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Manifestação pacífica e, no fim, bombas da PM: o que motiva quem vai às ruas contra Temer

Protesto reúne milhares em São Paulo contra corte de gastos sociais, pela defesa de nova eleição direta e como reação a declarações do presidente e à atuação da Polícia Militar

    Milhares de pessoas participaram de manifestações contra o governo do presidente Michel Temer neste domingo (4). O ato mais significativo ocorreu em São Paulo e percorreu cinco quilômetros entre a Avenida Paulista e o Largo da Batata. Os organizadores afirmaram que 100 mil pessoas estiveram presentes. O governo do Estado, responsável pelo policiamento, não divulgou estimativa de público.

    Com o protesto já encerrado, a PM lançou bombas de gás e usou jatos d’água para dispersar os manifestantes que ainda permaneciam no largo da zona oeste da capital paulista. Muitos dos que estavam ali disseram que a ação da polícia começou sem motivo aparente. A corporação afirma que foi uma reação “moderada” à atuação de “vândalos” na estação de metrô do local.

    “Descemos a [Avenida] Rebouças super na paz, tinha gente de todas as idades. Chegando no Largo da Batata, algumas pessoas pararam para comer e tomar uma cerveja. A polícia começou a atacar, gratuitamente. Não tinha nenhum motivo para isso”

    Mariana Varella

    Editora, 43 anos

    “Após o ato fomos num bar pegar algo para comer. O helicóptero já estava sobrevoando, cada vez mais baixo, com aquela luz horrorosa em cima da gente. Dois minutos depois começou a chover bomba no meio do Largo, onde estava o carro de som”

    Gisele Rocha

    Fotógrafa, 41 anos

    “Mesmo que houvesse algum tipo de provocação individualizada, a polícia deveria ter adotado uma resposta individualizada. Jamais atirar contra todas as pessoas na praça. Foi um ato declarado de repressão”

    Dalva Santos

    Gestora cultural, 33 anos

    “Em manifestação inicialmente pacífica, vândalos atuam e obrigam PM a intervir com uso moderado da força / munição química”

    Polícia Militar de SP

    Em seu perfil oficial no Twitter

    “Vândalos quebraram catracas [do metrô], colocando em risco funcionários. A Polícia Militar atuou para restabelecer a ordem pública, sendo recebida a pedradas, intervindo com munição química e utilização de jato d'água”

    Secretaria de Segurança Pública

    em nota oficial

     

    O desfecho violento contrastou com a manifestação em si, que ocorreu sem incidentes. Não havia a presença ostensiva de grupos da tática black bloc, que agiram em protestos anteriores atacando vidraças e depredando carros.

    Os protestos contra Temer vêm sendo realizados desde antes da conclusão do impeachment de Dilma Rousseff, em 31 de agosto. Os atos anteriores foram bem menores do que o de domingo (4), mas a atuação da polícia também recebeu críticas e se tornou um tema central da pauta de quem tem ido às ruas.

    O ato de domingo (4), aliás, já estava cercado de polêmica quanto ao direito de protestar, devido ao fato de a Secretaria de Segurança Pública do governo Geraldo Alckmin ter emitido uma nota na qual proibia a realização da manifestação na Avenida Paulista, porque o local seria palco da passagem da tocha dos Jogos Paraolímpicos. No fim, o governo estadual acabou desistindo de proibir o protesto, que foi transferido para mais tarde a fim de não coincidir com o evento esportivo.

    Os atos têm sido organizados pela frente Povo Sem Medo, que incluiu o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), e pela Frente Brasil Popular, que representa entidades como a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e a UNE (União Nacional dos Estudantes). Todas elas participaram do movimento pela permanência de Dilma na Presidência.

    Abaixo, o Nexo dividiu em quatro eixos o discurso e as motivações dos manifestantes, algo que deve se repetir no próximo protesto contra Temer em São Paulo, marcado para quinta-feira (8).

    Nova eleição para presidente, ou ‘Diretas Já’

    Os manifestantes que pedem o “Fora Temer” defendem a realização de novas eleições presidenciais por considerarem a cassação de Dilma um golpe. A proposta de antecipar a sucessão de 2018 já havia sido feita pela ex-presidente, tem o apoio de movimentos sociais e, agora, até do PT aderiu à ideia após a confirmação do impeachment.

    “Quem diria que tantos anos depois o povo teria que voltar às ruas para defender Diretas Já”, disse Guilherme Boulos, líder do MTST que comandou os discursos do carro de som no protesto de domingo (4). Ele fazia referência à campanha conduzida em 1984, na transição da ditadura para a democracia, que pedia eleição direta para presidente.

    Boulos não explicou, contudo, qual seria o caminho para a antecipação da eleição presidencial. Há quatro ações em trâmite do Tribunal Superior Eleitoral que pedem a cassação da chapa eleita em 2014 (Dilma e Temer), mas só seria convocada nova eleição direta se Temer fosse cassado até o final do ano — após esse prazo, a eleição seria indireta, pelo voto de deputados e senadores. Há ainda projetos no Congresso que preveem a antecipação da eleição, com a realização de um plebiscito a fim de consultar a população a respeito da ideia.

    Crítica à possível redução de gastos sociais

    Boulos afirmou que o impeachment de Dilma não atingirá somente a ex-presidente, mas sim a maioria da população brasileira que depende de serviços públicos e da Previdência Social. Para ele, a proposta de emenda à Constituição enviada pelo governo Temer ao Congresso que limita o crescimento anual do gasto público à inflação do ano anterior por, no mínimo, dez anos irá “destruir” direitos sociais como educação e saúde, além de atingir a previdência pública.

    Essa proposta de emenda à Constituição é defendida pelo governo Temer como um caminho para reduzir os déficits do Orçamento e, a médio prazo, controlar a alta do endividamento público, que disparou em 2015 e 2016.

    Atuação da PM e direito de protestar

    Outro ponto em comum nos discursos dos manifestantes foi a atuação da Polícia Militar nos protestos que já haviam sido realizados, além da ameaça do governo paulista de proibir o ato de domingo (4).

    Na quarta-feira (31), a jovem de 19 anos Deborah Fabri teve o olho esquerdo atingido e perdeu, segundo os médicos, “quase 100% da visão”. Ela atribuiu o ferimento a uma bala de borracha disparada pela polícia durante o ato contra Temer.

    Na sexta-feira (1º), uma viatura da PM avançou sobre um manifestante, atropelando-o, como mostra um vídeo divulgado pela TV Record.

    “Exigimos que a PM e o governo de São Paulo respeitem a Constituição”, disse Boulos, lembrando que a livre manifestação é um direito garantido desde 1988.

    Já neste domingo (4), além das bombas jogadas contra manifestantes, um repórter da BBC Brasil foi agredido por policiais mesmo após ter se identificado como jornalista.

     

    Reação contra falas de Temer e Serra

    O discurso de abertura da manifestação também aproveitou declarações feitas no final de semana por Temer e pelo ministro das Relações Exteriores, José Serra, ambos em viagem oficial na China, que minimizaram os atos da última semana.

    Temer disse que as manifestações haviam sido “inexpressivas” e se referiu a atos de “40 pessoas que quebram carros”. Já Serra classificou os protestos como “mini mini mini mini”. Ambas as falas acabaram sendo bastante exploradas em razão do número significativo de manifestantes na rua.

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