O que o filme ‘Aquarius’ diz sobre a realidade urbana do Recife

Prédios de alto padrão na orla e mercado agressivo trazem reflexão sobre cidade, patrimônio e memória

     

    Mais de meio século atrás, o cinema brasileiro entoava, na trilha de Sérgio Ricardo para o filme de Glauber Rocha “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), a profecia de Antônio Conselheiro: “O Sertão vai virar mar/e o mar vai virar sertão”. 

    Em 2016, o “Aquarius” de Kleber Mendonça Filho, produção pernambucana que trata da batalha entre uma construtora que quer pôr abaixo o último prédio do século passado na beira da praia e sua moradora remanescente, poderia dar origem a outro canto sobre a paisagem nordestina - desta vez urbana. A orla do Pina (bairro nobre na zona sul da capital pernambucana, contíguo a Boa Viagem) virou prédio de alto padrão.

    Pelo filme, o cineasta reafirma sua intimidade com os temas urbanos de sua cidade de origem, o Recife. Essa inclinação já tinha sido indicada no curta “Recife Frio” (2009) e também em “O Som ao Redor” (2012), seu primeiro longa ficcional. 

    O debate sobre a verticalização

    A construção de prédios altos como norma nas cidades brasileiras teve origem na década de 1970. Segundo o arquiteto pernambucano César Barros, o Recife “chegou tarde” em relação a outras cidades brasileiras.

    “O poder de compra mais baixo da população deixou o Recife para trás de outras metrópoles como Salvador, que explodiu muito mais rápido”, explica o arquiteto em entrevista ao Nexo.

    A defesa da verticalização pelas construtoras passa pelo discurso da modernização e pelo ganho imobiliário resultante da multiplicação do solo - isto é, poder construir um número maior de unidades comerciais ou residenciais em um terreno de mesma metragem onde havia uma ou duas casas, ou mesmo um edifício de poucos andares.

    É o caso do edifício Aquarius, nome ficcional do Oceania, que serviu de locação para o filme e também esteve ameaçado pela demolição.

    Em nome desse ganho imobiliário, entra o argumento do “adensamento”, o crescimento vertical da cidade capaz de concentrar mais pessoas, que seria uma qualidade desejável para os serviços e a mobilidade de uma região.

    Quando esse processo se dá sem a infraestrutura necessária para o acréscimo populacional e sem o planejamento da relação do novo edifício com o entorno, porém, a verticalização acaba se tornando antes um problema urbano do que uma solução.

    “A maior parte dos bairros verticalizados atende famílias com renda mais alta do que a de seus moradores originais, em prédios com muitos carros na garagem, sem relação com o espaço público da rua, ignorando impactos na paisagem, no trânsito, no entorno.”

    Raquel Rolnik

    Arquiteta e urbanista, professora da FAU - USP

    A arquiteta lembra também que há outras questões envolvidas nessa discussão, como a relação entre o espaço público e o privado, o “lugar” de cada grupo social na cidade, as densidades, a paisagem, a história e a memória da cidade.

    Todos esses aspectos aparecem em “Aquarius”. Estão na ligação afetiva da protagonista com o lugar onde mora, na empregada doméstica que vive em Brasília Teimosa (favela urbanizada ao lado do bairro nobre do Pina), nas imagens da orla intensamente marcadas pelos “espigões”.

    Para César Barros, a verticalização prejudicou a qualidade urbana por “cultuar uma ‘arquitetura do medo’”, caracterizada por prédios isolados, muros altos, guaritas, varandas gourmet: um mundo que, para ele, lembra um  minigolfe. 

    Esse paradigma teve grande impacto na dinâmica urbana brasileira porque tirou as pessoas da rua, uma vez enclausuradas nas torres dos condomínios.

    Além disso, com os prédios monopolizando o território, muitos bairros perderam a identidade e a estrutura caminhável para os pedestres, como boas calçadas, voltando-se para o carro.

    “Existe uma banalização dessa tipologia vertical, necessária ou não. Nesse boom da bolha, há oferta não só de unidades construídas como de unidades não construídas, de loteamentos, o que cria uma demanda fictícia”, diz César Barros.  

    Recife: um breve histórico

    Se por uma lado “saiu atrasada” na verticalização que já alterava a paisagem de outras cidades brasileiras décadas antes, a capital pernambucana assistiu, nos últimos 15 anos, a uma intensa atividade do mercado imobiliário.

    A orla de Boa Viagem, na zona sul, e Casa Forte, ao norte, foram os principais focos da especulação, segundo Barros. De acordo com uma reportagem  do “Diário de Pernambuco”, Recife ocupa a sexta posição entre as cidades com o metro quadrado mais caro do Brasil.

    A partir dos novos investimentos no complexo portuário de Suape, iniciados em 2007, a capital teve um boom na produção de novas unidades imobiliárias e a especulação cresceu, com muitas delas compradas para ficarem vazias. O objetivo não era atender à demanda, mas ditar o preço do aluguel e do metro quadrado na cidade.

