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Como a crise política atinge a estrutura interna do PT

Legenda que governou o país por 13 anos é formada por correntes que disputam espaço. O ‘Nexo’ traz um breve resumo sobre esses grupos e qual sua dinâmica de poder

     

    Em 2016, o PT deixou o Palácio do Planalto com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, após 13 anos comandando o país. Também viu o número de prefeitos filiados ao partido cair pela metade, se transformando no maior derrotado das eleições municipais.

    Abalado pelas denúncias de corrupção reveladas pela Operação Lava Jato e pelo desgaste imposto pela crise econômica iniciada no governo Dilma, o partido vive a mais grave crise desde sua fundação.

    A crise agora se reflete de forma acentuada nas estruturas internas do partido e nos diferentes grupos que compõem a legenda. A questão no momento gira em torno da realização de eleições para a escolha de um novo presidente do partido.

    À frente da legenda desde 2011, Rui Falcão tem mandato até o final de 2017, mas há uma cobrança de militantes para que a troca seja antecipada. Cinco grupos internos marcaram para 17 de outubro um ato, em Brasília, para cobrar mudanças na estrutura partidária.

    Nos bastidores, alguns desses grupos cogitam até deixar o partido a fim de formar uma nova frente de esquerda, incluindo integrantes de outras legendas.

    O Nexo conversou com um cientista político e um historiador que estudam o PT para tentar entender a lógica de poder interno do partido de Luiz Inácio Lula da Silva.

    Um partido de tendências - ou correntes

    Criado em 1980, o Partido dos Trabalhadores é organizado internamente por tendências - ou correntes. Cada uma tem estruturas próprias. Apresentam documentos próprios sobre a conjuntura política e disputam eleições internas, repartindo o poder a partir do número de filiados que as integram.

    “O PT teve um processo de formação de baixo para cima, de grupos políticos do país todo que já tinham trajetória anterior. As tendências convivem razoavelmente bem, pois são regulamentadas e possuem direitos a representação na direção do partido”, afirma o professor da USP e historiador Lincoln Secco, autor do livro “História do PT”.

    Para o cientista político Rudá Ricci, que foi da direção da legenda, coordenou a campanha do Lula em 1989 e deixou o partido em 1993, o fato de a esquerda brasileira ter sido fragmentada em seus diversos grupos de resistência à ditadura militar levou essa característica ao PT, durante seu processo de formação.

    Em 1991, durante seu primeiro Congresso Nacional, instância máxima de decisão do partido, o PT possuía 16 tendências, quadro que se modificou ao longo da história da agremiação - houve correntes que deixaram a legenda e montaram seu próprio partido, como o PSTU. Atualmente, as quatro principais tendências são estas:

    Construindo um Novo Brasil (CNB)

    É a corrente majoritária, marcada pela figura de seu maior representante, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o cientista político Rudá Ricci, a CNB, conhecida anteriormente por Articulação dos 113, é altamente burocratizada, centralizada e calcada no poder das suas personalidades, principalmente parlamentares.

    Segue a agenda desenvolvimentista que marcou o governo Lula. “Tem jeitão de esquerda com a cabeça social-liberal”, diz Ricci, crítico aberto (e recorrente) da tendência majoritária petista.

    Segundo o cientista político, a CNB é acusada de ter transformado o PT num “partido-cartel”: para sobreviver e ter quadros profissionalizados, precisa de recursos do Estado, como o fundo partidário e cargos eletivos.

    Por isso, as direções estaduais passaram a ser ocupadas por deputados federais, responsáveis por carrear os recursos federais para os municípios, e não mais por lideranças de base, numa lógica inversa do que era o PT de antigamente, que abria espaço para movimentos sociais e grupos de interesses internos.

    “O partido absorvia grupos de interesse e cristalizava no programa. Os núcleos de base se sentiam parte. A burocracia interna partidária veio com tudo e destruiu essa política. Se não se cuidar, em 2018 o PT vira um partido pequeno. Se não tem lastro orgânico com as populações de base nem como alimentar com recursos seus prefeitos, acabou”, diz o cientista político.

    Segundo o professor Lincoln Secco, a CNB é a tendência que garantiu a visão pragmática, eleitoral e moderada do PT.  Além de Lula, abarca nomes como o ex-ministro José Dirceu, condenado no processo do mensalão e preso na operação Lava Jato, que investiga desvios de recursos da Petrobras, Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT, Tião Viana, governador do Acre e a deputada federal Benedita da Silva.

    Mensagem ao Partido

    É um “campo” de personalidades, mas que acaba funcionando como uma tendência. Faz “críticas republicanas” à CNB, com uma posição de “esquerda moderada”, segundo Secco. Para Ricci, é a corrente mais “social-democrata”, que levanta a bandeira de refundação do PT após o partido se envolver em escândalos de corrupção.

    Mais “intelectualizada”, afirma que o partido ficou muito vinculado ao Estado e não às bases sociais, que estavam em sua origem. Tem nomes como Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul e ministro da Justiça no governo Lula, José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça e advogado-geral da União no governo Dilma, e Fernando Haddad, prefeito de São Paulo e ministro da Educação na gestão Lula.

    Ricci afirma acreditar que essa corrente deve sair inteira do PT em algum momento, algo que já aparece nas conversas de bastidores do partido.

    Articulação de Esquerda

    Já teve força e poder na Direção Nacional do partido em meados dos anos 90, mas foi perdendo espaço. Foi criada em 1993, como dissidência do campo majoritário (hoje CNB). É muito definida ideologicamente.

    Segundo Ricci, é o “PT de esquerda” e representa ainda o que o partido foi de 1985 até 1995. A tendência se opõe a alianças com o PMDB, por exemplo. Defende que as direções da legenda sejam destituídas e que se convoque uma plenária para discutir erros da agremiação abertamente. Seu nome mais conhecido é o do historiador Valter Pomar.

    Rui Falcão, atual presidente do partido, foi dessa tendência, de acordo com Ricci, mas acabou integrando a corrente Novo Rumo, fundada há cerca de oito anos (com nomes como José Américo Dias e o vereador em São Paulo Antonio Donato) e que se articulou com a CNB.

    A Articulação de Esquerda chegou a assumir o partido e dirigir a campanha de Lula em 1994, mas causou muito conflito com o próprio candidato.

    Democracia Socialista

    Atualmente, está dentro do campo Mensagem ao Partido. Foi fundada como organização trotskista e possuía laços com o movimento estudantil do Rio Grande do Sul e de Minas, movimento sindical dos bancários, dos trabalhadores da educação e dos metalúrgicos. No início do governo Lula, parte de seus membros criaram o PSOL.

    Segundo Secco, alguns de seus integrantes tiveram forte influência no governo Dilma, como Miguel Rossetto, ex-ministro do Trabalho e da Previdência Social. A ex-presidente, que iniciou a vida política filiada ao PDT, apesar da aproximação com algumas correntes do PT, nunca pertenceu a nenhuma tendência do partido.

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