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Por que consumir LSD ou ecstasy no Brasil se tornou uma roleta-russa química

‘Doce’ e ‘bala’, nomes populares para definir LSD e ecstasy, se tornaram guarda-chuvas para uma gama de substâncias novas e pouco estudadas, sem que os usuários saibam disso

    Quem usa cocaína se sente eufórico, com energia, falante, alerta, e com os sentidos hipersensíveis. As pupilas se dilatam e a pressão sanguínea aumenta. Há risco de ansiedade, pânico, paranoia, vertigem, espasmos musculares, infarto, derrame cerebral e coma.

    Outras drogas populares há décadas - ou bem mais do que décadas -, como maconha, LSD ou álcool também têm “barato” e efeitos colaterais conhecidos. Quem decide usá-las pode se preparar para lidar tanto com um quanto com os outros. E médicos podem tratar usuários abusivos com base em pesquisas científicas e experiência prática.

    Há no mercado ilegal, no entanto, uma quantidade crescente de drogas sintéticas novas cujos efeitos ainda não são completamente conhecidos. Entre 2013 e 2016, a Polícia Federal identificou 59 novas drogas entre suas apreensões no país, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo jornal “O Estado de São Paulo”.

    No geral, essa miríade de substâncias e outras vetadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) são vendidas como LSD ou MDMA (sigla para metileno-dioxi-metanfetamina), popularmente conhecido como ecstasy.

    Comprar “doce” ou “bala”, como essas substâncias são chamadas popularmente, se tornou uma roleta-russa química praticada por um público cada vez maior à medida que essas drogas passam a ser consumidas não só em casas noturnas, mas também em eventos como formaturas, festas de casamento e churrascos.

    Entenda o que motiva o mercado ilegal de drogas a produzir tantas novidades e por que elas representam um risco extra para os usuários.

    Por que há tantas novas drogas no mercado

    Segundo especialistas entrevistados pelo Nexo, há dois motivos para a proliferação de novas drogas sintéticas: a corrida contra agências reguladoras e o corte de custos.

    Corrida contra agências reguladoras

    No Brasil, a lei 11.343 de 2006, conhecida popularmente como “Lei de Drogas”, define as penas para quem trafica, mas não exatamente quais substâncias são consideradas ilegais. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilãncia Sanitária) é a responsável por atualizar uma lista com as drogas vetadas.

    Maurício Fiore, coordenador da Plataforma Brasileira de Políticas de Drogas, uma rede de ONGs que estudam e propõem políticas públicas sobre o tema, afirma que, além das apreensões da Polícia Federal, a Anvisa usa como base para o documento dados da Jife (Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes), órgão das Nações Unidas que tem entre suas atribuições identificar substâncias que devem ser colocadas sob controle internacional.

    Substâncias que “dão barato”, mas ainda não entram na lista da Anvisa podem ser livremente comercializadas sem que os vendedores sejam acusados de tráfico de drogas.

    Por isso, afirma Fiore, há uma espécie de corrida de pequenos laboratórios contra as agências reguladoras para desenvolver novas drogas recreativas e vendê-las o mais rápido possível antes que sejam proscritas.

    Mesmo depois de essa motivação inicial ter passado e as drogas se tornarem ilegais, o conhecimento sobre a produção das substâncias segue existindo entre laboratórios clandestinos, e elas continuam a ser produzidas.

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    Laboratórios produtores de drogas sintéticas foram destruídos entre 2013 e 2016, a maior parte deles em Goiás, segundo dados da Polícia Federal obtidos por via da Lei de Acesso à Informação pelo jornal ‘O Estado de S. Paulo’

    Produtos mais baratos

    O outro motivo para a proliferação é mais econômico do que jurídico. Segundo Maria Angélica de Castro Comis, psicóloga que pesquisa drogas sintéticas e autora do trabalho “Crenças atribuídas à opção de não usar MDMA (ecstasy): estudo qualitativo entre não usuários, usuários experimentais e ex-usuários”, publicado em 2011, o custo de se montar um laboratório capaz de produzir LSD é de cerca de US$ 200 mil.

