Jornada da heroína: como é a narrativa mítica baseada nas necessidades e aspirações da mulher

Autora apresenta estrutura mítica de narração alternativa à jornada do herói, de Joseph Campbell. Ideia é propor uma jornada paralela, que contemple conflitos, dilemas e outras questões ligadas à psique da mulher contemporânea

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    A “jornada do herói”, ou “monomito”, é o nome de uma teoria proposta pelo antropólogo Joseph Campbell, em 1949, no livro “O Herói de Mil Faces”. Campbell identificou que todos os mitos clássicos da humanidade - as histórias de Jesus e Moisés, Gilgamesh, Gauthama Buda, Prometeu, Hércules e Osiris, por exemplo - seguem em maior ou menor grau uma estrutura narrativa semelhante, que pode ser encaixada em uma jornada cíclica.

    Campbell argumenta que os mitos criados pelo homem, em diferentes épocas, sociedades e contextos, seguem uma mesma estrutura narrativa não por algum fator sobrenatural ou coincidência.

    Para ele, essa sintonia tem a ver com o conceito de arquétipos, a ideia do psicoterapeuta suíço Carl Jung de que os seres humanos têm um conjunto inato de ideias e símbolos mentais associados a uma série de situações humanas recorrentes.

    No entanto, uma das estudantes do trabalho de Campbell nos anos 1990 achou que a estrutura sugerida pelo antropólogo podia ser útil para algumas narrativas - mas falhava em dar conta de outros tipos de histórias, com buscas mais internas e psicológicas.

    Além disso, não levava em conta dilemas e conflitos específicos da natureza feminina e dos desafios que só as mulheres enfrentam em uma sociedade patriarcal. Em razão disso, ela criou uma versão paralela da jornada do herói - a jornada da heroína.

    Entenda a jornada do herói

    A teoria de que todos nascem com um conjunto de ideias que simbolizam as principais angústias, necessidades, dilemas e desafios do ser humano é, hoje em dia, bastante contestada por psicanalistas.

    No entanto, a jornada do herói continua sendo usada por escritores e roteiristas como base para obras populares da literatura, do cinema e dos games: sagas como Matrix, Star Wars e Harry Potter, por exemplo, são apenas três das centenas de exemplos que seguem essa estrutura.

    Os 12 passos da jornada do herói de Campbell

    Mundo Comum

    O mundo normal do herói antes da história começar.

    O Chamado da Aventura

    Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.

    Recusa do Chamado

    O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente por medo.

    Encontro com o mentor

    O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.

    Cruzamento do Primeiro Portal

    O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.

    Provações, aliados e inimigos

    O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.

    Aproximação

    O herói tem êxitos durante as provações.

    Provação difícil ou traumática

    A maior crise da aventura, de vida ou morte.

    Recompensa

    O herói enfrenta a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa.

    O Caminho de Volta

    O herói deve voltar para o mundo comum.

    Ressurreição do Herói

    Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido.

    Regresso com a recompensa

    O herói volta para casa com a recompensa, e a usa para ajudar todos no mundo comum.

    Essa estrutura não precisa ser aplicada para a trajetória de apenas um personagem. Uma narrativa única pode ter inúmeros personagens, de vários gêneros, cuja jornada se encaixa na do herói; pode ser composta por vários pequenos conflitos que seguem essa estrutura e, ao mesmo tempo, se adequar ao mito do herói também no enredo maior. A teoria de Campbell foi construída de maneira a permitir essa diluição.

    “Sempre foi a função primária da mitologia e do rito suprir os símbolos que carregam o espírito humano adiante, em oposição àquelas outras constantes fantasias humanas que costumam nos prender.”

    Joseph Campbell

    Antropólogo, autor da teoria da Jornada do Herói

    O que é a jornada da heroína

    Muitos mitos cujas heroínas são mulheres se encaixam na estrutura de Campbell. Ela foi concebida, afinal, para refletir aspectos da natureza humana, independentemente do gênero.

    No entanto, em 1990, uma das estudantes do trabalho de Campbell, Maureen Murdock, identificou que a estrutura proposta pelo antropólogo falhava em contemplar uma jornada muito específica: a busca psicológica e espiritual da mulher contemporânea.

    Naquele ano, ela publicou o livro “A Jornada da Heroína”, que propõe um modelo paralelo de narrativa que leva em conta as necessidades, dilemas e angústias da mulher arquetípica contemporânea, e não do homem.

    Ao tomar contato com sua obra, quando ainda vivo, Campbell disse que “a mulher não precisa fazer a jornada. Em toda tradição mitológica a mulher está lá. Tudo que ela tem que fazer é perceber que ela é aonde as pessoas estão tentando chegar”, ou seja, a recompensa.

    “A jornada do herói é uma busca pela essência [de si mesmo] e é baseada em mitologia e contos de fadas do mundo todo. Esse propósito, no entanto, não contempla a jornada arquetípica da heroína. Para as mulheres contemporâneas, isso inclui a cura de uma fera do feminino que existe dentro dela e na sociedade.”

    Maureen Murdock

    Em artigo publicado na Enciclopédia de Psicologia e Religião, edição de 2016

    A interpretação de Murdock sobre a frase não a considera machista - para ela, Campbell usou o termo “mulher” para se referir ao parceiro ou parceira romântica do herói. E, para a autora, Campbell está correto se a busca do herói ou da heroína for a de um encontro espiritual, uma espécie de re-conexão consigo mesmo - o ideal descrito pela jornada do herói.

    No entanto, caso a busca seja mais psicológica do que espiritual, ela defende que o monomito não é suficiente - e aí, é preciso de uma jornada da heroína. Ou seja: a jornada da heroína é apenas outro modelo mítico, um que contempla outras necessidades e conflitos.

    Como Campbell, a autora usa como referências o folclore e mitos de várias culturas, contos de fadas, deusas pagãs e outros símbolos associados ao feminino. E assim como a jornada do herói, a da heroína pode se aplicar a personagens e narrativas de qualquer gênero, basta que se adeque à história que o autor pretende contar. Nada impede, aliás, que ambos modelos narrativos sejam usados na mesma história, até mesmo para um mesmo personagem.

    As fases da narrativa mítica da heroína

    Para Murdock, aspectos culturais e sociais criam diferenças psicológicas entre os gêneros e mudam a maneira como homens e mulheres reagem diante de conflitos.

    A jornada da heroína é a busca única da mulher por propósito num contexto e sociedade em que ela é constantemente comparada - e definida - por valores e padrões masculinos.

    Os 8 passos da jornada arquetípica de uma heroína

    As oito fases do mito descrevem a história de uma protagonista que começa tentando se desvencilhar dos valores femininos na intenção de buscar aprovação e reconhecimento num contexto fundamentalmente patriarcal, passa por um período de conflito que culmina em uma morte simbólica e, por fim, renasce, buscando pela re-conexão com os poderes e o espírito do sagrado feminino, o equilíbrio com os valores femininos e a união dos dois.

    “A heroína deve se tornar uma guerreira espiritual. Isso demanda que ela aprenda a delicada arte do equilíbrio e tenha paciência para a integração lenta e sutil dos aspectos femininos e masculinos de sua natureza. Primeiro ela está ávida por perder seu lado feminino e se unir ao masculino, e uma vez que consegue isso, percebe que não é a resposta nem o objetivo. Ela não deve descartar ou desistir do que aprendeu durante sua jornada épica, mas deve enxergar as habilidades que ganhou e seu sucesso não como o objetivo, mas como parte da jornada.”

    Maureen Murdock

    No livro A Jornada da Heroína, de 1990

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