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O que fica para o Rio: um debate em aberto sobre o legado olímpico

Megaevento esportivo obrigou o poder público a investir e coordenar ações de melhoria da cidade. Foco dos gastos, porém, é motivo de controvérsia

     

     

    Governantes prometeram mudar a cara do Rio a partir de investimentos em infraestrutura com vistas aos grandes eventos recebidos pela cidade desde meados da década passada: os jogos Panamericanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e, principalmente, a Olimpíada de 2016.

    As mudanças não aconteceram da noite para o dia. Muitas obras atrasaram. Os custos não foram apenas financeiros, foram também humanos. Muitas famílias acabaram desalojadas de suas casas.

    Após o fim da Olimpíada em 25 de agosto, naquele que foi o maior megaevento esportivo já realizado no Rio, resta agora avaliar o que ficou de fato para os moradores e frequentadores da cidade, segunda maior do país e um dos principais destinos turísticos brasileiros.

    O Nexo faz abaixo um breve panorama, com as principais intervenções realizadas no Rio. Depois, traz uma discussão de urbanistas sobre o legado olímpico.

    Intervenções na Barra da Tijuca

    O bairro nobre da zona oeste carioca concentrou boa parte das intervenções em razão da Olimpíada. Os projetos ao redor da lagoa Jacarepaguá mudaram a área, ao custo de remoções de centenas de famílias que viviam ali há anos.

    Parque Olímpico

    O Parque Olímpico foi construído na Barra a um custo de cerca de R$ 2,4 bilhões, com investimentos privados e dos governos federal e municipal.

    O parque fica à beira da lagoa de Jacarepaguá teve as obras iniciadas em março de 2013 e concluídas no segundo trimestre de 2016. Houve resistência de moradores da Vila Autódromo, que fica à beira da lagoa. Famílias foram removidas e enviadas para regiões mais distantes.

    Durante a Olimpíada, o parque Olímpico abrigou o centro de transmissão para emissoras de TV e rádio e o centro de mídia, além de um hotel. Seu centro esportivo recebeu diversas competições. Segundo a prefeitura, o parque continuará funcionando como um complexo esportivo e educacional regional destinado a estudantes da rede pública e atletas de alto rendimento.

    Vila dos Atletas

    Também próximo à lagoa Jacarepaguá, uma parceria com o setor privado construiu, ao custo de R$ 2,9 bilhões, a Vila dos Atletas, que abrigou os esportistas durante a competição. O investimento teve financiamento da Caixa Econômica Federal.

    A obra começou  em novembro de 2012 e ficou pronta no primeiro trimestre de 2016.  Concluída a Olimpíada, as empresas Carvalho Hosken e Odebrecht vão transformar o local num condomínio residencial.

    Campo de Golfe

    Outra obra de grande porte na Barra da Tijuca, o campo de golfe olímpico teve investimento privado e do governo municipal de R$ 60 milhões no total. Ele começou a ser construído em fevereiro de 2013 e ficou pronto no segundo trimestre de 2016.

    O local recebeu as competições do esporte durante a Olimpíada e a promessa é de que continuará dedicado à prática. Ele deve receber, por exemplo, o torneio Aberto do Brasil, campeonato organizado pela Confederação Brasileira de Golfe, em setembro. 

    Parque dos Atletas

    A quarta grande intervenção à beira da lagoa Jacarepaguá, na Barra da Tijuca, é o Parque dos Atletas, uma área de convivência cuja obra começou em dezembro de 2010 e ficou pronta em agosto de 2011. O local já serviu de palco para o Rock In Rio. Ela foi bancada com dinheiro do governo municipal, ao custo de R$ 40,3 milhões.

    O local serviu de espaço de lazer para os esportistas durante a Olimpíada e agora será dedicado à prática de modalidades ao ar livre e eventos.

    Saneamento básico

    O governo do Estado inaugurou em julho de 2016 um sistema de esgotamento capaz de atender 260 mil habitantes dos bairros Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá. O sistema teve investimentos de aproximadamente R$ 72 milhões.

    Segundo o governo, 50% do sistema de esgotamento da Restinga de Itapeba, que fica entre a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes, está pronto. Ele será bombeado para uma estação de tratamento. A obra está orçada em R$ 56,4 milhões e deve ser concluída até 2017.

    Um outro projeto, de R$ 25 milhões, voltado à canalização do esgoto da região da Lagoa da Tijuca, deve ficar pronta no mesmo prazo, afirma o governo do Estado.

    Intervenções na região portuária e centro

    As obras às margens da Baía de Guanabara incluem a revitalização da zona portuária carioca e são apresentadas como um dos principais legados urbanos da Olimpíada.

