Como uma trans presa por vazar dados ao Wikileaks obteve direito à cirurgia de redesignação sexual

Bradley Manning assumiu a identidade de Chelsea um dia após ser condenado por vazar dados sigilosos do governo americano. Atrás das grades, poderá realizar a cirurgia de redesignação sexual

     

    Em 2013, o ex-analista de inteligência do Exército americano, Bradley Manning, foi condenado a 35 anos de prisão por ter vazado dados sigilosos para o site americano Wikileaks três anos antes. Ele expôs mensagens diplomáticas de bastidores sobre a guerra do Iraque, assim como um vídeo secreto em que um helicóptero americano metralhava crianças e jornalistas no país.

    Em 22 de agosto de 2013, um dia após sua condenação, Manning anunciou publicamente que gostaria de ser reconhecida como uma mulher, Chelsea. Atrás das grades, ela conseguiu permissão para realizar a operação de redesignação sexual, popularmente conhecida como “cirurgia de mudança de sexo”, mais de três anos depois. Seus advogados divulgaram a decisão favorável na terça-feira (13).

    Essa é a última de uma série de conquistas de Chelsea para ter reconhecida sua identidade de gênero. Com isso, a delatora se tornou um improvável símbolo de como os direitos de transexuais estão pouco a pouco ganhando espaço no Exército norte-americano. Transexual é a pessoa que se identifica com o gênero oposto ao seu sexo biológico. Ela pode ter passado pelo processo de redesignação ou não.

    A luta de Chelsea Manning até a cirurgia de redesignação sexual

    Sinais de que Chelsea Manning se considerava uma mulher, e não um homem, estão presentes desde muito antes de sua prisão. Em novembro de 2009, quando trabalhava em uma base do Exército em Bagdá, ela entrou em contato pela internet com um consultor de gênero nos Estados Unidos, segundo uma reportagem publicada em 2011 pela revista “New York Magazine”.

    “Bradley sentia que era do gênero feminino. Ele tinha isso bem claro, e realmente desejava a cirurgia, mas tinha medo, principalmente, de ficar sozinho, de ser ostracizado”, afirmou o conselheiro, que não teve o nome revelado pela revista.

    Durante o tempo em que serviu no Exército, chegou a adotar, em redes sociais, o alter ego Breanna Manning.

    Na época vigorava na instituição a política de “não pergunte e não conte” (“don’t ask, don’t tell”), que vetava a presença de pessoas abertamente gays, bissexuais e lésbicas, ao mesmo tempo em que buscava impedir que o assunto fosse trazido à tona, permitindo que indivíduos “no armário” continuassem a servir. A transexualidade também era proibida.

    Em paralelo à crise de identidade de gênero, Bradley Manning se mostrava cada vez mais desconfortável com as mortes causadas, ainda que indiretamente, pelo seu trabalho. Ele passou a entrar em contato com o Wikileaks em um período no qual se mostrava emocionalmente instável. Chegou a virar uma mesa em um acesso de raiva.

    Em audiências posteriores, seus advogados levantaram questionamentos sobre se a crise de identidade de gênero pela qual Chelsea passava teria influenciado na sua decisão de vazar dados confidenciais.

    “Eu sou Chelsea Manning. Eu sou uma mulher”

    As questões sobre a sua sexualidade e identidade de gênero foram trazidas à tona durante seu julgamento, mas Chelsea declarou oficialmente sua identidade como mulher um dia depois de ser condenada a 35 anos de prisão. Na época, ela não pediu a cirurgia de redesignação, mas apenas a terapia hormonal, que tem o efeito de redistribuir a gordura corporal, de forma que essa se acumule mais no culote, nos seios e nas nádegas, propiciando o crescimento das mamas e a redução da quantidade de pelos no corpo.

    “Eu sou Chelsea Manning. Eu sou uma mulher. Dada a maneira como eu me sinto e me senti desde a infância, eu quero começar a terapia hormonal o mais cedo possível”, afirmou em uma carta aberta lida pelo seu advogado, David E. Coombs, no programa de TV “Today”, da rede NBC.

