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Quais as causas e os efeitos da frase ‘não sou político’, adotada por vários candidatos nesta eleição

Discurso tornou-se o mote de muitas campanhas pelo país. Um cientista político fala sobre os limites dessa estratégia

     

    O candidato José Ricardo (PDT) disputa a prefeitura de Palhoça, cidade catarinense de 161 mil habitantes. João Doria (PSDB) é candidato em São Paulo, de 11 milhões de habitantes. Em comum, eles têm o hábito de repetir em suas agendas de campanha a expressão “não sou político, sou empresário”.

    A exemplo deles, tantos outros candidatos a prefeito e a vereador pelo país têm usado como estratégia para se diferenciar dos adversários a pouca ligação com a atividade política.

    Há exemplos assim também em Belo Horizonte, com Alexandre Kalil (PHS), empresário e ex-presidente do Atlético-MG. Quando se pesquisa o site do candidato mineiro em sites de busca, lê-se ao lado do seu nome “Chega de político”. No Rio, Carlos Osorio (PSDB) recorre a esse discurso. “Eu não sou político profissional. Não tomo decisão baseada em cálculo político”, disse em entrevista recente.

    Consequência da crise política

    Esse tipo de comportamento já era esperado nestas eleições, segundo profissionais ligados ao marketing eleitoral. Enfatizar ainda mais a figura pessoal do candidato e dar pouco destaque ao partido ou à sua trajetória partidária seriam formas de tentar atrair o eleitor que está decepcionado com a política.

    Embora não seja um fenômeno recente, essa decepção está mais forte nestas eleições, consequência da crise nacional e da sucessão de escândalos revelados pela Lava Jato, que investiga os maiores partidos do país. Uma pesquisa feita pelo Instituto Ibope, em julho de 2015, mostrou que a confiança do brasileiro nos partidos caiu de 30 para 17, numa escala de zero a 100.

    O Nexo entrevistou o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV, sobre essa estratégia.

    É possível um candidato não ser um político?

    Marco Antonio Carvalho Teixeira “Com certeza não, porque a disputa é política. No caso de Doria, por exemplo, para ele ganhar as prévias do PSDB, ele passou por um processo muito marcado pela política tradicional (houve articulação por apoio, troca de acusações entre os candidatos…).

    Esse tipo de discurso [‘não sou político’] é muito mais para agradar uma plateia que tem restrições a políticos e, por mais paradoxal que seja, tentar passar uma mensagem de que, quem dá certo na política, é alguém de fora dela. É um discurso de negação da política.”

    Quais os efeitos de se defender essa ideia?

    Marco Antonio Carvalho Teixeira “Para a atividade política tem um efeito nocivo. Política não é técnica, no sentido burocrático da palavra. Política é arte da negociação e da inclusão do outro, não da negação. O mais paradoxal de tudo é que se trata de um discurso antipolítico disputando um processo eminentemente político. É um discurso, como se costuma chamar, de ‘janela de oportunidade’, aproveitando o desgaste causado pela crise política.”

    Qual a contradição entre esse discurso e a prática?

    Marco Antonio Carvalho Teixeira “Se um candidato com esse discurso for eleito, quando prefeito ele terá que negociar com a Câmara Municipal [para aprovar os projetos que deseja], terá que ouvir as demandas de diversos grupos de interesse, terá que fazer concessões, verá que ele não consegue fazer tudo que imagina. É um cotidiano político.

    [Essa fala] acaba gerando uma falsa expectativa no eleitor. Ninguém consegue governar apenas com base em critérios e decisões técnicas. Tem que se negociar as decisões de governo também. Isso é fazer política. Fazer concessões ou negociar não significa, necessariamente, sucumbir a algum tipo de maldade, do ponto de vista do interesse público. Muito pelo contrário, é a forma que se tem de construir consensos, de acomodar divergências.”

     

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