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Por que fatos importam pouco quando a convicção é grande demais

Segundo pesquisa de Harvard, dados científicos servem pouco para mudar a opinião das pessoas

     

    A sociedade nunca esteve tão dividida, diz uma pesquisa do instituto americano Pew Research Center. Ao que tudo indica pelas reações populares aos acontecimentos políticos nacionais, a constatação também se aplica ao Brasil.

    Independente do país, do momento histórico, faixa etária ou círculo social, há um fator fundamental no interior dessa divisão: os fatos não têm ajudado a minimizar os conflitos nem esclarecer questões.

    Em um artigo no jornal “The New York Times” publicado no final de 2016, Tali Sharot, professora de neurociência da University College London, e Cass R. Sunstein, professor de direito de Harvard, explicaram a contradição.

    Os dois realizaram juntos a pesquisa “How People Update Beliefs about Climate Change: Good News and Bad News” (como as pessoas atualizam as crenças sobre a mudança climática: boas notícias e más notícias). Nela, mostraram como a ciência, com seus dados e fatos comprovados, não tem o poder de mudar a opinião das pessoas.

    Como foi a pesquisa

    Os acadêmicos perguntaram a mais de 300 cidadãos americanos questões relacionadas à mudança climática. Com base nas respostas, eles dividiram os entrevistados em três grupos:

    • Pessoas que acreditavam fortemente na responsabilidade da humanidade para as mudanças climáticas
    • Pessoas que acreditavam moderadamente
    • Céticos

    Mesmo quando informadas que cientistas acreditam que a média de temperatura nos EUA deve subir 3,4ºC até o ano de 2100, aqueles que se declararam céticos em relação ao aquecimento global apostaram que esse aumento deve ser de apenas 2ºC.

    Já aqueles que acreditavam fortemente na responsabilidade da humanidade para as mudanças climáticas previram que o aumento deve ser de 3,5ºC, ainda maior do que esperam os cientistas.

    Em uma segunda etapa do estudo, os pesquisadores deram aos participantes, escolhidos aleatoriamente, um cenário mais positivo e um mais negativo da previsão científica. Então perguntaram, mais uma vez, o quanto eles acreditavam que as temperaturas iriam subir, considerando esses novos cenários.

    Céticos se comoveram pelas boas notícias do cenário positivo, mas não mudaram sua estimativa. Pessoas que acreditavam fortemente no impacto da humanidade no planeta, por contraste, sensibilizaram-se com as más notícias, mas não mudaram de opinião apesar das boas. Moderados corrigiram suas estimativas nos dois casos.

    A conclusão da pesquisa é a de que pessoas céticas em relação às mudanças climáticas não se alarmam por más notícias, a despeito dos fatos. Ao mesmo tempo, pessoas extremamente preocupadas com a questão não se acalentam com boas notícias, sejam elas fruto de pesquisas empíricas ou não.

    O que isso diz

    Quando se trata de política, escrevem os pesquisadores, tendemos a dar menos peso a um fato, mesmo que positivo, se ele ameaçar de alguma forma nossas mais profundas crenças.

    No caso da pesquisa, por exemplo, apesar da boa notícia de que talvez o aquecimento global não seja tão grave, pessoas extremamente preocupadas com ele não deixaram de prever um cenário catastrófico. Isso ajuda a explicar a polarização de opiniões em muitos casos.

    Sharot e Sunstein usam outro caso como exemplo: apoiadores do Obamacare, uma tentativa de criação de um SUS americano, dão atenção ao fato de que a lei de Barack Obama deu a milhares de cidadãos o acesso a um seguro de saúde público. Críticos do sistema se atêm à informação de que o plano encareceu os cuidados com saúde nos Estados Unidos. Ambos os fatos são verdadeiros, mas cada um pega a parte que lhe convém. 

    O mesmo sistema de crenças e importância dado aos fatos pode ser aplicado a qualquer tema de polêmica na sociedade: terrorismo, salário mínimo, Lava Jato, impeachment. Todas as pessoas dão mais importância aos fatos que reforçam suas crenças, e tendem a amenizar aqueles que podem afetá-las.

    Em 2015, o pesquisador Stefan Schubert, da London School of Economics, criou um teste que permite medir o nível de “viés” das pessoas, a partir de perguntas objetivas, baseadas em fatos cientificamente comprovados.

    A porcentagem de erros em determinado sentido entre o total de erros mostra uma tendência mais à esquerda ou à direita do espetro político de quem responde às perguntas. É possível realizar o teste, em inglês, aqui.

    Entre as perguntas está, por exemplo, se organismos geneticamente modificados são prejudiciais à saúde e se os gastos do governo americano com ajuda americana são muito onerosos ao Estado.

    “Você ignora evidências que são inconvenientes para o seu ponto de vista e fica excessivamente animado com as que o reforçam?”, questiona o jornalista Jess Whittlestone, do site “Vox”.

    Segundo ele, a maior parte das pessoas tende a negar sua parcialidade, pois gosta de acreditar que tem opiniões bem embasadas.

    “De fato, há um nome para o viés em ver tendência nos outros enquanto não reconhecer em si mesmo: é o ‘ponto cego do enviesamento’”, escreve Whittlestone.

    Os acadêmicos da primeira pesquisa, no entanto, veem uma luz no final do túnel: a maior parte de seus entrevistados se mostrou disposto a mudar de opinião, em certa medida. Foi o caso dos moderados, que corrigiram suas previsões sobre a mudança climática quando lhes foi dado um novo cenário científico. “Para aqueles que acreditam no aprendizado e na democracia, isso é uma ótima notícia”, concluem.

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