    A maior parte dos pequenos produtores não tem esse capital, por isso produz substitutos que vendem por um preço mais barato. Maria estima que uma dose de LSD custe cerca de R$ 60, mas substitutos podem ser encontrados por cerca de R$ 30. O usuário de “bala” e “doce”, portanto, pode estar consumindo uma miríade de substâncias pouco conhecidas.

    “As drogas sintéticas que chegaram na década de 90 no Brasil eram produzidas em laboratórios na Bélgica. Agora, o Brasil também produz, mas a maioria dos laboratórios com certeza não tem um padrão alto. Houve uma popularização e um aumento da produção paralela de bala [MDMA] e doce [LSD], que podem ser encontrados em qualquer ‘biqueira’. Mas não sabemos o que é [de fato] vendido”

    Maria Angélica de Castro Comis

    Psicóloga e autora do trabalho ‘Crenças atribuídas à opção de não usar MDMA (ecstasy): estudo qualitativo entre não usuários, usuários experimentais e ex-usuários’, publicado em 2011

    NBOMe, o LSD fajuto

    Em 2014, o estudante Victor Hugo Marques, de 20 anos, foi encontrado morto na raia olímpica, da USP (Universidade de São Paulo), um lago artificial onde se praticam esportes aquáticos na Cidade Universitária, em São Paulo.

    Segundo laudo do IML (Instituto Médico-Legal), ele havia tomado uma droga alucinógena chamada 25-B-NBOMe, que tem efeito similar ao do LSD.

    Há diversas versões do NBOMe, que é uma variante da molécula feniletilamina. No Brasil, 11 tipos de NBOMe foram proibidos em fevereiro de 2014 pela Anvisa. Segundo reportagem do “Estadão”, essa droga lidera a lista de apreensões da PF nos últimos anos.

    Além de estudar drogas sintéticas em festas, Maria Angélica também é ex-coordenadora do Projeto Respire, de redução de danos do uso de drogas nesses ambientes.

    Em unidades de atendimento chamadas “SOS Bad Trip” organizadas pelo projeto em festas, uma equipe verifica os sinais vitais de quem apresenta complicações e acompanha o efeito psíquico da substância até que o usuário melhore.

    A pesquisadora conta que, quando atendia a pacientes que passavam mal enquanto alucinavam após terem supostamente tomado LSD, perguntava qual era o sabor da droga ingerida. No geral, a resposta era de que a substância era amarga. A questão é que o LSD não tem gosto, já substitutos da linha NBOMe, sim.

    As sensações do uso do LSD incluem um sentimento de empatia e comunhão com o universo, a percepção visual de sons e uma mudança nos níveis de criatividade que ficam comparáveis aos de crianças.

    Os efeitos do NBOMe ainda não são completamente conhecidos, mas com base em sua experiência, Maria Angélica afirma que “além do efeito psicodélico, o NBOMe tem um efeito estimulante mais forte”. Ela afirma que observou casos em que os usuários:

    • Apresentam medo de morrer
    • Entram em contato com questões emocionais com as quais não esperam lidar ao tomar a droga
    • Sentem náusea

    Esse tipo de droga também está associado a autolesões, parada cardíaca e problemas renais, diz Comis. Seu consumo tem sido identificado também em outras partes do mundo.

    O trabalho “A série de drogas alucinógenas NBOMe: Padrões de uso, características dos usuários e efeitos autorreportados em uma amostra internacional ampla”, em uma tradução livre do inglês, publicado em 2014 no “Journal of Psychopharmacology”, entrevistou 22.289 usuários on-line e concluiu que essas drogas estão associadas a mortes e hospitalizações, assim como a uma taxa maior de “‘efeitos negativos durante o barato’ do que outras drogas similares”.