    Os obstáculos para soldados transexuais

    Na época, o Exército americano afirmou, no entanto, que não oferecia terapia hormonal ou cirurgia de redesignação sexual. De acordo com o coronel Stephen Platt, porta-voz do Exército, prisioneiros poderiam ter acesso apenas a cuidados psiquiátricos.

    Chelsea tinha um obstáculo extra para acessar o tratamento hormonal. Presa na penitenciária de Fort Leavenworth, ela ainda era considerada um soldado do Exército. E como tal era obrigada a vestir uniformes e manter uma aparência militar profissional, que incluía não deixar o cabelo crescer.

    A grande repercussão de seu caso contribuiu para que medidas inéditas no que diz respeito aos direitos de transexuais fossem adotadas.

    As primeiras vitórias de Chelsea

    Em fevereiro de 2015, o Departamento de Defesa aprovou o pedido de terapia hormonal de Manning, antes de a transexualidade ser oficialmente aceita no Exército. O direito nunca havia sido concedido anteriormente a uma militar. No mês seguinte, uma corte militar determinou que ela devia ser reconhecida como mulher, e tratada com pronomes femininos ou neutros.

    Em abril de 2016 Chelsea obteve a recomendação de seu psicólogo para que passasse pela cirurgia de redesignação sexual, mas não pôde fazê-lo imediatamente. A prisioneira chegou a ser hospitalizada após tentar o suicídio em julho de 2016. Não está clara a maneira pela qual a tentativa ocorreu, ou se ela foi uma reação ao veto ao procedimento.

    A probabilidade de que passaria pelo processo de redesignação sexual aumentou no final de junho de 2016, quando a instituição acabou com o veto a pessoas assumidamente transexuais em seus quadros.

    Greve de fome e liberação da cirurgia

    No dia 9 de setembro, Chelsea iniciou uma greve de fome em protesto contra o tratamento que vinha recebendo na prisão. Ela disse que não iria cortar seu cabelo ou comer e beber voluntariamente, a não ser que recebesse “padrões mínimos de dignidade, respeito e humanidade (...) Eu preciso de ajuda. Por favor, me ajudem”.  A liberação da cirurgia ocorreu quatro dias depois, fazendo com que Chelsea abandonasse a greve de fome.

    Até o momento, não há nenhum caso nos Estados Unidos de um prisioneiro que tenha passado pela cirurgia de redesignação sexual. Apesar de o Estado da Califórnia ter fechado um acordo em agosto de 2015 com a defesa de Shiloh Quine, se comprometendo a pagar pela sua cirurgia, esta ainda não ocorreu.

    Em um comunicado divulgado por seus advogados, Chelsea se mostrou agradecida pela decisão, mas não deixou de criticar o Exército por não ter concedido a permissão anteriormente.

    “Eu estou infinitamente aliviada pelo fato de que os militares finalmente estão fazendo a coisa certa. Eu os aplaudo por isso. Isso é tudo o que eu queria - que eles permitissem que eu fosse eu mesma. Mas é difícil não me perguntar por que demorou tanto. E por que medidas tão drásticas foram necessárias? A cirurgia foi recomendada em abril de 2016. As recomendações para o comprimento de meu cabelo, em 2014”

    Chelsea Manning

    Em declaração apresentada por seus advogados à imprensa

    Ela comemorou a decisão em sua conta do Twitter - Chelsea não tem acesso a internet na prisão, mas dita seus tuítes por telefone para a empresa de comunicação Fitzgibbon Media, que os digita e tuíta em seu nome.

     

    Segundo um de seus advogados atuais, Chase Strangio, até que o processo de transição ocorra, Chelsea Manning ainda será obrigada a manter os cabelos curtos, seguindo as regras estabelecidas para soldados homens no presídio.

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