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EUA atacam rebeldes no Iêmen. Do que se trata esse conflito ignorado

Navio de guerra americano lança três ataques com mísseis contra alvos no país árabe. Conflito envolve potências regionais e mundiais, mas chama pouca atenção

     

    O Pentágono, responsável pelo setor de defesa dos Estados Unidos, informou nesta quarta-feira (12) que um navio de guerra americano atacou com disparos de mísseis teleguiados três instalações de radares que funcionavam sob o comando de grupos rebeldes na costa do Iêmen, no dia 6 de outubro.

    Essa foi a primeira ação militar direta dos EUA em solo iemenita desde que o país mergulhou numa onda de protestos, em 2011, que se converteu em guerra aberta em 2015.

    Mapa mostra a localização do Iêmen
     

    Diferentemente da guerra na Síria, que mobiliza o noticiário internacional há cinco anos e pauta o debate entre os candidatos americanos à Casa Branca, a guerra no Iêmen se desenrola em paralelo, de maneira quase invisível aos olhos do Ocidente.

    Um dos fatores que contribuem para essa invisibilidade diz respeito aos atores envolvidos. Os crimes de guerra cometidos contra os civis no Iêmen são atribuídos a bombardeios massivos conduzidos pela Arábia Saudita com apoio logístico dos EUA.

    Por outro lado, na Síria, os ataques a hospitais, escolas e residências civis são atribuídos à Rússia, país que se opõe aos interesses americanos na região.

    “Os conflitos só ganham atenção persistente dos EUA quando oferecem uma narrativa que seduza o público e os atores políticos indo além do impacto humano. Isso requer frequentemente uma combinação entre a relevância dos interesses americanos imediatos, a ressonância nos assuntos de debate político e cultural e, talvez o mais importante, o engajamento numa história emocionante na qual seja fácil identificar os caras bons e maus”, disse Amanda Taub em uma das colunas que ela publica numa seção interpretativa e analítica no jornal americano “The New York Times”.

    A construção de uma Rússia vilã faz sucesso na forma como a história da guerra na Síria é contada no Ocidente. Porém, a associação americana com um regime sabidamente violador dos direitos humanos como a Arábia Saudita fica em segundo plano quando se trata de debater princípios e geopolítica nas alianças no Oriente Médio.

    Raízes iguais, consequências diferentes

     

    Os conflitos na Síria e no Iêmen não estão diretamente conectados. Porém, têm pontos importantes em comum. Tanto um quanto o outro envolve pressão interna de grupos armados que tentam derrubar governos que permanecem encastelados no poder há décadas.

    Ambos movimentos tiveram início em 2011, com a Primavera Árabe, nome dado à onda de protestos que varreu o Oriente Médio e parte da África, contestando os governantes de turno e reivindicando mais democracia.

    Nos dois países, a repressão do Estado foi brutal e evoluiu, primeiro, para uma situação de conflito armado interno e, em seguida, para uma internacionalização, com a participação de potências regionais e também mundiais.

    Porém, a Síria é uma das maiores potências econômicas, militares e culturais da região, enquanto o Iêmen é um país de menor dimensão geopolítica. Além disso, o Estado Islâmico cresceu enormemente na Síria, de onde projeta ataques terroristas contra os EUA, a Turquia e países europeus.

    Todos esses fatores, combinados, ajudam a explicar o fato de a guerra iemenita ter pouca visibilidade, mesmo que esteja na mesma região da Síria, tenha um conflito de raiz semelhante e com a mesma duração, e venha produzindo catástrofes humanitárias similares. No Iêmen, a Unicef, órgão das Nações Unidas para criança e juventude, estima que 80% da população precise de ajuda humanitária.

    Um pouco mais sobre a guerra

     

    O Iêmen, assim como vários países do Oriente Médio, foi sacudido em 2011 pelos protestos populares da chamada Primavera Árabe. Fatores demográficos (como a urbanização crescente), econômicos (aumento do desemprego entre a população jovem) e culturais (acesso a internet e maior interconectividade com o mundo) produziram, de maneira combinada, uma onda de manifestações que pediu mudanças estruturais em vários governos da região.

    O então presidente, Ali Abdullah Saleh estava há 23 anos ininterruptos e mantinha boas relações com as potências ocidentais e a Arábia Saudita, maior força regional. No poder, Saleh reprimiu duramente os manifestantes, enquanto prometia implementar reformas estruturais de longo prazo. Uma das reformas previa a passagem do poder para o então vice-presidente, Abdrabbuh Mansour Hadi, no que era considerada uma ação entre amigos.

    Antes que isso ocorresse, Saleh foi vítima de um atentado a bomba numa mesquita iemenita. O presidente escapou com vida, mas vários de seus assessores morreram. Ele foi levado para um hospital militar na Arábia Saudita e, de lá, para os EUA, onde permanece até hoje em auto-exílio. Hadi, seu vice, assumiu o governo, primeiro interinamente e, em seguida, de forma definitiva.

     

    O atentado antecipou na prática uma reforma profunda e uma passagem de poder que Saleh apenas dizia pretender fazer - e sobre a qual muitos duvidavam que viesse de fato a ocorrer. Hadi se incrustou na presidência, frustrando as reivindicações iniciais que deram início aos protestos de 2011.

    Destituído e afastado do país, Saleh acabou se associando a uma das correntes de dissidência interna, a dos Houtis, que passaram a pressionar militarmente pela saída do atual presidente, Hadi. Presidente e vice romperam, atraindo para suas órbitas de influência o apoio de diferentes países e de grupos internos divergentes.

    O papel das potências

     

    Além dos elementos políticos internos do Iêmen, há uma agenda maior em jogo. Para entendê-la, é preciso saber que duas grandes forças se chocam com frequência no mundo islâmico: os sunitas e os xiitas.

    Essa divisão remonta às origens do Islã e diz respeito a uma divergência sobre quem deveria seguir liderando a religião após a morte do profeta Maomé, fundador do Islã. Com o passar dos anos, sunitas e xiitas assumiram o poder em diferentes países do Oriente Médio, levando para a política as mesmas divisões que imperavam na religião.

    O presidente destituído do Iêmen, Saleh, é xiita. Sua tentativa de voltar ao poder é respaldada pelo Irã, maior potência xiita da região. Os houthis, que compõem o maior grupo armado do Iêmen, também é xiita.

    Do outro lado, Hadi, que assumiu após a queda de Saleh, é sunita. Nessa condição, tem apoio da maior potência sunita do mundo islâmico, a Arábia Saudita, que, por sua vez, tem apoio de potências como EUA, França e Reino Unido, que apoiam a pressão internacional contra os rebeldes.

    O envolvimento do Brasil

    Em duas ocasiões recentes, o Brasil apareceu envolvido com o conflito no Iêmen. Primeiro, a ONG Anistia Internacional disse que um tipo de munição brasileira chamada cluster (cacho) - proibida em dezenas de países por meio de um tratado internacional que o Brasil não reconhece - foi usada pela aviação saudita contra civis no Iêmen.

    Depois, mais de 8 mil armas produzidas pela brasileira Taurus foram, segundo o Ministério Público Federal, enviadas para abastecer beligerantes no Iêmen, através de uma triangulação ilegal via o Djibuti, na África. Nesse caso, dois ex-executivos da Taurus foram denunciados.

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