada mais bonito que uma cantada. Por mais que esteja acompanhado de uma grosseria, quando te dizem que seu bumbum é lindo, tudo bem.”

    Maurício Macri

    Presidente argentino, em uma entrevista a uma rádio de Ushuaya em 2014

    ESTAVA ERRADO: A versão anterior deste texto não informava que o ato e a paralisação tinham recebido apoio de outros coletivos feministas e grupos políticos. A informação foi incluída às 12h51 do dia 20 de outubro de 2016.

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