     

    Porto Maravilha

    Localizado na Região Portuária e no Centro do Rio de Janeiro, o projeto do Porto Maravilha envolveu a demolição do Elevado da Perimetral, uma via expressa de 4.790 metros.

    As praças 15 e Mauá, que ficavam parcialmente embaixo dessa via, foram reformadas. Elas compõem parte da Orla Conde, um passeio público que passa por 27 instituições públicas, entre elas o Museu do Amanhã (inaugurado pouco antes da Olimpíada), o Centro Cultural Banco do Brasil e o Museu de Arte do Rio. Calçadões foram criados e árvores foram plantadas na região.

    O projeto teve início em 2011. Seu custo total é de R$ 8 bilhões, e a previsão é de que as intervenções ali continuem ocorrendo por até 30 anos. Uma das formas encontradas pela prefeitura para financiar o projeto foi permitir a construção de imóveis mais altos do que o legalmente previsto na região. Em troca, as empresas pagam uma quantia que deve ser destinada ao porto.

    Na Olimpíada, o Porto Maravilha abrigou o Boulevard Olímpico, onde ficavam a Pira Olímpica e os espaços de convivência. O plano da prefeitura é atrair novos moradores e empresas para a região, a fim de revitalizar essa região central e histórica da cidade. O objetivo é que o número de moradores salte dos atuais 32 mil para 100 mil.

    Marina da Glória

    A Marina da Glória é um centro portuário na Baía de Guanabara utilizado nas provas de vela durante a Olimpíada.

    Ela foi reformada com recursos privados, ao custo de R$ 60 milhões. Segundo as informações da prefeitura, as obras tiveram início em dezembro de 2014 e terminaram no primeiro trimestre de 2016.

    O governo do Estado inaugurou ali, em abril, uma nova tubulação que percorre uma distância de cerca de um quilômetro e direciona esgoto para a rede de coleta e tratamento.

    De acordo com a prefeitura, a população poderá utilizar o espaço, que antes era restrito aos donos de barcos. Ou seja, um acesso público, com atividades pagas. Haverá restaurantes, lojas náuticas, cursos de vela e de mergulho, local para contratação de passeios, espaço específico para os pescadores, vestiários, área de convivência para marinheiros e bicicletários.

    Intervenções em Deodoro

    Construído inicialmente para os jogos Panamericanos de 2007 no bairro de Deodoro, na zona oeste do Rio, o Complexo Olímpico de Deodoro foi reformado para a Olimpíada e recebeu investimentos de R$ 820 milhões dos governos federal e municipal.

    A reforma teve início em novembro de 2013 e se estendeu até o segundo trimestre de 2016. Ela envolveu a preparação do local para competições de canoagem e caiaque, construção de centros de ciclismo e a adequação dos centros olímpicos de hipismo, esportes aquáticos e tiro, usados na Olimpíada.

    De acordo com a prefeitura, o local continuará a oferecer equipamentos de esportes, “em uma imensa área de lazer, que será a segunda maior da cidade”. O equipamento de canoagem se tornará uma grande piscina recreativa, com um canal com uma leve correnteza. O local também poderá ser usado por atletas de alto rendimento.

    Intervenções no transporte

    O BRT Transolímpico

    A Olimpíada envolveu investimentos em transporte, como o BRT (bus rapid transport) Transolímpico, um corredor exclusivo para ônibus articulados com 26 kms de extensão. Ele vai do Recreio dos Bandeirantes a Deodoro. E se integra a outros BRTs Transoeste e Transcarioca.

    As obras tiveram início em julho de 2012 e foram finalizadas no segundo trimestre de 2016, ao custo de R$ 2,2 bilhões, pagos pela prefeitura, com financiamento do Banco do Brasil. A via foi utilizada para transporte durante a Olimpíada e se integra agora à rede municipal.

    A estimativa da prefeitura é de que o tempo de viagem entre Deodoro e Recreio dos Bandeirantes tenha sido reduzido em 60% e que 70 mil pessoas serão beneficiadas por dia.

    VLT

    O VLT (veículo leve sobre trilhos) é uma espécie de metrô de superfície que liga o aeroporto Santos Dumont, na região portuária, ao centro da cidade e se integra a outros meios de transporte, como metrô, trens e barcas. Em 2013, a prefeitura prometeu entregar 42 paradas até junho de 2016. Apenas oito foram inauguradas. O orçamento total é de R$ 1,167 bilhão, com recursos federais e municipais.

