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A vida e a morte da árvore mais isolada do mundo

Por décadas uma acácia sobreviveu em meio ao Saara, até morrer como resultado do encontro com seres humanos. A história acaba de ser resgatada por uma revista alemã

 

O aquecimento global e a drástica redução da biodiversidade no planeta têm feito com que alguns cientistas defendam que o ser humano é, atualmente, um incomparável motor de alterações no planeta.

A história da árvore mais isolada do mundo, que sobreviveu por anos em meio ao deserto do Saara até um homem matá-la no final do século 20, é uma anedota moderna desse poder destrutivo.

O caso da Árvore do Téneré foi resgatado em outubro em uma reportagem da revista alemã “Der Spiegel”.

Rara quebra de monotonia em meio ao deserto

A Árvore do Téneré foi uma acácia que se encontrava na República do Níger, um país do centro-oeste da África. Ela resistia sozinha, cercada por 400 km² de rocha e areia em uma região particularmente árida no centro sul do Deserto do Sahara conhecida como Téneré. Lá, durante o dia, as temperaturas podem passar de 45º C.

Esqueletos de camelos podem ser encontrados na região, que não possui praticamente nenhuma flora e é esparsamente povoada por humanos. Por esse motivo, o Téneré também é chamada de “deserto dos desertos”.

Rara quebra no cenário monótono, a acácia serviu por décadas como ponto de referência para caravanas que passavam pela região, e estava presente em mapas militares europeus na década de 1930. Sua resistência em condições tão adversas motivou curiosidade e interesse.

O site do Instituto Smithsonian afirma que a acácia foi considerada a árvore mais isolada do planeta por 300 anos. O etnólogo francês Henri Lhote a descreveu como “uma acácia com um tronco degenerado, de aspecto doente (...) Apesar disso, a árvore tem belas folhas verdes, e algumas flores amarelas”.

Em 1939, Michel Lesourd, membro do Serviço Central de Assuntos Saharianos, uma instituição do governo francês, escreveu o seguinte sobre ela:

“É preciso ver a Árvore para acreditar em sua existência. Qual é o seu segredo? Como ela pode continuar a viver apesar das multidões de camelos que marcham ao seu lado? Como um camelo perdido não come suas folhas e espinhos em cada azalai [caravana periódica empreendida por comerciantes tuaregues]? Como os numerosos tuaregues conduzindo as caravanas de sal não cortam seus galhos para fazer fogo e aquecer seu chá? A única explicação é que essa árvore seja considerada um tabu pelos caravanistas”

Michel Lesourd

Membro do Serviço Central de Assuntos Saharianos, uma instituição do governo francês, em 1939 

Em 1939, uma equipe do Exército francês escavou próximo à árvore em busca de água. Após nove meses, o grupo encontrou uma fonte, junto a raízes, a 35 metros de profundidade.

A hipótese levantada a partir desse achado foi de que a acácia, de três metros de altura, era a última sobrevivente de um oásis que existiu na região. Ela sobreviveu aprofundando lentamente suas raízes em busca da água que desaparecia.

O impacto do interesse humano pela árvore

A notoriedade que colocou a árvore nos mapas europeus fez com que ela recebesse um número crescente de visitantes. A interação constante não fez bem à sua saúde. Em 1961, o etnólogo Henri Lhote escreveu no livro “A epopeia do Téneré” que um dos dois únicos galhos da acácia fora arrancado, e afirmou que “anteriormente a árvore era verde e repleta de flores, agora é sem cor, nua”.

Em novembro de 1973, participantes do Rali do deserto da Citröen encontraram a árvore morta. Há duas hipóteses para tanto. Uma delas afirma que a morte ocorreu após uma tempestade de areia. A outra, adotada pelo site do Instituto Smithsonian, é a de que um motorista bêbado a teria atropelado com um caminhão.

Homenagens à árvore solitária

A morte da Árvore do Téneré foi motivo de comoção nacional na República do Níger. Seus restos foram coletados e hoje integram o acervo do Museu Nacional, na capital do país, Niamei.

 

A prefeitura do município de Agadez tentou plantar 30 árvores na região como sucessoras da acácia, sob os cuidados de um jardineiro idoso que passou a viver em uma cabana próxima ao local. Elas morreram, no entanto, após três anos. Atualmente uma escultura de seis metros de altura serve como registro do que um dia foi a árvore mais isolada do mundo.

 

 

 

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