Por que, após mais de 5 anos, o conflito sírio ainda parece longe do fim

Guerra que teve início com protestos pacíficos sofre com escalada internacional e se distancia do fim, conforme aumenta envolvimento de potências regionais e globais

     

    Desde que teve início, em 2011, o conflito da Síria atrai um tipo de atenção espasmódica. Às vezes ela se esvanece. Mas quando os efeitos da guerra se fazem sentir no exterior - como nos atentados cometidos pelo Estado Islâmico em solo europeu -, ou quando imagens icônicas da guerra civil circulam pelo mundo, a atenção é retomada.

    Foi o que aconteceu na quinta-feira (18) com a publicação de um vídeo do menino Omran Daqneesh, que sobreviveu a um bombardeio aéreo em Aleppo, uma das principais cidades sírias. As imagens fizeram muitos se perguntarem por que, afinal, é tão difícil dar um fim a uma guerra que provoca tanto sofrimento.

    Antes da foto de Daqneesh, entretanto, pelo menos outras três situações semelhantes atraíram a atenção para a guerra na Síria, alimentando um ciclo de indignação e impotência que continua até hoje:

    Iconografia da tragédia

    Uso de armas químicas

    Em agosto de 2013, o presidente da Síria, Bashar al-Assad, foi acusado de usar gás sarin contra a população civil nos arredores da capital, Damasco. Cifras mais pessimistas falam em quase 1.500 mortos. Os relatos fizeram os EUA reagirem dizendo que o governo sírio havia “cruzado a linha vermelha”. Apesar da advertência, a guerra ainda seguiria por pelo menos mais três anos desde então.

    Destruição de cidades históricas

    O Estado Islâmico, que nasceu no Iraque antes de expandir suas ações globalmente a partir da Síria, publicou a partir de maio de 2015 vídeos e fotos da destruição de cidades históricas, muitas delas com mais de 3 mil anos. Em algumas cenas, os terroristas explodiam monumentos tombados como patrimônio histórico da humanidade usando bananas de dinamite.

    Bebê morto na praia

    O corpo de um bebê sírio de apenas 3 anos foi fotografado na areia de uma praia da Turquia, em setembro de 2015. A imagem chocou o mundo e chamou definitivamente a atenção do Ocidente para a crise dos refugiados e o conflito sírio, que, entretanto, seguiria fazendo vítimas por pelo menos mais um ano.

    Por que essa guerra começou

     

    A violência na Síria teve início em 2011, depois que o país foi sacudido pela onda de protestos que ficou conhecida como Primavera Árabe. Temendo ser derrubado - a exemplo do que já havia ocorrido pouco antes em países como o Egito e a Tunísia - o presidente Assad, cuja família está no poder há quase 50 anos, reprimiu as manifestações com violência.

    A redução do espaço de participação política para os movimentos de dissidência e a crescente repressão levaram ao surgimento de grupos organizados que começaram a responder a violência do Estado com mais violência. A escalada terminou por criminalizar a oposição de vez, que foi lançada na clandestinidade.

    Bastiões de resistência a Assad se formaram, com base em discurso político e também religioso, explorando as divisões internas do Islã. O conflito se internacionalizou com o aumento da pressão da Europa e dos EUA em favor da oposição, e o apoio do Irã ao presidente Assad. O envio de armas e munição foi o próximo passo.

     

    Do vizinho Iraque, destruído por anos de conflito armado contra os EUA, veio o Estado Islâmico, agregando ainda mais complexidade a um quadro que já envolvia, de um lado, o governo e, de outro, um mosaico de grupos armados autônomos cujas afinidades e divergências eram tão grandes que impediam a identificação de um só ator que pudesse representar uma alternativa de consenso ao regime.

    Europeus e americanos passaram a treinar grupos dissidentes e fornecer informações de inteligência na tentativa de depôr Assad. Os russos se uniram ao Irã e formaram uma outra frente, mais próxima de Assad. O único ponto em comum entre todos os lados da guerra era a condenação ao Estado Islâmico, cujos atos terroristas, perpetrados na Síria e no exterior, serviram de pretexto para todo tipo de interferência militar externa.

    Por que essa guerra não acaba

     

    Já se passaram mais de cinco anos desde que a oposição síria começou a pressionar pela saída de Assad, e outros três anos desde que os EUA decretaram que, ao usar armas químicas, o governo sírio havia cruzado a “linha vermelha”, dando a entender que uma ação internacional definitiva pudesse estar a caminho.

    A despeito das pressões, Assad continua firme no cargo. Em grande parte, graças ao apoio que recebeu do Irã e, principalmente, da Rússia, que moveu tropas para a Síria e aumentou tremendamente o custo de qualquer ação armada estrangeira que atentasse contra a permanência do presidente sírio no cargo.

    O doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais na FGV e na ESPM, Guilherme Casarões, disse ao Nexo ver três camadas sobrepostas no conflito sírio, que ele explica da seguinte maneira:

    Três camadas para entender

    ‘Incongruências da própria síria’

    Casarões chama a Síria de “país com fronteiras artificiais”, pois o desenho de seus limites foi feito com base em critérios das potências coloniais, sem levar em conta as diferenças culturais e religiosas dos povos que habitavam a região, no início do século 20. Isso pôs dentro de um mesmo território grupos heterogêneos cujas divisões se acentuaram depois da destituição de líderes seculares após a Primavera Árabe, no início dos anos 2000, como também ocorreu no Iraque e no Líbano. Esse pano de fundo religioso e cultural dificulta a costura de um acordo hoje.

    Contexto regional

    O professor diz ainda que a Síria se converteu numa encruzilhada de interesses regionais, envolvendo principalmente o Irã (xiita) e a Arábia Saudita (sunita). Os nomes xiita e sunita se referem a divisões que vêm desde o século 7, mas o que importa hoje, politicamente, é que os iranianos respaldam Assad, do lado xiita, enquanto os sauditas se alinham com a oposição, do lado sunita. Além disso, a Turquia corre por fora e, embora defendesse a oposição síria no início do conflito, com base numa posição secularista, acabou migrando para a esfera de influência do Irã e da Rússia, e, em consequência, se aproximando de Assad aos poucos, conforme o discurso do presidente turco Recep Tayyip Erdogan também se islamizou, buscando maior respaldo popular.

    As grandes potências

    Por fim, o professor diz que o envolvimento dos EUA e da Rússia alimenta a “tendência de que o conflito se perpetue no tempo”. Os americanos não querem perder a presença no Oriente Médio e no norte da África, conquistada após a deposição do líder iraquiano Saddam Hussein, em 2003, e do líder líbio Muammar Gaddafi, em 2011. Já os russos viram na desestabilização síria uma chance de conseguir influência política numa zona que está nas franjas da esfera de controle da Otan, aliança militar formada por americanos e europeus que é vista como uma ameaça permanente por Moscou.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que Guilherme Casarões é professor da Unicamp. Na verdade, ele leciona na FGV e na ESPM. A informação foi corrigida às 12h05 de 23 de agosto de 2016.

     

     

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