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Por que João Doria foi eleito de forma tão surpreendente na maior cidade do país

Estreante nas urnas e com um forte discurso anti-PT, empresário e apresentador de TV venceu no 1º turno e colocará novamente o PSDB à frente da Prefeitura de São Paulo

     

    João Doria Jr., de 58 anos, é o novo prefeito de São Paulo. O empresário tucano foi eleito neste domingo (2), no primeiro turno, com uma ampla vantagem em relação aos adversários. O segundo lugar ficou com o atual prefeito, o petista Fernando Haddad. Em seguida vieram Celso Russomanno, do PRB, e Marta Suplicy, do PMDB.

    É a segunda vez que o PSDB vence uma eleição na cidade de São Paulo. A primeira ocorreu em 2004, quando José Serra se tornou prefeito.

    O resultado da eleição paulistana

     

    A vitória de Doria é também uma vitória pessoal de Geraldo Alckmin, que apostou no empresário contra a vontade de boa parte do PSDB, algo que aumenta o poder de fogo do governador em suas pretensões de ser candidato ao Palácio do Planalto em 2018.

     

    “Não sou político, sou um gestor, um empresário”

    João Doria Jr.

    prefeito eleito de São Paulo

    A frase acima foi repetida como um mantra por Doria durante a campanha. Era uma maneira de o tucano se apresentar como um contraponto aos políticos tradicionais, desgastados em razão da série de escândalos revelados pela Operação Lava Jato e por um conturbado processo de impeachment que acabou na deposição da petista Dilma Rousseff da Presidência da República.

    Mas esse discurso, por si só, não explica a surpreendente vitória do empresário, algo que nenhum instituto de pesquisa captou antes que os paulistanos fossem às urnas. O Nexo lista abaixo alguns fatores que contribuíram para que São Paulo tivesse seu prefeito eleito ainda no primeiro turno em 2016, um fato inédito na maior cidade do país.

    Imagem de ‘outsider’

    O discurso “não sou político, sou gestor” agradou ao eleitorado insatisfeito com a política atual. Doria é filiado ao PSDB desde 2001. Nos anos 80, foi secretário municipal da gestão Mário Covas e foi presidente da estatal Embratur e do Conselho Nacional de Turismo no governo José Sarney. Desconhecido do eleitorado, a imagem de empresário bem sucedido e ex-apresentador de TV acabou sobressaindo durante a campanha.

    Sentimento paulistano anti-PT

    A capital paulista registrou os maiores protestos favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff entre 2015 e 2016. Doria explorou a rejeição à petista, ao prefeito Fernando Haddad e ao partido como um todo durante toda a campanha, prometendo “varrer o PT da cidade de São Paulo”.

    Dinheiro para fazer campanha

    O tucano declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 179 milhões. Era o mais rico entre os candidatos. E nestas eleições, em que empresas foram proibidas de financiar políticos, isso contou bastante, já que os limites para autodoações eram mais frouxos. A campanha dele foi a mais cara (R$ 13,4 milhões) em São Paulo. Ele doou para si próprio R$ 2,9 milhões. Haddad declarou despesas de R$ 11,7 milhões.

    Apoio do governo estadual

    Doria contou com apoio declarado de Alckmin. O governador não participou presencialmente da campanha, mas nos bastidores ajudou a formar a coligação de 13 partidos, o que rendeu a Doria o maior tempo de TV. Ao longo da campanha, Alckmin fez mudanças em seu secretariado e acomodou no primeiro escalão do governo os partidos aliados de Doria. O Ministério Público Eleitoral investiga Alckmin pela suspeita de uso da máquina pública em benefício de Doria, algo que ele nega.

    Poucos ataques

    Doria foi poupado pelos adversários no primeiro turno. No começo da campanha, ele tinha 5% das intenções de voto, o que parecia torná-lo um concorrente fraco. Longe das críticas e com tempo de sobra para atacar Haddad e apresentar propostas, Doria foi crescendo. Depois que despontou como um dos favoritos, a disputa continuou concentrada entre Russomanno, Marta e Haddad, na busca por uma vaga no segundo turno.

