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O que diz a teoria conspiratória de que Trump, no fundo, concorre para perder

Em artigo na imprensa americana, cineasta Michael Moore afirma que milionário republicano se lançou candidato apenas para inflacionar contratos com reality show, mas estratégia saiu de controle

     

    A candidatura de Donald Trump à Casa Branca é tratada frequentemente como um fato surreal e absurdo; não somente por empenho de seus detratores, mas porque o próprio candidato republicano usa em seu favor o inesperado, o chocante e o grotesco como recursos de marketing, com a intenção de contrastar com os políticos tradicionais aos quais sua figura espalhafatosa e, por vezes, inconsequente se opõe.

    É nesse ambiente espaçoso e permissivo do exagero e da realidade fantástica que o cineasta americano Michael Moore lançou na quarta-feira (16) a tese de que Trump nunca planejou de fato ser presidente dos EUA. O documentarista - que é crítico ferrenho de Trump e eleitor de Hillary Clinton - diz ter ouvido de uma fonte ligada ao candidato republicano que tudo não passou de um plano ousado que simplesmente saiu de controle.

     

    Moore é conhecido por seus documentários políticos, que expõem, a partir de um ponto de vista socialista, as contradições do sistema político e econômico americano - da cultura da posse de armas às carências do sistema de saúde -, mas ele não é exatamente um analista político ou um repórter investigativo. Por isso, seu artigo se situa na fronteira entre o jornalismo e a especulação artística.

    Apesar disso - ou, talvez, justamente por trazer esse olhar “de fora” - a teoria levantada por Moore chamou tanta atenção. O texto chegou a ser citado pelo jornal britânico “The Guardian” e, em 24 horas, reuniu mil comentários de leitores no site da publicação.

    Primeiro os negócios. Depois, a política

    Na versão de Moore, a ideia de se lançar pré-candidato não partiu propriamente de uma aspiração política, mas da necessidade que Trump tinha de renegociar o contrato que possuía com a emissora de TV americana NBC, onde apresentava o reality show “O Aprendiz”.

    Nesse programa, Trump fazia o papel de si mesmo - um empresário milionário e bem sucedido que seleciona candidatos a uma vaga em sua firma, numa espécie de gincana real transmitida pela televisão, na qual os “perdedores” são demitidos de forma rude pelo apresentador.

    O magnata, segundo Moore, queria, na condição de bom negociador, puxar para cima o valor de renegociação de seu próprio contrato. Primeiro, Trump teria procurado emissoras concorrentes. Depois, teria bolado essa estratégia de marketing ousada de simplesmente anunciar que concorreria nas primárias republicanas.

    É possível dividir essa suposta aventura de Trump em seis momentos principais, partindo do anúncio da pré-candidatura até o estágio atual, no qual o milionário foi escolhido como rival de Hillary e chega até mesmo a liderar a corrida em alguns momentos, com vistas à eleição nacional de 8 de novembro.

    O blefe do anúncio

    Era para ser um blefe, diz Moore. “É claro que ele não iria realmente concorrer à presidência - ia apenas fazer o anúncio, participar de alguns megacomícios que agregariam a ele algumas dezenas de milhares de fãs, e esperar pelas primeiras pesquisas de opinião mostrando ele - quem mais?! - em primeiro lugar! E aí conseguiria qualquer contrato que ele quisesse, valendo milhões a mais [para a emissora] do que ele recebia na época”, afirma o cineasta.

    De fato, Trump se lançou sem possuir qualquer estrutura de campanha condizente com as pretensões de quem realmente almeja a vitória. Ele não apenas se lançou sem o apoio dos maiores figurões do partido, como concorreu nas primárias - e concorre ainda hoje - contra a vontade de muitos desses figurões.

    Pela culatra

    Seja como for, a campanha de Trump decolou na vertical, impulsionada, entre outras coisas, por promessas bizarras, como a de construir um muro na fronteira com o México para impedir a imigração de “estupradores” e “traficantes”.

    Se, por um lado, o milionário caiu nas graças do eleitorado americano, por outro perdeu seu contrato com a NBC. A emissora emitiu nota declarando o seguinte: “Dado o recente discurso feito por Donald Trump sobre os imigrantes, a NBC Universal está encerrando suas relações comerciais com o Sr. Trump.”

    De volta ao show

    O que à primeira vista parecia um fracasso da estratégia se revelou o contrário. A cada nova declaração chocante, o magnata recebia mais atenção da mídia, e mais e mais convites para participar de programas de televisão, não apenas em seu reality show de origem, mas em qualquer programa do qual ele quisesse participar.

    A exposição na NBC passou a parecer uma mixaria quando comparada ao espaço que Trump havia conquistado em todas as emissoras de televisão, sites, rádios, jornais e revistas dos EUA. Moore diz que nada no cargo de presidente dos EUA poderia interessar a um magnata como Trump - da dimensão acanhada da Casa Branca à rotina enfadonha da burocracia do posto.

    Longe demais

    Mas, na tese de Moore, o experimento saiu de controle - ou seja, deu certo demais. A vitória de Trump contra seus adversários na primária republicana foi avassaladora. Os discursos simplistas e carregados de palavras agressivas encontraram num eleitorado cansado e ressentido ambiente fértil, que se converteu em votos e num apoio nacional inesperado.

    O cineasta relembra a reação de Trump ao anúncio de vitória nas primárias de New Jersey, no dia 7 de junho. Em vez de um pronunciamento triunfante, Trump parecia incrédulo e reticente. Essa apreciação não foi apenas de Moore, mas também da revista americana “Times”.

    Sabotagem

    O momento atual da campanha é, segundo Moore, de autosabotagem. Diante de iminência de vencer, Trump estaria escalando cada vez mais as declarações absurdas, como forma de implodir o próprio nome, antes que seja tarde demais.

    Numa sequência desastrosa, o magnata conseguiu convidar espiões russos a violarem correspondências do tempo em que Hillary era secretária de Estado e, em seguida, insultar a família de um veterano de guerra morto em combate. Flertar com russos e ofender veteranos não são, certamente, posturas que agradem os republicanos.

    As leituras possíveis

    É difícil dar a real dimensão dessa versão conspiratória de Moore, que já vinha circulando nos EUA antes de aparecer escrita. O próprio cineasta parece brincar com os argumentos. Num de seus artigos de maior sucesso sobre Trump até então, ele chegou a dizer que a vitória do republicano era inevitável (mas, no pé do artigo, prometia voltar ao assunto mostrando como isso era improvável também).

    De um jeito ou de outro, a teoria de Moore mostra que os EUA buscam formas de digerir esse fenômeno tão estranho que é a candidatura de Trump. Mesmo que, para isso, tenham de mesclar realidade e uma dose de fantasia.

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