Quais são os argumentos de quem não vê a gentrificação como algo necessariamente ruim

O termo surgiu no Reino Unido na década de 1960 como fenômeno urbano e desde então é visto como problema. Mas há ressalvas

    A palavra vem do inglês: “gentrification”. Cunhada nos anos 1960 pela socióloga Ruth Glass, serviu para descrever as mudanças no perfil de bairros da zona norte de Londres. A palavra “gentry” é usada para designar “bem-nascidos”. No caso, moradores e comércios estavam sendo substituídos por ocupantes e estabelecimentos de renda e preços mais altos.

    Desde então, o neologismo é usado de forma pejorativa, comparando a especulação imobiliária que acontece nesses bairros a uma “faxina social”. A comparação é feita pois a chegada de moradores de alta renda atrai investimentos ao bairro que elevam os valores dos aluguéis, deixando os preços inviáveis para a população de menor poder aquisitivo que ali vivia - e precisa se mudar para locais mais afastados.

    Para evitar esse processo, em 2015, o governo regional de Paris adotou medidas para barrar a gentrificação na cidade, listando endereços que teriam sua venda proibida e seriam transformados em moradias subsidiadas.

    Há ressalvas, porém, sobre o real impacto do processo de gentrificação para pessoas pobres que habitam originalmente esses espaços - e para seu efeito na cidade como um todo. Em um artigo publicado em 2015 na revista “Slate”, o escritor John Buntin chamou o termo de “mito”. “É extremamente raro e não é tão ruim para os pobres quanto parece”, escreveu.

    Buntin lança mão de uma série de pesquisas acadêmicas realizadas nas últimas décadas para mostrar como, nos Estados Unidos, o fenômeno é muitas vezes interpretado erroneamente.

    Entre seus argumentos, está o fato de que o deslocamento de moradores pobres acontece por uma série de motivos, não necessariamente ligados a um processo de especulação imobiliária.

    Em bairros americanos, por exemplo, uma minoria tende a deixar um bairro quando outras minorias chegam ao local - sendo ambos os grupos de baixa renda. Ao longo dos anos, bairros habitados por negros passaram a ser ocupados por latinos e outros grupos de imigrantes.

    “O status sócio-econômico da maior parte dos bairros é extremamente estável com o tempo. Quando a composição étnica dos bairros formados por negros  e pobres muda, isso tipicamente se dá porque latinos e outros imigrantes se mudaram para o bairro - e essa mudança entre grupos de imigrantes é provavelmente mais benéfica do que prejudicial.”

    John Buntin

    Escritor, em artigo na revista “Slate”

    Há poucos estudos que comprovem que há um deslocamento maior em bairros considerados gentrificados, ou seja, que passaram por um processo de especulação imobiliária, do que naqueles não-gentrificados, em que o deslocamento acontece por outras questões.

    “Pessoas pobres geralmente se mudam de bairros não-gentrificados também. De fato, famílias de baixa renda se mudam por uma série de motivos.”

    John Buntin

    Escritor, em artigo na revista “Slate”

    Um dos estudos citados por Buntin foi feito pelo economista Jacob Vigdor, da Universidade de Washington. Em 2002, Vigdor examinou os deslocamentos em Boston entre 1974 e 1997, um período de suposto intenso processo de gentrificação. O economista, no entanto, não encontrou evidências de que moradores se mudavam de bairros gentrificados em maior medida. E a constatação se reproduziu em outros estudos realizados no país.

    A interpretação feita por Buntin de sua constatação é a de que bairros gentrificados passam por um processo de melhorias que são também benéficas aos moradores de menor poder aquisitivo. Ou seja, embora o aumento da renda em bairros gentrificados beneficie, em maior parte, os “gentrificadores” - tipicamente jovens, brancos de alta renda - ela também reverbera, por vezes, na comunidade que vive originalmente na região, em especial, jovens, negros, estudantes.

    Ressalva da ressalva

    As ponderações de John Buntin são importantes por trazerem outra perspectiva às análises sobre o processo de gentrificação, que devem ser levadas em consideração ao se fazer políticas públicas de habitação.

    No entanto, é necessário ressaltar que as pesquisas citadas estão restritas à constituição da sociedade americana e suas particularidades urbanas. Nos EUA, por exemplo, populações negras e imigrantes tendem a se concentrar em bairros específicos - algo muito mais difuso na sociedade brasileira.

    “Existem vários pesquisadores norte-americanos focados no assunto e que têm dados estatísticos sobre isso, para corroborar com a tese. No Brasil, temos poucas pesquisas quantitativas que cheguem a esse tipo de resultado, o que dificulta afirmar que isso poderia acontecer no país”, diz Leonardo Loyolla professor de urbanismo da Escola da Cidade.

    Loyolla reconhece ser possível que populações pobres sejam de certa forma beneficiadas por um processo de gentrificação em seus bairros de origem, mas ressalva que não há pesquisas no país que comprovem se isso é verdade ou não.

    Ele cita a teoria do sociólogo e urbanista Francisco Sabatini sobre “gentrificação latino-americana”, que possivelmente se aplica melhor ao Brasil do que as questões postas por John Buntin.

    Para ele, a gentrificação na América Latina pode ter efeitos positivos pois, ao migrar para áreas abandonadas ou degradadas, pessoas de alta renda atraem iniciativas de infraestruturas que não existiam antes, tanto providenciadas pelo Estado, quanto pela iniciativa privada.

    Loyolla também lembra como, no Brasil, há um movimento de expulsão de moradores institucionalizado. “Veja o exemplo das obras para a construção das instalações dos Jogos Olímpicos. Isso demonstra que há uma certa truculência do Estado em relação a essas populações. Não é gentrificação, mas é um fenômeno correlato que no Brasil acontece de forma mais intensa.”

    Mas ressalva: “A gente carece de dados numéricos sobre gentrificação específica. Precisamos confrontar os fatos para ver se essas teorias procedem.”

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