    O que representa a vitória de Doria

    A candidatura de Doria só avançou dentro do PSDB por força de Alckmin, de quem é aliado. Para o governador tucano, Doria simboliza um apoiador do seu projeto de disputar a presidência em 2018. Por essa razão, a vitória de Doria é também a de Alckmin.

    O empresário não tem apelo dentro do PSDB, mas tem forte ligação com setores do empresariado nacional, elo sempre importante em projetos presidenciais – mais caros e que demandam mais apoios do que pleitos municipais e estaduais.

    A lógica que guiou a escolha de Alckmin resultou num racha dentro do partido. Outros tucanos tinham planos de disputar a prefeitura, assim como outros tucanos têm planos de concorrer em 2018, como o senador Aécio Neves e o ministro das Relações Exteriores do governo Michel Temer, José Serra.

     

    O PSDB paulistano chegou a realizar uma prévia, na qual Doria foi acusado de comprar apoio de militantes. Andrea Matarazzo, um dos concorrentes, deixou a legenda fazendo fortes críticas contra o empresário. Ligado a Serra, Matarazzo filiou-se ao PSD e disputou a eleição como vice da peemedebista Marta Suplicy.

    Além de Serra e seu grupo, ficaram contra Doria o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador Alberto Goldman. Só na reta final algumas lideranças, como FHC, decidiram demonstrar seu apoio público ao candidato.

    Outra parte do partido, no entanto, manteve-se distante, inclusive com críticas públicas. A poucos dias da votação, Goldman chegou a escreveu em um artigo que Doria era “desprovido de escrúpulos”.

    O empresário e apresentador de TV

     

    Doria é formado em jornalismo e publicidade e era apresentador de um programa de entrevistas. A atividade empresarial e as palestras de motivação tornaram Doria conhecido de parte do público.

    Sua força está no grupo que leva o seu nome e reúne seis empresas, entre elas o Lide (grupo de Líderes Empresariais). Trata-se de uma associação que reúne alguns dos empresários mais ricos do país.

    O foco do Lide é organizar encontros entre representantes da iniciativa privada e autoridades públicas. Parte do faturamento de Doria, cujo valor ele não informa, veio de repasses do governo de São Paulo, de seu aliado Alckmin, e das administrações federais de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Desde 2005, foram ao menos R$ 10,6 milhões, segundo a “Folha de S.Paulo”.

    O que Doria pretende fazer na prefeitura

    Doria levou para a campanha seu perfil de empresário, assumindo um discurso pró-privatização que, até hoje, poucos tucanos se aventuraram a adotar.

    Doria prometeu vender bens municipais como o centro de eventos Anhembi, o autódromo de Interlagos, o estádio do Pacaembu e o Jóquei Clube.

    Já por meio das parcerias com entidades privadas, o tucano pretende ampliar o número de vagas em creches. Doria também pretende usar hospitais particulares para zerar a fila de espera por exames.

    Uma das propostas inclui a realização de exames em unidades particulares durante a madrugada. “A prefeitura [vai usar os hospitais privados], pagando muito menos do que se nós tivéssemos que implantar, comprar equipamentos, contratar pessoas”, afirmou durante a campanha.

    Doria também disse que vai retomar o limite antigo de velocidade nas Marginais e reavaliar as restrições colocadas nas demais vias. Ou seja, as plataformas do tucano vão de encontro com as principais bandeiras do atual prefeito.

    Sem apresentar valores nem como viabilizará as parcerias, Doria costumava dizer que a prefeitura tem dinheiro, mas faltava “eficiência”.

    A três dias da votação, Doria aproveitou a pichação do Monumento às Bandeiras, na zona sul da capital, para dizer que não será “leniente” e que responderá com agilidade a ação, segundo ele, de “vândalos”.

    “Vai acabar essa leniência. Cada um faz o que quer aqui em São Paulo. Comigo não, é autoridade. Isso é destruição. (...) Isso vai acabar”

    João Doria

    em vídeo gravado em 30 de setembro, em frente ao monumento

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