    Vias

    A prefeitura também duplicou o Elevado do Joá, que liga a zona sul à Barra da Tijuca. As obras tiveram início em junho de 2014 e chegaram ao fim em maio, ao custo de R$ 457,9 milhões com recursos municipais. A obra facilitou o transporte durante a Olimpíada e, segundo a prefeitura, aumentou em 35% a capacidade viária entre as duas regiões.

    Metrô

    Planejada desde a década de 1980 e com início das obras apenas em 2010 - sem preço definido - as obras da Linha 4 do metrô do Rio foram finalizadas na véspera do megaevento, custando quase o dobro do estimado e sob investigação da Operação Lava Jato. A suspeita é de que propina foi paga ao ex-governador do Estado do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB), o que ele nega.

    As obras consumiram mais de R$ 9 bilhões e foram marcadas por constantes atrasos. A inauguração ocorreu no final de julho de 2016.

    A linha liga a Barra da Tijuca, onde fica o Parque Olímpico, a Ipanema. Ela foi inaugurada para funcionamento apenas durante a Olimpíada e a Paraolimpíada. Após o término desta, ela será aberta à população em determinados horários. A expectativa é de que a linha opere até o final do ano com o horário completo do metrô.

    Como avaliar o legado olímpico?

    Com o objetivo de compreender o impacto duradouro das obras, o Nexo conversou com Ana Cristina Cordeiro, coordenadora do curso de arquitetura da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), com o geógrafo americano Christopher Gaffney, ligado à Universidade de Zurique e estudioso de “legados olímpicos”, e com Washington Fajardo, presidente da fundação Rio Patrimônio da Humanidade, ligada à prefeitura, e assessor do prefeito Eduardo Paes (PMDB) para assuntos urbanos.

    Os custos humanos da Olimpíada

    Em julho de 2016, a Agência Pública publicou uma extensa reportagem sobre as remoções, na qual identificou, entrevistou e contou a história de 100 famílilas tiradas de suas casas em razão das intervenções urbanas no Rio.

    Não há, porém, informações oficiais sobre o número exato de pessoas que tiveram de deixar suas residências em razão dos Jogos.

    Por meio de um hotsite criado em 2015, a prefeitura informou apenas que, entre 2009 e 2015, 22.059 famílias foram reassentadas dentro de seu programa habitacional. Se tomarmos como base a média nacional de quatro pessoas por família, são mais de 80 mil pessoas.

     

     

    A prefeitura justifica as mudanças afirmando que 72,2% das famílias precisaram ser removidas por estarem em áreas de risco ou em condições insalubres. Ana Cristina Cordeiro ressalta que muitas das ocupações removidas não eram regularizadas.

    “Você tem [na Barra da Tijuca, onde grande parte das obras olímpicas ocorreram] muitos assentamentos irregulares. Eles na verdade não poderiam acontecer. A Barra tem espaços vazios ainda e foi onde foram feitas as arenas, a Vila Olímpica (...) Basicamente, o que se mexeu no centro e na Barra foram situações [de moradia] que estavam fora de lugar”, diz a coordenadora da Uerj.

    Em entrevista concedida em agosto de 2016 ao jornal “El País”, o arquiteto e pesquisador da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Lucas Faulhaber afirma, no entanto, que o argumento de que as ocupações eram irregulares e, por isso, teoricamente instáveis, é frágil.

    “Tantos os BRTs como o Parque Olímpico ou a revitalização da Zona Portuária são usados, moldados, justamente para viabilizar a retirada de uma favela. Não é que elas precisam sair porque o trajeto passa no meio. Não. O trajeto foi intencionalmente colocado em cima da favela", diz. Com as remoções, áreas no entorno tendem a se valorizar, beneficiando proprietários ricos.

    Em entrevista ao Nexo, o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, assessor do prefeito Eduardo Paes para assuntos urbanos, diz que muitas dessas pessoas foram reassentadas em moradias do programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal, ou Morar Carioca, da prefeitura.

    A remoção de uma área irregular para outra com documentos oficiais não significa, no entanto, uma melhora de situação. De acordo com o livro “SMH 2016: Remoções no Rio de Janeiro Olímpico”, obra de Faulhaber em parceria com a jornalista Lena Azevedo, no geral esses reassentamentos são feitos em áreas distantes, sem que os moradores tenham autonomia para escolher o local.

    Um dos casos mais emblemáticos da questão do reassentamento é o da Vila Autódromo, comunidade vizinha ao Parque Olímpico da Barra, na Barra da Tijuca. Boa parte das famílias foi reassentada em outros locais da cidade. Parte no Parque Carioca, um conjunto habitacional localizado a um quilômetro de distância. Outra parte recebeu indenização monetária e foi parar em bairros distantes.

