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Como uma impressora 3D vai ajudar na educação sexual dos franceses

Modelo de clitóris será usado nas salas de aula para aprofundar o ensino sobre sexualidade feminina

 

O sexismo é um dos grandes impedimentos sociais para que mulheres conheçam seu corpo. Os tabus de repreender a sexualidade feminina têm papel na reprodução cultural do desconhecimento sobre a anatomia sexual e reprodutiva das mulheres.

“Não era visto como adequado socialmente a mulher conhecer seu próprio corpo e tocá-lo. E eu acho que esse feminismo que está chegando, das meninas [mais jovens], está revendo questões que já foram colocadas nos anos 70, de reapropriação da mulher sobre o corpo e de combate ao estigma de coisa feia, desagradável”

Ana Flávia Pires Luca D’Oliveira

Professora de medicina da Universidade de São Paulo em entrevista ao Nexo

Essa cultura é alimentada pela educação formal sobre sexo - que muitas vezes falha em abordar a anatomia feminina com precisão e honestidade para as crianças e jovens nas aulas de educação sexual. Isso acontece no mundo todo, mas não é surpreendente: a própria medicina, ao longo da história, negligenciou os estudos sobre o orgasmo feminino e o clitóris.

Por isso, a partir de setembro, as aulas de educação sexual para estudantes francesas vão contar com um modelo físico, feito em impressora 3D, de um clitóris. O órgão aparece em sua forma completa, inclusive com as partes internas - que raramente aparecem em livros de anatomia.

O uso de um modelo físico de um clitóris, de acordo com os educadores envolvidos no projeto, pode ter papel no combate dos tabus e do consequente desconhecimento sobre orgasmo e sexualidade feminina. Além disso, deve provocar em sala de aula a discussão sobre o papel desse órgão - um debate que ainda gerava controvérsia no meio médico há pouco tempo.

Ciência x clitóris feminino: uma relação difícil

Ao longo da história, as sociedades organizadas enxergaram o clitóris como uma versão “menos importante” do pênis - e as análises contemporâneas creditam isso ao fato de que todos os cientistas e médicos que estudavam anatomia nas sociedades antigas eram homens.

Essa concepção influencia até hoje a maneira como enxergamos a anatomia reprodutiva e sexual feminina - e a atenção que a ciência deu ao estudo do clitóris. O interesse diminui quando ficou claro que o clitóris não tinha papel na fecundação - os europeus medievais associavam o orgasmo à fecundidade.

A maior prova da negligência da medicina em relação ao órgão do prazer feminino é que o guia “Henry Gray’s Anatomy of the Human Body”, reverenciado até hoje pela medicina como um clássico da anatomia humana, “apagou” o clitóris de sua ilustração dos órgãos sexuais e reprodutivos femininos na 48ª edição, publicada em 1948.

“Acho que uma das razões pelas quais sabemos tão pouco sobre o clitóris no geral é porque é uma informação que ninguém achou que fosse importante o suficiente.”

Jenny Block

Educadora sexual e autora do livro “O Wow: Discovering Your Ultimate Orgasm”, sem edição em português

A anatomia do clitóris foi descrita pela primeira vez em 1559 pelo médico italiano Realdo Colombo. Na ocasião, ele questionou como um órgão “tão bonito” tinha sido ignorado por cientistas por tanto tempo.

Mesmo assim, os tabus sobre sexualidade e anatomia feminina ainda parecem influenciar na atenção que a medicina dá para o estudo desse órgão e do orgasmo feminino. Um estudo de 2005 chamado “A Anatomia do Clitóris” e publicado pelo “Journal of Urology” reconhece que as descrições típicas dos livros médicos sobre o clitóris são imprecisas e carecem de detalhes.

A ciência ainda não sabe, por exemplo, a função biológica e evolutiva do orgasmo feminino, no qual o clitóris tem papel fundamental. Um estudo recente, de julho de 2016, identificou que o orgasmo pode ter servido em outras espécies de primatas para avisar o corpo da necessidade de ovulação. Mesmo assim, é apenas uma hipótese.

O clitóris 3D

A pesquisadora sociomédica francesa Odile Fillod foi contratada por um estúdio criativo para desenvolver um material audiovisual moderno de educação sexual. No processo de criação desse material, ela percebeu que o clitóris nunca era representado de maneira completa e fiel nos materiais sobre educação sexual destinados a escolas francesas.

“A França tem uma reputação de ser sexualmente sofisticada, mas isso tem a ver com a sexualidade masculina. Ao entender que têm um sistema erétil assim como os homens, acho que as mulheres vão experimentar mais. Vão entender que o prazer não é algo mágico que só o parceiro sabe proporcionar.”

Odille Fillod

Sociomédica francesa autora do projeto, em entrevista ao The Guardian

Ela decidiu, então, desenvolver um modelo 3D do clitóris que pudesse ser produzido por uma impressora. Esse modelo será usado em aulas de educação sexual para crianças francesas de escolas primárias e secundárias a partir de setembro de 2016.

O modelo detalhado esculpido digitalmente por Fillod mostra aspectos anatômicos do clitóris que normalmente não são ensinados para crianças e jovens. Pelo modelo é possível perceber, por exemplo, o tamanho do tecido erétil que forma o clitóris. É o mesmo que forma o pênis, mas tem uma camada interna maior.

 

“É importante que as mulheres tenham uma imagem mental do que realmente acontece no corpo quando elas são estimuladas. Ao entender o papel central do clitóris, a mulher pode parar de sentir culpa, ou que ela é anormal se a penetração não a estimula - de acordo com a informação anatômica, essa é a regra para a maioria das mulheres”, disse Fillod, em uma entrevista ao jornal inglês The Guardian.

Fillod diz que é fundamental entender, por exemplo, que o equivalente ao pênis na mulher não é a vagina, mas o clitóris. “Queria mostrar que homens e mulheres não são assim tão diferentes”, explicou na entrevista.

Em junho de 2016, um relatório do “Haut Conseil à l’Egalité”, departamento do governo francês responsável por monitorar a igualdade de gêneros na sociedade, informou que a educação sexual nas escolas francesas ainda tem muitos elementos sexistas.

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