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Por que a Noruega quer abater a maioria dos lobos selvagens do país

Os animais desapareceram da Escandinávia na década de 60, mas sua população se recuperou a partir dos anos 90

 

Após décadas de recuperação, a população de lobos selvagens da Noruega pode ter uma queda de mais de dois terços. Sob a alegação de que rebanhos de ovelhas estão sendo prejudicados pelos animais, o governo aprovou a concessão de licença para a caça de 47 deles. Atualmente, a população é de cerca de 68 lobos.

A determinação do governo é de que 24 poderão ser mortos em áreas do país designadas como seu habitat. Outros 13 serão mortos em áreas próximas e 10 em outras regiões.

Anualmente o governo concede a caçadores a permissão para abater um número pré-determinado de lobos, mas a quantidade de licenças a serem concedidas para a próxima temporada de caça, que na Noruega vai de 1º de outubro a 31 de março, chocou ambientalistas.

Segundo informações de entidades de defesa do meio ambiente concedidas ao jornal britânico “The Guardian”, o governo norueguês não promove uma mortandade tão grande de lobos desde 1911.

A caça dos 47 animais pode representar a reversão de uma tendência de crescimento populacional que se verifica desde o final do século 20.

O crescimento da população de lobos

Fortemente atacados com envenenamento e caça, os lobos foram completamente dizimados da Escandinávia entre os séculos 19 e 20. Na década de 60 já não havia nenhum lobo na região.

Mas, durante os anos 80, uma alcateia vinda de outra região se estabeleceu novamente no sul da Escandinávia, onde passou a viver de forma isolada.

Publicado em 2002 na revista “Proceedings of the Royal Society”, o artigo “Resgate por um único imigrante de uma população de lobos (Canis lupus) severamente isolada”, em uma tradução livre, conta a história de como esse grupo foi a origem do crescimento da população de lobos na região. O trabalho se baseia na coleta de material genético dos animais entre 1984 e 2001.

Segundo o artigo, o grupo de cerca de dez lobos se originava de uma única fêmea e um único macho. Por diversos anos a alcateia permaneceu pequena, com cerca de dez animais.

Como os cruzamentos ocorriam apenas entre membros de uma mesma família isolada, a variabilidade genética do grupo diminuiu gradativamente, algo relativamente comum entre populações esparsas de animais selvagens na Europa.

Isso é um problema porque, de acordo com pesquisas realizados entre lobos de cativeiro no final da década de 90, a falta de variabilidade genética traz problemas de saúde como cegueira hereditária. Ainda de acordo com o trabalho, populações desses animais tendem a diminuir a sua reprodução quando os únicos parceiros disponíveis são familiares próximos.

A partir de 1991 a população de lobos começou, no entanto, a crescer rapidamente, atingindo a marca de 10 a 11 grupos, ou cerca de 100 animais na Escandinávia em 2002. De acordo com análises genéticas, o forte crescimento se deveu à chegada naquele ano de um único lobo na região, vindo provavelmente da Finlândia ou da Sibéria. Ele passou a se relacionar com os lobos estabelecidos no local, quebrando seu isolamento.

Segundo o trabalho, dos 72 lobos nascidos entre 1993 e 2002, pelo menos 68 têm este viajante solitário como ancestral. O país com a maior população de lobos da Europa é a Espanha, com cerca de 2.000 em 2015.

300

Era a população de lobos na Escandinávia como um todo em 2015, segundo o artigo científico “A persistência de um paradigma econômico: Consequências não planejadas do manejo de lobos noruegueses”, publicado naquele ano na publicação científica “Human Dimensions of Wildlife”

A relação entre os noruegueses e os lobos atualmente

Hoje, a população norueguesa tem uma atitude ambígua em relação aos lobos. As comunidades urbanas tendem a ter uma visão positiva dos animais, enquanto aqueles que vivem no campo tendem a encará-los como um problema.

Além de serem uma potencial ameaça aos rebanhos, há também o temor de que os animais ataquem seres humanos. Além disso, eles competem com caçadores por animais como alces e castores.

Segundo reportagem publicada em 2015 no jornal britânico “The Guardian”, a caça ilegal a lobos é comum no país. Naquele ano, cinco homens foram condenados à prisão por um período de seis meses a um ano devido à prática.

Ainda não há dados sobre o número de candidatos a matar os 47 lobos que já tiveram a morte autorizada pelo governo em 2016, mas a busca deve ser grande. Em 2015, 11.571 pessoas se registraram para caçar 16 animais. A taxa foi de 723 caçadores por lobo.

Com uma população de cerca de 5 milhões de pessoas, o país tem mais de 200 mil caçadores registrados.

A reação de entidades de defesa dos animais

Entidades de defesa dos animais têm se manifestado de forma contrária à autorização para a caça.

“É inacreditável que se possa decidir matar a tiros 47 lobos de uma população de entre 65 e 68 animais. É assustador que atitudes tão extremistas estejam ditando as políticas para a vida selvagem [da Noruega]. Isso é um massacre, nós não vimos nada desse tipo por cerca de 100 anos, quando a política era de que todos os grandes predadores deveriam ser exterminados”, afirmou em entrevista ao jornal britânico “Express” Silje Lundberg, uma das lideranças da Naturvernforbundet, a maior organização de defesa do meio ambiente da Noruega.

Segundo ambientalistas, não há registros recentes de ataques de lobos contra humanos no país. Eles argumentam que rebanhos são criados soltos nos campos noruegueses, e que o desaparecimento de qualquer animal é automaticamente creditado aos lobos. Isso daria aos animais uma má fama injustificada entre os fazendeiros.

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