    De 500 famílias, apenas 20 entraram em acordo com a prefeitura e conseguiram continuar morando em novas casas construídas em outros pontos da Vila Autódromo.

    Gaffney, da Universidade de Zurique, ressalta que, tradicionalmente, o Rio de Janeiro tem favelas próximas a bairros ricos, onde os moradores mais pobres buscam emprego. Remoções empurraram os mais pobres para longe de áreas com shopping centers e condomínios nos quais poderiam trabalhar.

    Dessa forma, a distribuição geográfica entre ricos e pobres se torna mais parecida com a que ocorre em São Paulo, em que os bairros mais carentes ficam concentrados nas periferias, no que Gaffney define como um “apartheid”.

    “O modelo brasileiro de exclusão que é típico de Curitiba, Porto Alegre ou São Paulo não ocorria no Rio, mas a gentrificação está empurrando as pessoas para longe”, diz.

    Ele ressalta que, ao morar em locais mais afastados, famílias removidas têm menos tempo para estudar, passar tempo com a família, praticar esportes ou se divertir. Os ganhos de mobilidade com a construção do VLT, por exemplo, são anulados por esse tipo de obra.

    Fajardo, assessor de Eduardo Paes concorda que há um custo humano quando ocorrem remoções, mas avalia que essas fazem parte de alterações urbanísticas em grandes cidades.

    “Houve no início uma falha de abordagem por parte da prefeitura desse caso [da Vila Autódromo]. Essa falha foi constatada pelo próprio prefeito, que passou pessoalmente a ordenar as negociações. O urbanista é como um cirurgião: você precisa realizar intervenções para poder melhorar algo em uma escala maior de interesse coletivo”, afirma.

    Sobre o urbanismo focado na Olimpíada

    Gaffney critica a concentração de gastos em grandes eventos. Ele afirma que o Rio se tornou uma cidade que “teve seu planejamento metropolitano completamente capturado por interesses privados internacionais na Olimpíada”, em vez de investir em questões prioritárias.

    Na leitura de Fajardo, a pressão para entregar as obras para os grandes eventos serviu, no entanto, para criar um “ambiente catalisador” com senso racional e coordenado de prazo e meta que é “bastante raro na nossa cultura política”. “A Olimpíada mostra que temos capacidade organizacional. Seria um sonho se conseguíssemos utilizá-la para outras coisas”, afirma.

    Concentração de investimentos

    Críticos à Olimpíada também veem como um problema o fato de que os investimentos foram concentrados em regiões ricas, como a Barra da Tijuca, onde a Vila Olímpica foi construída.

    Gaffney afirma que o investimento é excessivamente focado na região da Barra da Tijuca, na zona sul e no centro da cidade, potencializando desigualdades. “Isso também aconteceu em Londres, mas essa é uma cidade que tem a maior parte de sua infraestrutura básica resolvida”, afirma.

    Em sua opinião, o critério principal foi a perspectiva de valorização da Barra da Tijuca, atendendo a interesses de grandes empreiteiras envolvidas no projeto. Mudanças como essa não compensam eventuais ganhos em infraestrutura, afirma.

    “Esse é o modelo de negócios da Olimpíada. Ele acontece em todo lugar, mas de uma forma diferente. Em Londres, o investimento foi concentrado na zona leste da cidade, uma região sob os olhares de incorporadoras havia anos”, diz.

    Washington Fajardo, assessor da prefeitura para assuntos urbanos, afirma que discorda do modelo urbanístico existente na Barra da Tijuca, com grandes espaços vazios, prédios de classe média cercados e transporte historicamente baseado no automóvel.

    Ele sustenta, no entanto, que a prefeitura escolheu investir de forma intensiva na região por dois motivos. O primeiro é o fato de que “há um movimento inercial” de desenvolvimento do local há 40 anos que a prefeitura não poderia ignorar. “Existem pessoas morando na Barra e em Jacarepaguá. É uma parte da realidade urbana”, diz.

    O segundo fator para a decisão de investir no local é o fato de que a prefeitura tinha a posse de grandes terrenos no local. “A prefeitura não tem terras na zona norte. Alguns falavam em colocar arenas na região do Porto, mas o município não tem terras por lá, que precisa é ter gente morando.”

    Na opinião de Ana Cristina Cordeiro, “não havia outro lugar para fazer o Parque Olímpico, a não ser talvez a Avenida Brasil, que é uma via de entrada no Rio de Janeiro”.

    Vila dos atletas e exclusão social

    A Barra da Tijuca contou com a construção da Vila dos Atletas, um conjunto de edifícios utilizado como alojamento na Olimpíada e que agora será comercializado com o nome de Ilha Pura.

