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Por que ‘ressaca social’ não é só ‘coisa de introvertido’

Necessidade de 'recarregar as baterias' depois de interações sociais intensas acometem todo tipo de pessoa

     

    Em inglês, o termo “social hangover” (ressaca social”) ou “introvert hangover” (“ressaca de introvertido”) é comum e tem até uma definição no Urban Dictionary, site com definições de gírias e expressões populares que são enviadas pelos usuários:

    “A sensação de desgaste experimentada depois de encontrar um grupo grande de pessoas. Algumas pessoas até têm dores musculares e dores de cabeça, parecidas com uma ressaca provocada por álcool, mesmo sem ter bebido álcool. Comum entre indivíduos introvertidos.”

    Entre aqueles que não experimentam esse tipo de sensação, uma “ressaca social” parece um conceito alienígena. Mas ele existe - só não é uma característica exclusiva daqueles que se consideram “introvertidos”, como sugerem algumas definições populares como à do dicionário acima.

    Como é uma ressaca social

    Um texto publicado no dia 11 de agosto no site “Introvert, dear” - que se dedica a publicar crônicas e artigos sobre a vida de uma pessoa introvertida -, com o título “Sim, ressaca social de introvertidos existe”, ressoou entre aqueles que dizem sentir algo parecido.

    “Introvertidos têm uma quantidade menor de energia disponível para socializar, em comparação com as pessoas extrovertidas. Quando usamos além dessa reserva, atingimos um ponto em que vamos de ‘bem’ para ‘nada bem’. Uma ‘ressaca social’ é, simplesmente, uma reclusão gerada pelo excesso de estímulo [social].”

    Shawna Courter

    Colunista do site ‘Introvert, dear’

    No texto, a autora descreve a necessidade de ficar sozinha e em silêncio imediatamente após algum tipo de encontro social em que precisa interagir com outras pessoas. Muitas conversas ao mesmo tempo, um número alto de gente próxima e desconhecidos parecem potencializar o efeito para ela.

    A jornalista mineira Marcela Xavier se reconheceu no texto - e em outros conteúdos na internet sobre essa carga “limitada” de energia para eventos sociais. “Eu fico exausta, me cansa. Dá trabalho - me sinto como se tivesse trabalhado o dia todo, ou tivesse uma noite mal dormida. Fico mal-humorada”, contou ao Nexo sobre a sensação que tem logo depois de situações em que se vê obrigada a interagir e socializar com pessoas - especialmente desconhecidos ou colegas não muito próximos.

    A cura, de acordo com Xavier, está na reclusão temporária: ela precisa reservar horas ou até dias sozinha para “recarregar as baterias” sociais depois de uma festa ou evento.

     

    Como ela, outras centenas de pessoas relatam sintomas causados por esse tipo de cenário. Cansaço físico e mental, dor de cabeça, confusão mental e dores musculares são algumas das reações - e há toda uma literatura na internet, incluindo quadrinhos, sobre o tema.

    Como esse tipo de reação é pouco discutida, ela pode levar a outros problemas de socialização. A administradora Lidia Ronconi, de 30 anos, contou ao Nexo que escolhe muito bem os motivos pelos quais vai sair de casa - e se exagera na interação, é a primeira a se sentir cansada e precisar ir embora.

    “[Depois] eu preciso me isolar e ficar quieta. Vem todo mundo perguntar porque eu estou quieta, triste… às vezes, passo por chata e antipática, quando na verdade só preciso dar um tempo”, desabafa.

    Pela internet, os relatos de gente que se sente da mesma forma transbordam. As reações, bem como o tempo e o método necessário para recuperação, variam. Em comum, eles têm a vontade de se isolar depois de terem que interagir com muita gente.

    O que a psicologia diz

    Foi o suíço Carl Jung, teórico da psicologia analítica, que cunhou, no século 20, a ideia da existência de personalidades extrovertidas, que se manifestam de maneira expansiva, falante e energética, das introvertidas, mais reflexivas, observadoras, reservadas e solitárias.

    Embora a concepção popular dos termos os coloque como antagonistas, o próprio Jung negou a existência de alguém que fosse completamente extrovertido ou introvertido.

    Ou seja: para ele, extroversão e introversão se manifestavam em um espectro, e indivíduos apresentariam características dos dois modelos. Hoje, a psicologia admite definições ainda mais complexas.

    A maioria dos testes modernos de personalidade não considera introversão e extroversão características mutuamente exclusivas, mas como parte de de uma dimensão mais contínua de personalidade, aplicável para várias características e habilidades sociais.

    Isso significa que podemos ser extrovertidos em alguns aspectos da interação social e conservar características mais introvertidas em outros - você pode ter facilidade para falar em público, por exemplo, enquanto enfrenta dificuldades se tiver que abordar um desconhecido em outro contexto.

    Motivos para a 'ressaca social' são diversos e podem não estar relacionados exclusivamente a uma personalidade baseada em introversão

    Não há estudos científicos específicos sobre como interações sociais podem afetar pessoas de maneira diferente - inclusive fisicamente. No entanto, psicólogos ouvidos pelo Nexo concordam que há uma “carga” de energia social, subjetiva, que varia de indivíduo para indivíduo, embora isso não esteja especificamente relacionado com classificações deterministas sobre personalidades introvertidas ou extrovertidas.

    “Acontece com muitos pacientes, mas os motivos são extremamente diversos para cada um deles, num contexto pessoal e clínico muito específico”, explicou o psicanalista Marcos Donizetti.

    O psicólogo comportamental David Wang, também em entrevista ao Nexo, disse que indivíduos que tem a introversão como base da personalidade têm mais dificuldade social, então precisam se esforçar mais em situações do tipo. Mas esse tipo de “ressaca” não é exclusividade de introvertidos.

    “Se torna uma tarefa cansativa [interação social] se você não sabe como realizá-la. Mas pode acontecer também com aqueles que apresentam características de introversão como um sintoma de outras partes da personalidade, ou até com quem apresenta alguma forma de fobia ou ansiedade social”, disse.

    Para a psicóloga Pamela Rutledge, especializada em psicologia de mídia, a “ressaca social” é um fenômeno conhecido na área - e pode ser comparado ao tempo de recuperação que atletas precisam depois de uma competição.

    “As pessoas variam na quantidade de estímulo que apreciam, e essa diferença é flagrante em todo tipo de situação, dos tipos de filmes que as pessoas escolhem para assistir ao tipo de viagem que fazem. Assim como indivíduos têm propensões diferentes a assumir riscos, eles têm necessidades diferentes de interação social. A habilidade de alguém de lidar com estímulo cognitivo pode ser afetada pela sua condição física, fadiga e atividade durante o dia.”

    Pamela Rutledge

    Psicóloga especializada em psicologia de mídia

     

    ESTAVA ERRADO: A versão inicial deste texto afirmava que Carl Jung era psicanalista. Na verdade, o suíço era teórico da psicologia analítica. A informação foi corrigida às 13h03 de 24 de agosto de 2016.

     

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