    Houve, além disso, uma proliferação de bairros planejados e grandes projetos de intervenção urbana - que nem sempre saíram do papel - que influíram na articulação de movimentos sociais urbanos. Em geral, esses empreendimentos seguem o modelo das Parcerias Público Privadas, com parte dos investimentos feitos pelo Estado e parte pelo setor privado.

    Alguns projetos de intervenção urbana

    Complexo portuário

    Localizado na Região Metropolitana do Recife, entre os municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, o complexo industrial portuário, ou Porto de Suape, é um projeto dos anos 70 que recebeu novos investimentos na década passada.  Fazem parte do complexo a Refinaria Abreu e Lima (cujas obras ainda não foram concluídas), o Estaleiro Atlântico Sul e a Petroquímica Suape.

    Segundo uma declaração de 2013 de Eduardo Campos, então governador do Estado de Pernambuco, foram investidos no Complexo Portuário R$ 1,3 bilhão pelo governo estadual e R$ 500 milhões pelo governo federal.

    A construção do complexo teve impacto ambiental  sobre o estuário do Rio Ipojuca e não significou, segundo um relatório de 2011 do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em uma melhora nas condições de vida para a população local.

    A atração de investimentos para o porto movimentou a economia do Estado de Pernambuco, tendo impacto inclusive nos empreendimentos urbanos do Recife.

    Novo Recife/Cais José Estelita

    Em 2008, no contexto geral de preparação do país para os megaeventos (no caso, a Copa das Confederações e a Copa do Mundo), a área do Cais José Estelita foi arrematada em leilão pelo Consórcio Novo Recife.  

    Localizada no centro da cidade, a área pertencia ao espólio da Rede Ferroviária Federal e consistia em armazéns desativados. O projeto de intervenção do consórcio, formado por construtoras e empreiteiras, previa a implantação de um empreendimento de luxo, com torres residenciais, comércio e serviços especializados.

    O projeto contava com algumas propostas voltadas ao conjunto da sociedade, como a construção de um parque, um centro cultural e unidades de habitação social.

    Os questionamentos em torno da formulação e aprovação do projeto vão desde o leilão, questionado pelo Ministério Público Estadual e Federal, passam pela proposta urbanística, pela aprovação relâmpago dos empreendimentos na Câmara Municipal, sem a participação da sociedade civil, pelas remoções previstas e pela expulsão do trabalho informal na região, que responde pelo sustento de uma parte significativa da população local. 

    Em resposta, surgiu o movimento “Ocupe/Resiste Estelita”, com atos e ocupações que buscaram fazer frente ao projeto de intervenção urbana da área. A compra do terreno foi anulada pela Justiça em 2015.

    Operação urbana Joana Bezerra

    A primeira lei específica do Recife que aprovava um plano de Operação Urbana Consorciada (OUC), a OUC Joana Bezerra  (OUC-JB – Lei Municipal nº 17.645), foi sancionada em setembro de 2010.  Voltada para a criação de um Polo Jurídico, a operação incluía transformações urbanísticas, sociais e ambientais em uma área pública, ocupada predominantemente pela Zona Especial de Interesse Social (Zeis) Coque.

    O instituto das Zeis no Estatuto das Cidades, segundo o artigo 4º da lei 16.113/95, protege a permanência da população de baixa renda em uma área determinada.

    “Para construir os 217 mil metros quadrados de imóveis, o Poder Judiciário terá que garantir à população um centro de referência ambiental - com centro de triagem de recicláveis e urbanização das margens do Rio Capibaribe -, anel viário, sistema viário de acesso à estação intermodal ônibus-metrô e um parque”, informa o site da Câmara Municipal de Recife.

    A viabilização da obra dependia principalmente de recursos públicos e teve sua contrapartida social questionada, assim como o processo de aprovação inacessível à população e a abertura de um precedente para intervenções em Zeis. A regularização do terreno acrescia o valor do investimento público, o que acabou inviabilizando a operação.

    Resistência e desaquecimento

    As manifestações do Ocupe Estelita ocorridas em 2012 criaram um movimento de resistência mais amplo em torno da questão urbana, que também contribuiu para moldar a atuação das construtoras.

    “Por serem mais facilmente identificados [os grandes projetos urbanos] na sua natureza e pela sua abrangência, sofrem fortes reações que dificultam sua implementação”

    Raquel Ludermir Bernardino

    Na tese de mestrado “Recife-mercadoria e direito à cidade” do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco

    O impacto desse movimento na classe artística está no cinema de Kleber Mendonça e no discurso da defesa do patrimônio da capital de forma geral.

    Segundo César Barros, a cidade já vive uma ressaca desse processo, proporcionada pela saturação do mercado e pela recessão econômica. “Os próprios empresários estão percebendo que têm que ter outra abordagem, um cuidado porque vem uma reação forte”, diz. O movimento em torno do Cais Estelita foi um marco para esse recuo das construtoras.

    O rompimento da bolha imobiliária dos últimos anos e a investigação de grandes corporações da construção civil podem indicar que a especulação no Recife atingiu um teto, pelo menos momentaneamente.

    Apesar disso, a expansão da verticalização para áreas ainda menos saturadas, como o bairro de Brasília Teimosa, permanece no horizonte.

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