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Como o petróleo passou de solução a problema para os peruanos

Apesar de impulsionar o crescimento econômico do país nos últimos anos, vazamentos do produto em região amazônica causam danos ambientais e sociais constantes

 

O Peru foi o país que mais cresceu na América Latina em 2015, e a previsão do FMI (Fundo Monetário Internacional) é de que mantenha esse posto em 2016. Com uma economia baseada na exportação de commodities, o país vem conseguindo superar a queda de preços que atinge o setor desde 2011, e que se acentuou em 2014.

Desempenho econômico

 

Os setores que puxam as exportações peruanas são o de mineração e energia. O problema, agora, é que um dos principais produtos nessas áreas, o petróleo, passa por uma crise dupla no Peru.

Além da queda de preços do valor do barril, a questão ambiental começa a pesar no país. Esses efeitos, causados principalmente por uma rede de escoamento velha e sem incentivos para ser renovada, representam um problema a mais para o recém-eleito presidente Pedro Pablo Kuczynski, conhecido como PPK.

São mais de 20 vazamentos nos últimos cinco anos, todos em oleodutos operados pela estatal Petroperu. O último, no domingo (25), foi o quarto em quatro meses. A estrutura rompida é responsável por levar o petróleo extraído da selva amazônica, no norte do país, às refinarias localizadas na costa. Com esse histórico, suas operações foram suspensas até agosto de 2017, de acordo com as previsões do governo.

 

A queda e posterior paralisação na extração, somada à diminuição no preço do barril de petróleo no mercado mundial, constitui o cenário de desaceleração de produção da matéria-prima, que chegou a cair 33% em 2016. Como resultado, contribui para a retração no setor energético do país, que já encolheu 12% se comparado a 2015.

Além dos efeitos econômicos, os constantes vazamentos colocam a Petroperu, estatal de petróleo peruana, no centro de críticas e punições pelo impacto ambiental e social de suas falhas - sobretudo no Peru, que conta com um histórico de conflitos relacionados ao tema.

Estrutura antiga

O Oleoduto Nor Peruano acumula a maioria dos problemas. A estrutura que corta a região amazônica foi construída na década de 1970, mas apesar dos mais de 40 anos de idade, sofre apenas reparos pontuais quando apresenta problemas. Todos os seis derramamentos de petróleo no país em 2016, foram causados por essa tubulação.

Os dois primeiros, um em janeiro e outro em fevereiro, teriam sido ocasionados por deslizamentos de terra que romperam os canos do “Ramal Norte”, braço mais setentrional de todo o sistema.

Oleoduto Nor Peruano

 

Somados, os dois incidentes derramaram o equivalente a cerca de três mil barris de petróleo cru em campos de plantação e na natureza, atingindo três diferentes rios - todos eles fazem parte da bacia do Rio Marañón, um dos maiores do país.

Em junho, a Petroperu foi condenada a pagar o equivalente a três milhões de dólares por falhas na contenção de danos de um outro vazamento, ocorrido ainda em 2015. Outros seis processos contra a empresa ainda tramitam no sistema judiciário peruano, o mais antigo de 2013, que já se desembolsou outros 560 mil dólares por mais onze multas administrativas.

1.106

quilômetros de canos constituem o oleoduto Nor Peruano

O diretor de operações de limpeza pós-vazamentos da Petroperu, Victor Palomino, disse em entrevista à “BBC” que os acidentes são “inevitáveis”, mas que não falta manutenção ao oleoduto.

Já o ex-diretor da empresa, German Alarco, pensa diferente. Em entrevista à “Al Jazeera”, Alarco disse que “a companhia não direciona recursos suficientes e nem toma as atitudes necessárias para garantir que a tubulação opere de forma apurada e segura”.

Ações da população local

Um paradoxo dos últimos incidentes com petróleo na amazônia peruana é a atribuição dos vazamentos, por parte da Petroperu e de órgãos do governo, à própria população local, que termina por ser a maior prejudicada.

Os dois casos de agosto, nos dias 10 e 22, e o incidente do último domingo (25), foram, segundo o governo, frutos de danificações à tubulação perpetradas pelas comunidades da região. Dado o histórico de conflitos entre povos originários e empresas de extração de matéria-prima no país, a possibilidade de boicote fica implícita na acusação.

Mas para o ministro de minas e energia do recém-eleito governo de PPK, Gonzalo Tamayo, a culpa dessas ações também recai sobre a Petroperu. Segundo o jornal “El Comércio” empresa teria triplicado o valor do pagamento feito à mão-de-obra local contratada nos trabalhos de reparo, incentivando novas ocorrências semelhantes.

Para os habitantes da região, a atitude é também uma forma de chamar a atenção da estatal para a implementação de seu programa de remediação de comunidades afetadas, que recorrentemente ignora povoados indígenas prejudicados por vazamentos.

Conflitos não vêm de hoje

 

No início de março, a comunidade indígena da região, Wampis, sequestrou oito oficiais públicos em uma tentativa de ser incluída nos programas de reparo da Petroperu. Os vazamentos impedem as populações locais de plantar e pescar em áreas atingidas, afetando a base de suas alimentações. O governo, durante o sequestro, admitiu que errou.

A região é historicamente problemática. Em junho de 2009, foi palco de um dos episódios recentes mais traumáticos no Peru, conhecido como “El Baguazo”. As etnias Wampis e Awajún protestavam contra a instalação da companhia transnacional de mineração “Afrodita” em uma área protegida pela lei.

O governo peruano de Alan García tentava implementar uma série de políticas controversas de investimento em meio a um tratado de livre comércio com os Estados Unidos.

A polícia foi enviada para acabar com a manifestação, e ao lançar bombas de gás lacrimogêneo deu início a um conflito que deixaria 33 mortos, sendo 23 policiais. Um oficial permanece desaparecido até hoje.

Outras polêmicas envolvendo a empresa

 

A Petroperu também é acusada de empregar mão de obra infantil em seus trabalhos de contenção de danos e limpeza de áreas atingidas. Elas estariam trabalhando sem qualquer tipo de proteção, e segundo a “BBC”, várias apresentaram problemas de saúde, sendo hospitalizadas.

A estatal afirma que proíbe explicitamente o emprego de crianças nesse tipo de trabalho, e que investigaria as acusações.

A empresa também é acusada de continuar bombeando petróleo pelo encanamento que deveria estar desativado desde o início do ano, ocasionando um vazamento de mais de 600 barris. O presidente da companhia pediu demissão após o caso. A Petroperu assegura, contudo, que agiu sob os critérios permitidos pela agência estatal Osinergmin.

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