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Por que o Brasil é uma potência Paraolímpica

Investimentos estatais e aliança com universidades ajudam a explicar o sucesso do esporte paraolímpico

     

    O Brasil ficou em 13º lugar no ranking de medalhas da Olimpíada de 2016, realizada durante o mês de agosto no Rio. A meta era ficar entre entre os dez países mais premiados.

    Agora, com o início da Paraolimpíada, a meta da delegação brasileira é bem mais ousada: ficar entre os cinco países mais premiados.

    A ambição não é infundada. Se nos Jogos de Londres, em 2012, os atletas brasileiros atingiram a 22ª colocação no quadro de medalhas, os para-atletas colocaram o país na sétima colocação geral.

    Vice-presidente do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), Mizael Conrado, ex-jogador de futebol de cinco, voltado para deficientes visuais, afirma que a meta de ficar entre os cinco primeiros no Rio é “ousada, mas factível”.

    Os Jogos Paraolímpicos do Rio tiveram início na quarta-feira (7), com a cerimônia de abertura no Maracanã, e vão até o dia 18 de setembro. Entenda abaixo por que o Brasil vem se destacando nesse tipo de competição.

    A importância do investimento estatal

    Um dos pontos que ajudam a explica por que o Brasil tem se saído bem nos esportes paraolímpicos é o alto investimento governamental no CPB. Segundo informações publicadas em setembro de 2016 no jornal “Folha de São Paulo”, o país tem gastos comparáveis com os da Grã-Bretanha em esportistas paraolímpicos.

    R$ 375 milhões

    Foram destinados ao Comitê Paralímpico Brasileiro entre o início de 2013 e julho de 2016, segundo informações do jornal 'Folha de S. Paulo'

    A Grã-Bretanha, que foi a terceira colocada no quadro paraolímpico de medalhas em 2012, investiu ao menos R$ 314 milhões entre seus para-atletas nesse mesmo período.

    Grande parte do dinheiro do país europeu sai do UK Sport, órgão do governo que repassa verbas de loterias e impostos. No Brasil, uma parte considerável do financiamento do CPB vem da Lei 10.264 de 2001, um mecanismo que foi recentemente alterado de forma a beneficiar mais o esporte paraolímpico.

    A lei previa inicialmente a transferência para o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e para o CPB de 2% de todo o valor arrecadado por todas as loterias federais.

    Desse total, 85% ficavam com o COB e 15% com o CPB. Em 2015 a lei sofreu alterações. A porcentagem arrecadada subiu para 2,7%. E a fatia destinada ao esporte paraolímpico, de 15% para 37,04%.

    Segundo informações da “Folha de S. Paulo”, R$ 210 milhões foram destinados ao Comitê Paraolímpico Brasileiro entre 2007 e 2014 através da lei. E apenas em 2016 prevê-se que o valor seja de R$ 120 milhões.

    Essa verba é complementada principalmente por convênios entre o Ministério do Esporte e empresas estatais, como a Caixa Econômica Federal.

    Um paralelo pode ser feito com o modelo americano, em que os vultosos patrocínios privados ajudam a garantir o primeiro lugar no ranking olímpico de medalhas. Mas a falta de uma fonte de verba estatal é apontada como um dos motivos pelos quais o país não está no topo do ranking paraolímpico, segundo reportagem de setembro de 2016 do jornal britânico “The Guardian”.

    De acordo com a consultora em esportes paraolímpicos Candace Cable, uma ex-medalhista em corrida de cadeira de rodas e esqui entrevistada pelo “The Guardian”, o Comitê Olímpico dos EUA foca em levantar verbas de patrocinadores mais interessados em esportes com alta visibilidade, que são praticados por não portadores de deficiência. Os atletas paraolímpicos “estão fadados a perder no final”, afirma.

    Um resultado recente do direcionamento de verbas estatais nacionais para esportes paraolímpicos é o Centro Paraolímpico Brasileiro, inaugurado em fevereiro de 2016 na zona sul de São Paulo. Trata-se de um espaço de treinamento com infraestrutura para 15 modalidades esportivas, como halterofilismo, basquete em cadeira de rodas, bocha e esgrima em cadeira de rodas.

