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Como o encolhimento do PT se reflete em outros partidos

Primeiro turno marca a queda do número de prefeitos eleitos da legenda e pouco crescimento de siglas do mesmo campo ideológico. Principal consequência é alta dispersão do voto, segundo cientista política

     

    A vitória do empresário João Doria (PSDB) no primeiro turno da disputa pela Prefeitura de São Paulo resume o impacto da crise política no PT. O partido que havia sido retirado do governo federal em agosto por um processo de impeachment deixará agora também o comando da maior cidade brasileira, desta vez por meio do voto popular.

    O desgaste da deposição de Dilma após 13 anos de governos petistas no Brasil, da crise econômica deixada por sua administração e do avanço da Operação Lava Jato, que apesar de envolver os mais diversos partidos acabou tendo peso muito maior sobre o PT, se refletiu de forma acentuada nas eleições municipais não só em São Paulo, mas em todo o Brasil.

    No primeiro turno de 2016, o PT elegeu 256 prefeitos em um total de 5.568 cidades. Em 2012, havia sido muito mais: 642. Em número totais de votos, o PT recebeu 6,8 milhões neste primeiro turno, contra 17,2 milhões na mesma etapa quatro anos atrás.

    Em sentido contrário, os partidos que mais elegeram prefeitos no primeiro turno foram o PMDB (1.027), o PSDB (792) e o PSD (536). Cresceram também partidos menores, como o PRB (de 79 para 104), PTN (12 para 30) e o PHS (16 para 36).

    Com exceção do PMDB, todas essas legendas receberam mais votos no primeiro turno de 2016 do que no primeiro turno de 2012. O partido do presidente Michel Temer, ex-vice de Dilma, teve 14,8 milhões de votos agora, contra 16,7 milhões quatro anos atrás.

    Mas como ficaram outros partidos de esquerda do Brasil?

    Dissidência do PT, o PSOL teve menos votos no primeiro turno de 2016 do que no primeiro turno de 2012: 2 milhões agora contra 2,3 milhões há quatro anos.

    O número de prefeitos eleitos na primeira etapa manteve-se o mesmo: dois. Mas o resultado ainda pode mudar, já que o partido está no segundo turno em três cidades, duas delas capitais: Rio, com Marcelo Freixo, e Belém, com Edmilson Rodrigues. Com 4,8 milhões de eleitores, o Rio é o segundo maior colégio eleitoral do país – primeiro é São Paulo, com 8,8 milhões.

    A esquerda nas urnas

     

    O PCdoB, um tradicional aliado dos petistas, passou de 54 prefeituras para 82, muito em razão do desempenho do partido no Maranhão, agora governado por Flávio Dino (PCdoB).

    Apenas no Estado a legenda venceu em 46 cidades. O número de votos no primeiro turno, porém, caiu de 1,8 milhão, em 2012, para 1,7 milhão em 2016. O PCdoB ainda disputa o segundo turno em Contagem (MG).

    A Rede, fundada pela ex-petista Marina Silva, elegeu cinco prefeitos em sua primeira eleição. As cidades em que venceu têm, em média, 50 mil habitantes.

    A soma total de votos pelo país foi de 995.447. O desempenho final ainda pode mudar porque a Rede está no segundo turno em três cidades, entre elas Macapá.

    Mas se os votos do PT não foram parar em outros partidos de esquerda, para onde foram?

    “Tivemos em 2016 um aumento da fragmentação partidária nestas eleições. Isso é algo a se preocupar”, afirma a cientista política Silvana Krause, professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em entrevista ao Nexo.

    A votação mostra que esta eleição é a que mais elegeu partidos diferentes para comandar prefeituras. Até o momento, das 35 legendas registradas no país, 31 vão administrar ao menos uma cidade. Em 2012, quando havia 30 partidos, candidatos de 26 deles foram eleitos prefeitos.

    Abaixo, Silvana Krause fala sobre o resultado das urnas e o quadro partidário brasileiro.

    Como a sra. avalia o desempenho do PT nestas eleições?

    Silvana Krause O PT foi o grande perdedor, mas era previsível. Houve uma campanha constante, de construção de opinião pública, atacando especificamente um partido. É evidente que isso teria um impacto. Mas temos que aguardar os próximos passos. A situação política do país continua instável. É um país extremamente fragmentado. Tivemos um aumento da fragmentação partidária nestas eleições. Isso é algo a se preocupar.

    Por quê?

    Silvana Krause Essa fragmentação está presente no Congresso também. Se aparentemente, nessa conjuntura, se tem uma oposição [ao governo Michel Temer] fragilizada, você também tem uma situação fragmentada. Temos que ter cuidado ao dizer que houve uma vitória do PMDB e do PSDB porque há uma nova realidade colocada, que é a ampliação da fragmentação do poder. As eleições municipais mostraram isso. Diante desse quadro, não é fácil se conseguir uma coesão.

    Qual a consequência desse cenário fragmentado?

    Silvana Krause Causa uma dificuldade enorme de se construir políticas públicas. Essa fragmentação torna difícil a relação entre os poderes Executivos e Legislativo. A negociação se torna muito desgastante para se levar adiante qualquer política pública. E, do ponto de vista do eleitor, essa fragmentação acentua o fato de que o eleitor brasileiro nunca se identificou com partidos e que sua escolha é personalista.

    Para onde foi o voto do eleitor do PT?

    Silvana Krause Ele se dispersou. O eleitor petista tem vários perfis. Eu diria que o novo eleitor petista, do século 21, diferente daquele [eleitor] histórico - que acompanha o partido desde a década de 1980 -, teve uma tendência muito maior de dispersar o voto. Tem mais partidos no país e aquele eleitor mais novo foi diversificando sua escolha. Além disso, uma parte se absteve, votou nulo ou branco. Os percentuais desses votos nos indicam essa possibilidade.

    Já o eleitor tradicional petista, uma parte dele se mantém fiel, outra optou por partidos como o PSOL ou também se abstive. O caso de Porto Alegre é interessante porque, se somarmos a votação do PSOL e do PT, ela se aproxima do primeiro colocado [Nelson Marchezan Jr, do PSDB]. No meu ponto de vista, não houve uma grande mudança do eleitor porto-alegrense, que é predominantemente um eleitor de centro-esquerda.

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