    Para Gaffney, há um problema ideológico que se expressa nesse nome. “Ilhas ficam no oceano. E em qual oceano [a Ilha Pura] está? No Rio. Se é uma ilha pura, então o mar deve estar contaminado. É uma ilha pura em um mar de esgoto.”

    A Ilha Pura recebeu um investimento privado de R$ 2,3 bilhões financiados pela Caixa Econômica Federal. Para Gaffney, o projeto olímpico errou ao não construir moradias voltadas a diversas classes sociais e privilegiar um empreendimento focado a um público de maior poder aquisitivo.

    Fajardo também não se entusiasma com o projeto, composto por edifícios residenciais de classe média isolados por muros do entorno. Mas ressalta que esse é um modelo pragmático do urbanismo que vem funcionado, do ponto de vista comercial, no Rio de Janeiro.

    “A Ilha Pura não é nada de mais urbanisticamente. É uma simples reprodução daquele padrão classe média que se faz há 40 anos, com amenidades de condomínio. Concordo que é uma dessas bobagens do mercado imobiliário, e claro que tem o aspecto do termo ‘pura’ que é politicamente incorreto. Mas é um modelo que funciona em toda a região. Vamos discutir o modelo urbanístico da Barra? Vamos, mas esse é um outro esforço”, diz.

    Investimentos no centro do Rio

    Na opinião de Fajardo, é necessário incentivar mais gente a se mudar para o centro do Rio de Janeiro, em oposição ao modelo da Barra da Tijuca. Ele avalia que isso está sendo feito através das melhorias na região portuária.

    Na opinião de Gaffney, o que ocorreu ali é uma melhora em relação ao que havia antes. Mas a mudança tende a privilegiar apenas trabalhadores de escritórios que se instalarem no local, e não a população mais pobre.

    Ele afirma que o projeto copia experiências europeias e norte-americanas, e falha ao não levar em consideração fatos históricos importantes, como a chegada de escravos que aportaram em navios negreiros na região. “Para mim, é um tipo excludente de urbanismo. Ele se parece confortável e novo, mas não é para o povo brasileiro.”

    Infraestrutura de transporte

    Fajardo destaca os ganhos de mobilidade como grande legado urbano que ficou para o Rio. “Finalmente, o Rio obteve uma malha integrada, de transporte de alta capacidade, que é algo que se buscava havia décadas. A cidade fez túneis que eram planejados desde a década de 60, sobre os maciços montanhosos que dividem a cidade e diminuiu para 20 minutos percursos que duravam uma hora. Essa é, de fato, a grande mudança.”

    Em sua avaliação, a melhora do transporte tenderá a diminuir o privilégio de quem mora nas áreas centrais e, consequentemente, a desigualdade do valor da terra. Gaffney ressalta, no entanto, que ao mesmo tempo em que facilitou o transporte, a prefeitura mandou gente para longe dos locais onde trabalhavam, criando necessidades de deslocamento que anteriormente não existiam.

    Obras não entregues. E o fracasso da Baía de Guanabara

    Na leitura de Gaffney, são poucas as chances de que obras não entregues sejam viabilizadas após a Olimpíada. Uma das promessas mais importantes foi a despoluição da Baía de Guanabara, um fracasso destacado pela mídia internacional. Segundo estimativa do governo do Estado, a limpeza total da baía precisaria ainda de R$ 12 bilhões para ser concluída.

    “O evento acabou, e nenhum dos atores que o organizam - Comitê Olímpico Brasileiro, Comitê Olímpico Internacional, governos federal, estadual e municipal etc - vão se responsabilizar por qualquer tipo de ação depois. As promessas não são atribuídas diretamente a uma instituição, e não há autoridade que as pessoas possam cobrar. Esse é o modelo [da Olimpíada], é assim que funciona no mundo inteiro”, afirma.

    Fajardo discorda. Ele diz que o maior fluxo de pessoas na região portuária, consequência de obras como a Orla Conde, farão com que a cobrança pela despoluição aumente.

    “Realmente não vai ter mais Olimpíada ou COI [Comitê Olímpico Internacional] aqui. Mas antes a população só conhecia a Baía de Guanabara de dentro do carro, [cruzando a via] Perimetral. Agora tem uma parte grande da população andando ao lado da baía e criando um compromisso com ela”, diz. Ele ressalta que a despoluição precisa envolver o esforço de diferentes municípios, mas sua responsabilidade é do governo do Estado.

    A professora Ana Cristina Cordeiro não espera que obras como a limpeza da Baía de Guanabara cheguem ao fim, “a não ser que haja uma forte mobilização pública em nível internacional para que isso seja feito”.

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