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Outubro Rosa: por que a campanha traz questionamentos

Evidências científicas questionam eficácia da mamografia de rotina. Autoexame já não é mais recomendação para prevenção nos Estados Unidos

     

    Criado nos EUA na década de 1990, o movimento Outubro Rosa faz, todos os anos, uma intensa campanha de prevenção contra o câncer de mama. Por todo o país, entidades realizam mutirões de conscientização e exames, como a “carreta da mamografia”.

    A iniciativa funciona ao jogar luz e disseminar informação sobre o tema. O problema é que algumas das recomendações contrariam as evidências científicas sobre as doenças, que nos últimos anos passaram a questionar os exames de rotina feitos em pessoas saudáveis.

    Para entidade, data deveria ser desvinculada da mamografia

    A iniciativa de promover a prevenção é inquestionável. A detecção precoce do câncer de mama aumenta as chances de cura da doença, que mata 12 mil mulheres por ano. O problema é que a maneira como a prevenção é propagandeada esconde dois fatores, segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer): a mamografia é um exame que tem riscos; e ela pode não reduzir mortalidade provocada pela doença, segundo um estudo realizado no Canadá por pesquisadores da Universidade de Toronto.

    A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda que a mamografia seja realizada anualmente a partir dos 40 anos. Mas o Ministério da Saúde, por meio do Inca, diz que esse exame deve ser feito a cada dois anos por mulheres acima de 50 anos, mesmo aquelas que não tenham sinal da doença. Demais métodos preventivos, assim como a própria mamografia em outras faixas etárias, “tiveram recomendação contrária”, segundo o Inca.

    Segundo o instituto, um dos riscos da mamografia anual antes dos 50 anos é a maior chance de o exame apresentar um falso-positivo levando, assim, a uma biópsia desnecessária. Há também o impacto psicológico desse diagnóstico errôneo. E há evidências do Instituto de Câncer da Holanda que mostram que a radiação do exame pode causar câncer — o risco é pequeno, mas existe. A melhor forma de diagnóstico precoce é reportando qualquer alteração nas mamas para o médico.

    Autoexame já não é mais recomendado nos EUA

    Outubro Rosa é uma campanha que faz parte do calendário do Inca, mas a entidade tem o foco de ampliar o nível de informação sobre a doença — incluindo os riscos e benefícios dos exames preventivos. “Para os gestores do Sistema Único de Saúde é importante que a campanha não fique em torno da realização da mamografia”, diz o Inca.

    Nos EUA, que divulgaram novas recomendações em 2015, a orientação é que mulheres que tenham fator de risco comecem a fazer mamografias a partir dos 45 anos. A partir dos 55, o exame deve se repetir anualmente. O país não recomenda mais o autoexame das mamas.

    Para a ginecologista e obstetra Melania Amorim, pós-doutora em tocoginecologia, “não se trata de escamotear o importante problema de saúde pública representado pelo câncer, mas de modificar as estratégias adotadas visando à redução de sua incidência e mortalidade”.

    Em artigo sobre o tema, ela diz que é preciso estimular a prevenção primária através da alimentação adequada e estilo de vida.  “Além disso, deve-se incentivar o aleitamento materno, que não apenas reduz o risco de câncer de mama para a mulher que amamenta, mas também para as filhas dessas mulheres, uma vez que ter sido amamentada reduz o risco de ter câncer de mama na pré-menopausa”, escreveu.

    O Instituto Nacional do Câncer tem um documento com as mudanças de estilo de vida recomendadas para a prevenção da doença: controle do peso corporal, prática de exercícios físicos e mudanças na alimentação (como o controle no consumo de sal e alimentos processados) e redução no consumo de bebidas alcoólicas estão entre elas.

     

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