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Como cientistas acharam nas erupções vulcânicas uma ideia para lidar com o aquecimento global

Geoengenharia solar é a área de estudos que pesquisa tecnologias para bloquear ou refletir os raios solares e, com isso, reduzir a temperatura da Terra e equilibrar as consequências do efeito estufa

    Conhecido como “o ano sem verão”, 1816 marcou uma época assustadora para a Europa e os Estados Unidos. Naquele ano, as temperaturas não subiram com a chegada da primavera, como sempre tinha acontecido.

    A neve e as geadas, em grande quantidade, persistiram durante o verão e impactaram severamente as colheitas no hemisfério norte - que produziram 75% menos do que o normal.

    O resultado foi um aumento nos preços da comida e fome em massa. O não-verão de 1816 causou crescimento da miséria, da criminalidade e de uma tensão social que acabou com carreiras de governantes. Na época, o medo e a convicção eram de que aquilo tudo era um sinal do fim do mundo.

     

    Anos depois, a ciência desvendou o mistério do ano sem verão. A erupção massiva de um vulcão em Java, na Indonésia, em 1815, provavelmente gerou um efeito em cadeia que resultou em um desequilíbrio de correntes marítimas, massas de ar e causou, por fim, a queda de temperaturas no verão do hemisfério norte.

    O episódio em 1815 é o exemplo mais extremo de erupção vulcânica responsável pela diminuição de temperatura no planeta. Mas ao longo da história, outras erupções menores e menos expressivas também contribuíram - em escala bem menor - para a queda na temperatura em alguns centésimos ou décimos de grau.

    O conhecimento sobre o mecanismo por trás desse fenômeno pode ser útil para a humanidade. Alguns cientistas defendem que nosso conhecimento sobre erupções vulcânicas pode nos ajudar a resfriar o planeta para além da diminuição de emissões de CO2 - e dessa forma adiar ou reduzir o impacto social e ecológico do aquecimento global.

    Efeitos de uma erupção vulcânica na temperatura

    O episódio fora da curva de 1816 é a maior prova de que mudanças aparentemente pequenas na temperatura do planeta, de 2 ou 3 graus para mais ou para menos, podem desregular completamente os sistemas térmicos da Terra.

    Registros históricos dão conta de que, em abril de 1815, um vulcão entrou em erupção em Java, na Indonésia. Foi uma das maiores explosões vulcânicas da história: acredita-se que o deslocamento de terra, rochas e lava tenha matado imediatamente entre 10 mil e 15 mil pessoas, enquanto outras 80 mil teriam morrido depois, vítimas da camada enorme de cinzas que caiu sobre casas e colheitas.

    Mas não parou por aí. Os efeitos do vulcão alteraram a temperatura do planeta - e praticamente anularam uma estação do ano para continentes a milhares de quilômetros dali mais de um ano depois. Veja como isso é possível:

    Como um vulcão em erupção resfria o planeta

    Dióxido de enxofre

    Estima-se que a erupção do vulcão em Java tenha jogado cerca de 55 milhões de toneladas de dióxido de enxofre, um dos gases vulcânicos mais comuns, na atmosfera e na estratosfera do planeta.

    Aérossois

    O dióxido de enxofre é uma substância que, em contato com a atmosfera, forma tipos de gases conhecidos como aerossóis, que são gases com partículas sólidas suspensas.

    Refletindo radiação

    Ao contrário dos gases do efeito estufa, os aerossóis refletem a radiação do sol de volta. Com menos raios atingindo a superfície do planeta, a temperatura cai.

    Queda na temperatura

    A nuvem de dióxido de enxofre emitida pelo vulcão bloqueou apenas 1% da luz solar, o que reduziu a temperatura média do planeta em quase 2 °C.

    Efeito em cadeia

    Essa queda foi o suficiente para gerar um efeito meteorológico em cadeia. Massas de ar responsáveis pelo ciclo normal das estações foram alteradas em temperatura e em curso - o resultado foram temperaturas muito abaixo de zero em lugares que estavam acostumados com verões de 20ºC a 30ºC.

    Geoengenharia solar

    É impossível controlar erupções vulcânicas. Mas talvez seja possível simular, de alguma forma, os efeitos dela na estratosfera da Terra para bloquear uma parcela dos raios solares e reduzir a escalada do aquecimento global - e seus impactos.

    Esse é um dos esforços de uma área de estudos chamada de geoengenharia solar. Ainda tímida, é a área da ciência que estuda tecnologias para aumentar a capacidade da Terra de refletir raios solares.

    O mais proeminente embaixador desse tipo de tecnologia para controlar o aquecimento global é o físico David Keith, pesquisador da Universidade de Harvard, nos EUA. Keith defende que bloquear os raios do sol seria uma maneira rápida e barata de esfriar o planeta.

    Críticas temem que geoengenharia solar sirva como desculpa para não cortar emissão de gases do efeito estufa

    As pesquisas na área ainda engatinham. Atualmente, países da Europa e a China investem dinheiro nesse tipo de pesquisa - os EUA, no entanto, não demonstraram interesse governamental em incentivar os estudos de geoengenharia solar, por enquanto.

    A maioria dos estudos até agora sugere a emissão proposital e controlada de sulfatos na atmosfera. Essas substâncias reagiriam e formariam aerossóis, que refletiriam parte da radiação solar.

    A ideia, segundo especialistas, não é “remendar” o mal causado pelo aquecimento global, mas permitir que a humanidade ganhe mais tempo para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

    Mesmo assim, as críticas, alertam para o perigo da “gambiarra”. Além de tal solução poder servir de desculpa para governos que não se esforçam em reduzir a emissão de gases do efeito estufa, bloquear parte dos raios do sol poderia ter outros efeitos, indesejados, para o ecossistema do planeta.

    O principal e mais preocupante é que bloquear o sol com aerossóis provavelmente tornaria o planeta mais seco. E como já vimos muitas vezes antes, pequenas mudanças no clima da Terra podem ter resultados catastróficos.

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