    O centro vinha sendo construído desde 2013 em uma área cedida pelo governo do Estado. O custo total foi de R$ 305 milhões, pagos com verbas federais do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento).

    A importância da aliança com universidades

    Em entrevista publicada em setembro de 2016 pelo site da revista “Veja”, o presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Andrew Parsons, destaca a aliança forjada nas últimas duas décadas com universidades como Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) como um dos diferenciais do esporte paraolímpico brasileiro.

    Ao Nexo o professor José Júlio Gavião, da faculdade de Educação Física da Unicamp, diz que o trabalho da Universidade Federal de Uberlândia também é referência. Na leitura de Parsons, a aproximação entre academia e esportistas permitiu ao Brasil se antecipar a tendências.

    “O esporte olímpico [como um todo] passou a seguir tendências que nós, do CPB, desenvolvemos antes. O fisiologista que adotou, nesta Olimpíada, os óculos com luzes especiais para que os nadadores não sentissem tanto o cansaço das provas noturnas é o mesmo que elaborou um projeto de qualidade de sono para que nossos atletas se adequassem à diferença de fuso horário na Paraolimpíada de Sydney, em 2000.”

    Andrew Parsons

    Presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, em entrevista publicada em setembro de 2016 pelo site da revista “Veja”

    Segundo o pesquisador João Paulo Borin, também da Unicamp, o conhecimento acadêmico permite adaptar treinos às especificidades de cada para-atleta.

    “Por mais que eu obtenha conhecimento de áreas como fisiologia, bioquímica ou biomecânica de outro país, preciso de uma estrutura básica para adequá-lo ao atleta. Isso está muito consolidado no treinamento paraolímpico no Brasil”, afirma.

    Em entrevista à “Veja”, Parsons dá um exemplo desse tipo de adaptação. “Em 2004, nossos biomecânicos detectaram que a envergadura do Clodoaldo Silva [nadador paraolímpico] é maior que a da grande maioria da população, além de ele ter mãos imensas. Só que isso não se refletia em sua braçada. Com um trabalho executado ao lado dos treinadores do nadador, os cientistas fizeram com que a braçada fosse alargada em 30 centímetros. O resultado foram seis medalhas de ouro em Atenas.”

    Gavião afirma que pesquisadores são frequentemente convidados a criar linhas de pesquisa voltadas a melhorar o desempenho de equipes paraolímpicas, um trabalho teórico bancado com verbas de pesquisa de diversas fontes e que pode ser aplicado na prática.

    “Cada país que se sai bem na paraolimpíada tem uma particularidade. A Ucrânia [5º lugar no ranking de medalhas de 2012] vem se desenvolvendo com muitos centros paraolímpicos de alto rendimento como o de São Paulo. Os Estados Unidos [6º] têm muita tecnologia. A Inglaterra [3º] tem uma cultura antiga de prática de esportes paraolímpicos. A China [1º] não dá para contar porque tem a maior população do mundo. O Brasil [7º] escolheu um caminho que deu certo, que é o de unir o esporte paraolímpico com universidades”

    José Júlio Gavião

    Professor da faculdade de Educação Física da Unicamp, em entrevista ao Nexo

    A importância da exposição

    O CPB conseguiu em Paraolimpíadas recentes trazer mais exposição ao esporte. Segundo reportagem publicada em agosto de 2015 no portal IG, em 2004 o comitê comprou os direitos de transmissão da Paraolímpíada de Atenas e distribuiu as imagens de forma gratuita para as emissoras interessadas. Em 2008, a mesma estratégia foi seguida, afastando a possibilidade de que os jogos “ficassem na geladeira”.

    Em 2012 os direitos foram da Rede Globo. Em 2016, os direitos são da Rede Globo em conjunto com a TV Brasil. Esta tem realizado parcerias com redes públicas estaduais para transmissão. Essa visibilidade faz com que potenciais atletas paraolímpicos entendam o espaço que o esporte pode ter em suas vidas.

    “O bom desempenho geral do Brasil nas Paraolimpíadas gera ídolos e são eles que inspiram os novos atletas. Os meninos olham para nomes como [o judoca e deficiente visual] Antônio Tenório e sonham em praticar o esporte no alto rendimento”, afirmou em 2015 Andrew Parsons.

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