O que aconteceu da última vez que as Farc tentaram ingressar na política

Acordo de paz dá o direito a ex-guerrilheiros de se lançarem candidatos. Última experiência semelhante, em 1985, terminou com mais de 3.000 assassinatos

     

    O governo colombiano e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) deram nesta quarta-feira (24) mais um passo na longa caminhada até a celebração do acordo de paz que pretende encerrar 52 anos de um guerra civil que já deixou mais de 220 mil mortos.

    Os dois lados da guerra - que já tinham chegado a um consenso sobre os termos do acordo, há dois meses, num encontro realizado em Cuba - formalizaram o pacto por escrito publicamente agora. O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, foi à TV declarar que “tudo está acordado, o texto definitivo é imodificável. As Farc deixarão de existir e vão virar um movimento político sem armas”. No mesmo dia, grupos de colombianos saíram às ruas vestindo roupas brancas para celebrar.

    Para que o acordo entre em vigor, entretanto, é necessário ainda que seja referendado pela população, numa votação prevista para ocorrer no dia 2 de outubro. Segundo pesquisa Ipsos, 50% se opõe ao acordo e 39% apoia.

    O que diz a população

     

    O entrave para que a maioria aceite a proposta está num dos cinco pontos que compõem o documento: justamente o que prevê que ex-integrantes da guerrilha possam participar de partidos políticos, disputar eleições e ocupar cargos públicos depois de “desmobilizados” (depois que deponham armas).

     

    O item relativo à participação política pede “proteção dos direitos e liberdades das pessoas que exercem a política, especialmente daqueles que, na sequência do fim do conflito armado, se tornem adversários políticos [do governo]”.

    A preocupação com a “proteção” dos “adversários políticos” do governo se justifica. Em 1985, experiência semelhante estimulou ex-membros das Farc a ingressar na vida política. Quando o fizeram, centenas deles foram mortos.

    A experiência da União Patriótica

    Há 31 anos, uma tentativa de acordo de paz entre governo e guerrilha terminou na criação de um partido político chamado UP (União Patriótica).

    A legenda abrigava militantes simpáticos às Farc e era comandada pela cúpula da guerrilha, que tentava ocupar espaços de participação política fora da luta armada. Nessa época, os governadores e prefeitos eram indicados pelo presidente eleito. Os colombianos votavam apenas para presidente e para deputados federais e estaduais.

    A partir de 1985, um novo pacto político instituiu a eleição direta também em cargos majoritários locais. Na primeira eleição do tipo, em 1986, a UP alcançou resultados surpreendentes. O momento coincidiu com uma série de assassinatos políticos da maioria de seus mais importantes militantes.

    O olhar de uma vítima

    O Nexo conversou com a historiadora colombiana Alejandra Gaviria. Ela é filha de Francisco Eladio Gaviria Jamarillo, militante da UP que foi preso, torturado e morto, quando tinha 32 anos, e membro da ONG (Organização Não-Governamental) de direitos humanos Hijos. O crime de lesa humanidade e crime de guerra foi declarado como tal pela Justiça colombiana e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2014.

    Para Alejandra, “o extermínio da UP aconteceu porque o Estado não gerou as condições de segurança necessárias na época”. Ela diz que, em 1987, “a UP teve êxito em muitas eleições locais, provocando medo em seus adversários políticos”.

    Ela considera que esse mesmo risco existe hoje, pois “muitos colombianos veem essas pessoas [guerrilheiros desmobilizados] como cidadãos sem nenhum direito, como pessoas cuja única saída é a morte, o sumiço”.

    A extensão da matança nos anos 1980

    Dois candidatos à presidência da UP foram assassinados: Jaime Pardo Leal, morto a balas na frente da própria família, em outubro de 1987, na cidade de Tena, e Bernardo Jamarillo Ossa, metralhado no aeroporto de Bogotá, em março de 1990, ao lado da esposa.

    Além dos presidenciáveis, quase 100 parlamentares da UP e mais de 3 mil militantes do partido também foram assassinados por narcotraficantes, militares e paramilitares. Muitos dos sobreviventes tiveram de fugir do país durante os anos 1980 e 1990.

    A aparição pública e vulnerável de figuras importantes da guerrilha animou a ação de assassinos que agiam tanto a mando de figuras do Estado quanto de grupos armados formados por proprietários de terra que rivalizavam com as Farc no interior do país. Como a guerrilha se envolvia com tráfico de drogas para gerar recursos - envolvimento crescente ao longo dos anos - muitos narcotraficantes também tinham contas a acertar.

    Em 2002, foi determinado o fechamento do partido, uma vez que nenhum candidato se aventurou a concorrer novamente pela legenda. Só 11 anos depois, a sigla foi novamente autorizada a existir, após o Conselho de Estado da Colômbia - equivalente ao Supremo Tribunal Federal no Brasil - reconhecer que a política de extermínio é que havia sido responsável pelo fato de a sigla não ter concorrido anteriormente.

    Alejandra diz que os membros das Farc podem, após o acordo de paz, concorrer tanto por uma sigla própria quanto por meio de coligações com partidos já existentes.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava, no intertítulo, que 400 pessoas da União Patriótica tinham sido assassinadas. A cifra correta é a que constava desde o início no corpo do texto: 3.000. A informação foi corrigida às 19h30 do dia 25 de agosto.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: