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Os perigos que a exploração espacial oferece ao cérebro humano

Danos cognitivos permanentes são mais uma barreira para a ida de astronautas a Marte

 

No dia 12 de outubro de 2016, Barack Obama anunciou, em um artigo escrito para o site da rede CNN, que o programa espacial norte-americano está trabalhando para enviar uma missão tripulada para Marte na década de 2030.

No texto, o presidente dos EUA esclarece que o projeto exige cooperação entre as agências governamentais e a iniciativa privada. A Tesla, do empresário Elon Musk, também diz que planeja chegar a Marte nas próximas décadas.

Diante da possibilidade de que a espécie humana uma dia visite e, talvez num segundo momento, colonize o planeta vermelho, cientistas do campus de Irvine da Universidade da Califórnia se dedicaram a estudar os efeitos da viagem sobre o cérebro - nesse momento, de ratos - em parceria com a Nasa, a agência espacial norte-americana.

Os resultados não são animadores. As viagens espaciais submetem o cérebro a uma intensa radiação que pode gerar danos neurológicos permanentes. A pesquisa impõe às missões uma nova barreira: desenvolver tecnologia para contornar os efeitos nocivos da exposição prolongada a raios cósmicos sobre o cérebro humano.

“O ambiente espacial oferece riscos únicos aos astronautas. Exposição a essas partículas [radioativas] pode levar a uma gama de potenciais complicações no sistema nervoso central que podem ocorrer durante a exposição e persistir por muito tempo depois da viagem em si - como problemas de performance, déficits de memória, ansiedade, depressão e problemas no sistema de tomada de decisões. Muitas dessas consequências adversas à cognição podem persistir para o resto da vida [do astronauta].”

Charles Limoli

Pesquisador da Universidade da Califórnia, Irvine, e chefe do estudo

Capacidade cognitiva

O estudo, publicado na revista “Nature”, analisou as capacidades cognitivas de roedores expostos a raios de radiação cósmicos, do mesmo tipo que astronautas seriam expostos em uma missão para Marte.

Eles observaram que esse tipo de radiação causa danos severos aos neurônios e gera altos níveis de inflamação no cérebro, além de modificar as sinapses. Os efeitos persistiram por mais de seis meses depois que os ratos foram expostos à radiação.

Como consequência, dizem os cientistas, esses efeitos podem prejudicar o poder de decisão dos astronautas, a performance, a memória de reconhecimento e pode gerar ansiedade e depressão - muitos deles, permanentemente.

Radiação prejudica sistema de 'extinção do medo', que permite que o cérebro suprima traumas.

São sintomas já observados como efeito colateral de tratamentos de câncer no cérebro baseados em radiação de fótons. Além disso, os resultados refletem o de um outro estudo parecido, conduzido pela mesma equipe e publicado em maio de 2015 pela mesma revista.

Outra consequência da exposição a esse tipo de radiação observada pelo grupo de pesquisadores é que ela afeta um mecanismo cognitivo chamado de “extinção do medo”, no qual o cérebro suprime memórias traumáticas e desagradáveis em um indivíduo.

Os raios impedem que esse mecanismo funcione adequadamente, o que pode fazer com que os astronautas sejam incapazes de avaliar racionalmente riscos, expectativas e consequências e fiquem sujeitos a ansiedade.

Como a ciência pode contornar o problema

Embora astronautas na Estação Espacial Internacional não sofram com esse nível de exposição, já que estão protegidos pelo campo magnético da Terra, a radiação cósmica prejudicial é inevitável em uma possível viagem espacial até Marte.

A duração de uma missão espacial até Marte conta com uma lista de variáveis. A distância entre os dois planetas não é fixa - varia de acordo com a órbita da Terra e do planeta vermelho. No ponto mais próximo, os dois estão a 54 milhões de quilômetros. No mais distante, a 250 milhões de quilômetros. A distância média, portanto, é de 225 milhões de quilômetros.

Nesse tipo de missão, engenheiros espaciais calculam qual o melhor momento de lançamento para que uma nave espacial chegue a um destino no espaço - levando em conta a propulsão, o combustível disponível, a distância e uma série de outros fatores.

Ciência deve trabalhar em tratamentos farmacológicos preventivos.

Historicamente, as missões não tripuladas que foram até Marte levaram entre 250 e 350 dias para chegar até o planeta. Considerando que uma missão tripulada aterrissaria na superfície por dias ou meses, uma viagem até Marte teria potencial de expor astronautas a radiação cósmica por pelo menos dois anos, mais do que o suficiente para causar danos severos à cognição.

A equipe da Universidade da Califórnia em Irvine argumentou que a descoberta serve como estimulante para que a ciência e a tecnologia descubra soluções para evitar ou tratar o problema.

No estudo, algumas possibilidades são levantadas. Seria possível construir um isolamento mais forte em algumas áreas da aeronave. Isso diminuiria a exposição às partículas nesses espaços, mas não a impediria completamente.Em um outro cenário, é possível desenvolver tratamentos preventivos, químicos e biológicos, para proteger o cérebro da exposição constante à radiação cósmica.

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