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O que há de diferente em Bob Dylan, Nobel de Literatura

É a primeira vez que um compositor ganha o prêmio. Abaixo, o ‘Nexo’ explica por que ele foi concedido a um dos maiores ícones da música pop da história

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    O anúncio nesta quinta-feira (13) do prêmio Nobel de Literatura foi surpreendente: seu ganhador é o músico Bob Dylan, de 75 anos. É a primeira vez que o prêmio máximo da área vai para um compositor.

    Para a Academia Sueca, responsável pelo prêmio, Dylan é um poeta na tradição da língua inglesa. E segue ativo pelos últimos 54 anos, constantemente reinventando a si mesmo.

    “Se você olhar para milhares de anos atrás, descobrirá Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos para serem escutados e interpretados, muitas vezes com instrumentos. Acontece o mesmo com Bob Dylan. Nós ainda lemos Homero e Safo e gostamos. A mesma coisa [ocorre] com Dylan”, afirmou Sara Danius, secretária-permanente da Academia Sueca, no anúncio do prêmio.

    O que é diferente nas letras do compositor

    Como exemplo da genialidade do compositor, Sara citou “Blonde on blonde”, disco de 1966 que, segundo ela, demonstra sua maneira brilhante de rimar e de pensar. É por este álbum, aliás, que ela recomenda que os não-iniciados comecem a escutar Dylan:

    Trecho

    Inside the museums, infinity goes up on trialNos museus, a eternidade vai a julgamento

    Voices echo ‘this is what salvation must be like after a while’Vozes ecoam ‘é assim que a salvação deve ser, depois de um tempo’

    But Mona Lisa musta had the highway bluesMas Mona Lisa com certeza sentiu a tristeza da estrada

    You can tell by the way she smilesDá pra ver pelo jeito que ela sorri

    ‘Visions of Johanna’

    Do disco “Blonde on Blonde” (1966)

    A letra de “Tangled Up in Blue” é uma das ricas narrativas pelas quais Dylan ficou conhecido como compositor. Ele conta a história de uma mulher que conheceu e ajudou a escapar de um ex-marido problemático, e como a reencontrou tempos depois. A única repetição está no verso que dá nome à canção - o resto da letra se desenrola sem refrão, como se fosse um conto:

    Trecho

    She was standing there in the back of my chairEla estava parada ali, atrás da minha cadeira

    Said to me, Don't I know your name?Me disse, ‘Eu não conheço você?’

    I muttered somethin' under my breathResmunguei algo baixo

    She studied the lines on my faceEla estudou as linhas no meu rosto

    I must admit I felt a little uneasyDevo admitir que me senti um pouco desconfortável

    When she bent down to tie the lacesQuando ela se curvou para amarrar o cadarço

    Of my shoeDo meu sapato

    ‘Tangled Up in Blue’

    Do álbum Blood on the Tracks (1975)

    Para o escritor e poeta Fabrício Corsaletti, fã e estudioso da obra de Dylan, o músico americano é um “grande poeta narrativo”. Suas letras são cheias de sequências rímicas, aliterações e assonâncias, entre outros recursos técnicos. Também é capaz de fazer letras curtas e longas e tem, ao longo de suas obras, muita variação de tons e vozes - o que mostra a sua versatilidade. Mas, além disso, “conta histórias como pouquíssimos sabem fazer”, diz Corsaletti.

    “No conjunto, a obra dele parece uma grande epopeia lírica da vida americana nos últimos 50 anos”

    Fabrício Corsaletti

    Poeta e pesquisador da vida e obra de Dylan

    Em “Black Diamond Bay” (1976), por exemplo, Dylan constrói uma narrativa em fragmentos. “É como se fosse um conto de Júlio Cortázar”, compara Corsaletti.

    Outro exemplo é “Idiot Wind”, que fala sobre uma separação. “É um tema que todo mundo conhece”, analisa Corsaletti. “Mas a quantidade de coisas que ele cria, o quanto ele é capaz de ir a fundo em coisas que você pensava que conhecesse, é impressionante”. “Ele é um grande criador de imagens poéticas.”

    Escolha sinaliza mudança no Nobel

    Embora seja incontestavelmente importante, a obra de Dylan não se enquadra nas categorias normalmente premiadas pela Academia Sueca.

    Os responsáveis pelo Nobel sabem que a escolha pode gerar polêmica. “Os tempos estão mudando, talvez”, disse Sara Danius no anúncio, fazendo referência à canção “The Times They Are A-Changin'”, do músico. “É claro que ele merece.”

