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Como é feito o ‘índice de corrupção’ no mundo. E por que ele não mede o que diz medir

Rankings feitos por diferentes organizações apresentam dados discrepantes sobre a colocação do Brasil e podem induzir a conclusões erradas

     

    O Fórum Econômico Mundial publicou em setembro uma pesquisa na qual afirma que o Brasil é o quarto país mais corrupto do mundo. O resultado da pesquisa foi apresentado como um dado científico preciso e numericamente aferível, rendendo manchetes na imprensa.

    Porém, apenas dez meses antes, uma outra pesquisa semelhante, produzida pela Transparência Internacional, colocava o Brasil como o 76º mais corrupto do mundo.

    A diferença de 59 posições num espaço de menos de um ano em pesquisas que dizem medir a mesma coisa levanta questões sobre como esses índices são produzidos, e o que eles medem realmente.

    Percepção é subjetiva

    Ambas pesquisas são feitas em entrevistas com um grupo de pessoas que, com base num questionário, indicam sua própria percepção sobre a corrupção nos países. Os índices medem, na verdade, a percepção de um grupo de entrevistados sobre a corrupção, não a corrupção em si.

    Esse tipo de trabalho é menos preciso que a medição, por exemplo, do índice de transparência dos governos no mundo. No caso da transparência, é possível solicitar uma determinada informação a um governo e, ao longo do processo, medir quanto tempo leva para entrega da resposta, ou quantos recursos a instâncias superiores são necessários até que se obtenha a informação solicitada.

    Por outro lado, medir a percepção das pessoas é lidar com a subjetividade. Um grupo de entrevistados que seja bombardeado por informações a respeito de uma operação do porte e da duração da Lava Jato será mais propenso a denunciar a corrupção num país como o Brasil do que um grupo de entrevistados que viva num país no qual, mesmo havendo corrupção, não há independência dos órgãos de fiscalização e da imprensa.

    No ranking do Fórum Econômico, o Brasil está 95 posições atrás da China, país onde não existe liberdade de imprensa e onde o Partido Comunista governa livre do escrutínio externo.

    Países que ainda se recuperam de longos conflitos, onde a imprensa e a Justiça são precárias, também aparecem na frente do Brasil, como a Costa do Marfim, a Libéria e Ruanda, entre outros.

    Resultado induz ao erro

    Juliana Sakai, coordenadora da Transparência Brasil, disse ao Nexo que é comum haver confusão na hora de interpretar o que essas pesquisas dizem.

    “Quanto maior for a liberdade de informação numa sociedade, maior será o crescimento da percepção das pessoas sobre a corrupção existente ali”, ela diz. “Por isso tanta gente ainda diz que, durante a ditadura, a corrupção era menor, quando, na verdade, o que havia era menos informação sobre os casos de corrupção.”

    Outro detalhe é que os entrevistados são normalmente empresários, todos de perfis muito semelhantes, o que torna a pesquisa pouco representativa até mesmo para aferir a opinião de uma sociedade.

    Assim, esses rankings medem, no máximo, o que o setor empresarial privado de um determinado país sente em relação às notícias que circulam sobre casos de corrupção e o que suas próprias experiências dizem a respeito do assunto.

    O Fórum Econômico Mundial costuma publicar, junto com a pesquisa, as perguntas que foram feitas e o número total de entrevistados, além de seu perfil.

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