    “Substâncias como o LSD e cocaína já são conhecidas e tiveram uso médico na década de 1960. O proibicionismo ocorreu por conta de questões sociais, raciais e financeiras não pautadas por evidências científicas. É evidente que existe o risco quando se usa LSD, mas há uma cultura de uso dessa droga, que tem uma toxicidade baixa. Se vou tomar uma cerveja também corro riscos, mas com a diferença de que tenho muito mais controle porque sei o que estou tomando”

    Maria Angélica de Castro Comis

    Psicóloga e autora do trabalho ‘Crenças atribuídas à opção de não usar MDMA (ecstasy): estudo qualitativo entre não usuários, usuários experimentais e ex-usuários’, publicado em 2011

    Ecstasy e substitutos

    Também é comum que outros tipos de substâncias sejam vendidos como ecstasy. Essa droga é uma anfetamina geralmente vendida em pequenos comprimidos. Ela tem efeitos similares aos do LSD, com a diferença de que deixa a pessoa com mais energia.

    Segundo Comis, entre os substitutos mais comuns estão a PMA (Para-metoxianfetamina), um outro tipo de anfetamina, e vermífugos. Proibida em 2015 pela Anvisa, a etilona também é vendida como ecstasy e está em segundo lugar da lista de drogas sintéticas encontradas pela Polícia Federal.

    Testar essas drogas também pode ser entendido como crime

    Segundo Maria Angélica  Comis, no caso das drogas sintéticas há testes simples que poderiam verificar ao menos se algo vendido como LSD tem mesmo LSD em sua composição - o que não afastaria a hipótese de que o comprimido ou gota viesse misturado a outras substâncias.

    Nos Estados Unidos, a ONG (Organização Não Governamental) Erowid, realiza exatamente esse trabalho. Ela coleta amostras de drogas vendidas no país e publica informações sobre elas no site EcstasyData.org, lançado em 2001.

    Consultando o catálogo da entidade, é possível saber, por exemplo, que uma pílula de cor verde escuro com o molde do rosto do Super Mário vendida na rua é a substância psicodélica 2C-B, criada em 1974. E que uma pílula de cor verde claro com o formato de Hello Kitty, vendida com o nome da personagem, é LSD.

    Mas quem se dispusesse a fazer isso no Brasil correria sério risco de passar por problemas.

    A lei 11.343 de 2006 define penas duras, de 5 a 15 anos, para quem trafica, e mais brandas, de advertência verbal e prestação de serviços à comunidade para quem apenas porta drogas. 

    Testar drogas poderia ser encarado por um juiz no mínimo como porte das substâncias, mas não apenas isso. Uma das críticas à Lei de Drogas é a de que ela cria critérios subjetivos e nebulosos para definir se uma plantação de maconha ou porções de drogas encontradas com suspeitos são para consumo próprio ou para tráfico.

    O juiz se baseia no que dizem a polícia e o Ministério Público sobre as circunstâncias em que a droga foi apreendida e a conduta do acusado. Há, portanto, espaço para acusar de tráfico alguém que se propuser a testar a composição de drogas.

    Maconha e cocaína também têm risco de serem adulteradas

    Quem usa maconha ou cocaína puras corre menos riscos do que quem usa drogas sintéticas desconhecidas.

    Mas, assim como ninguém sabe exatamente o que é vendido como ecstasy ou LSD, essas drogas são comercializadas misturadas a uma ampla gama de substâncias como forma de baixar os custos.

    Comis avalia que o risco de se usar maconha ou cocaína "batizados" - ou seja, modificados de alguma forma - é em geral menor do que o de usar drogas sintéticas desconhecidas, que estão mais relacionadas a quadros de psicose - termo que designa desligamento da realidade e comprometimento do funcionamento mental.

    Como o mercado de maconha e cocaína também é ilegal, não há uma agência reguladora que se encarregue de se certificar de que elas têm a mesma composição daquelas que são conhecidas e estudadas há décadas. A informação não está na bula.

    “Em relação à maconha, o risco parece ser menor (...). Sobre a cocaína,  eu acredito que existe risco, mas um pouco menor, pois é comum misturarem 'pó royal' e alguns comprimidos de anfetamina”, afirma.

    Segundo Maurício Fiore, há poucos estudos no Brasil sobre quadros agudos de intoxicação após a ingestão de drogas, por isso é difícil avaliar o risco de se tomar substâncias vendidas nas ruas.

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