    “A decisão [de dar o Nobel a Dylan] eleva letras de músicas ao mesmo pé que a literatura, poesia e dramaturgia. É um grande passo para longe do intelectualismo e elitismo autoperpetuadores pelos quais o prêmio havia sido criticado”

    Colin Paterson

    Correspondente de entretenimento da BBC  

    Para Flávio Moura, editor da Companhia das Letras, as premiações dos últimos anos podem sinalizar um “arejamento” positivo no Nobel. Em 2015, o prêmio foi concedido pela primeira vez a uma jornalista, a bielorussa Svetlana Alexievich, escritora que se dedica ao chamado “novo jornalismo literário”.

    Moura defende a expansão da concepção de literatura para o gênero da canção. “Às vezes, premiam autores de uma literatice chatérrima, sendo conservadores sobre o que é o literário. Nos últimos dois anos estão apontando em outras direções, o que é muito positivo”, diz.

    O Nobel literário tem “gosto pela imprevisibilidade”, por isso é difícil prever quem será seu ganhador. Dylan não era sequer mencionado entre os favoritos para o prêmio. Em 2016, os principais cotados para levar os prêmios eram o escritor queniano Ngugi wa Thiong’o, o autor japonês Haruki Murakami e o poeta sírio Adonis.

    “A tentativa de defender a pureza do espírito literário é uma bobagem. A literatura só tem a perder quando se refugia nesse corporativismo. [A premiação] reconhece que essas fronteiras são mais porosas do que uma certa visão elitista de literatura tende a achar.”

    Flávio Moura

    Editor da Companhia das Letras, em entrevista ao Nexo

     

    Nobel é o prêmio que faltava

    Robert Allen Zimmerman nasceu na cidade de Duluth, Minnesota, nos EUA, em 1941. Ele ganhou seu primeiro violão aos 14 anos e começou a se dedicar à música folk e ao blues. Nos anos 1960, foi fortemente influenciado pelos escritores da geração beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, e pelo poeta francês Arthur Rimbaud.

    Seu primeiro disco, “Bob Dylan”, foi lançado em 1962. Ao longo de suas cinco décadas de carreira, lançou 37 álbuns de estúdios, vários considerados obras-primas. Em suas músicas, se focou em questões sociais, política, amor e religião. Já escreveu livros, um em dois volumes sobre a própria vida, chamado “Crônicas”, e lançou compilações com suas próprias letras.

    “Dylan tem o status de um ícone. Sua influência na música contemporânea é profunda, e ele é objeto de uma produção literária secundária constante”

    Academia Sueca

    sobre o anúncio

    O Nobel é o prêmio que faltava para Dylan figurar no olimpo máximo da produção cultural contemporânea. Ele já ganhou os principais prêmios mundiais na área de cinema (Oscar e o Globo de Ouro pela canção “Things Have Changed”, da trilha de “Garotos Incríveis”, em 2001) e música (foram 12 Grammys no total).

    Também tem um Pulitzer, prêmio americano dado a autores relevantes na área de jornalismo e literatura. O Pulitzer veio em 2008 por seu “profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de força poética extraordinária”.

    O prêmio Nobel

    O prêmio é distribuído desde o século 19. Ele foi criado pelo químico Alfred Nobel, morto em 1885, que expressou em seu testamento o destino que seu patrimônio deveria ter: uma premiação para as grandes descobertas da humanidade em cinco áreas: física, química, fisiologia (ou medicina), literatura e paz. Em 1900, foi criada a Fundação Nobel.

    Em 2016, a temporada de anúncios dos premiados da Academia Real Sueca de Ciências começou na segunda-feira (3), com o Nobel de Medicina. O vencedor foi Yoshinori Ohsumi, que investiga o processo de autofagia (ou comer a si mesmo) das células. A descoberta pode levar a um maior entendimento de doenças como o câncer e o diabetes. No dia 4 de outubro, o trio de pesquisadores britânicos David J. Thouless, F. Duncan M. Haldane e J. Michael Kosterlitz levou o Nobel de física.

    Na segunda-feira (10) o mundo conheceu o Nobel de Economia, que foi para dois pesquisadores que buscam formas mais eficientes e justas de se elaborar contratos. E, na sexta-feira (7), o presidente colombiano Juan Manuel Santos foi laureado com o Nobel da Paz por sua tentativa de negociar um acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

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