Por que o governo e as Farc querem o acordo de paz, mas os colombianos nem tanto

Metade dos cidadãos se opõe aos termos do acordo que pretende pôr fim a 52 anos de guerra civil no país sul-americano

     

    A Colômbia vive um momento contraditório. Quanto mais perto o governo fica de colocar em prática um acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e, com isso, acabar de vez com uma guerra civil que já dura 52 anos, a população do país se torna mais indecisa e pessimista.

    Em junho, 39% diziam “não” ao acordo. Dois meses depois, a cifra subiu para 50%. Ao mesmo tempo, o “sim” caiu de 56% para 19%. E os indecisos passaram de 5% a 11%.

    Termômetro colombiano

     

    O diálogo com as Farc para selar o fim de um conflito que já deixou mais de 220 mil mortos ocorre em Havana, capital de Cuba, desde fevereiro de 2012. Em junho, governo e guerrilha acertaram os cinco pontos que compõem o documento histórico, mas sua validade ainda depende de aprovação popular por meio de um referendo.

    O processo todo é complexo e cheio de nuances. A vitória do “não”, por exemplo, não significa necessariamente que o acordo de paz terá de ser completamente anulado. É mais sutil que isso: ele apenas impede que o presidente Juan Manuel Santos apresente os termos do acordo para serem votados no Congresso tal como estão. Nesse caso, a alternativa seria contornar o impasse com maior protagonismo do Congresso, e não do chefe do Executivo, por meio de negociações exaustivas com os congressistas e a sociedade.

    A campanha pelo “não” está há mais tempo nas ruas. Teve início há pelo menos três meses, enquanto o “sim” ainda dependia de acertos entre os dois lados da disputa - guerrilha e governo - que sequer tinham ocorrido. Em outras palavras: tem sido mais fácil se opôr ao acordo do que tentar construí-lo.

    Comparecimento

     

    Além disso, a própria proposta de acordo precisou ser submetida à Suprema Corte, o que impedia a defesa do “sim”, mas não retardava em nada o “não”.

    Até agora, três fatores principais têm sido elencados pela imprensa colombiana para interpretar o crescimento e a prevalência do “não” sobre o “sim”.

    Ruído presidencial

    O processo não anda sozinho. Ele é encabeçado pelo presidente Juan Manuel Santos, que assume a face pública nas negociações. Um sucesso no acordo será um sucesso histórico dele. Da mesma forma, a rejeição a ele também se converte em rejeição ao processo. Há, portanto, uma linha cruzada nas opiniões políticas a esse respeito.

    Santos era aprovado por 41% dos colombianos em janeiro, mas esse índice caiu para 21% em junho. Nesse período, a Colômbia enfrentou ameaça de apagão e um escândalo envolvendo policiais com uma rede de prostituição. Ambos casos afetaram a imagem de Santos e de seu gabinete. A queda da popularidade foi inversamente proporcional ao crescimento do rechaço popular ao acordo.

    A imagem do presidente e o acordo

     

    Ruído ‘ex-presidencial’

    O antecessor de Santos na presidência da Colômbia, Álvaro Uribe, é um dos grandes críticos do processo de paz. Santos foi ministro da Defesa de Uribe de 2006 a 2009, mas os dois romperam politicamente e passaram a ocupar lugares opostos na cena nacional.

    Uribe - que é membro de uma poderosa família de latifundiários envolvidos historicamente no combate às Farc - ainda não declarou oficialmente se apoiará o “não”, mas tece tantas críticas ao processo que é impossível supor o contrário. Além disso, seus maiores aliados políticos já fazem campanha aberta pelo “não” na Colômbia há algum tempo.

    A principal crítica de Uribe é sobre o ponto do acordo que permite que guerrilheiros desmobilizados (que deixem a guerrilha) possam ingressar na vida política. Em junho, 71% dos colombianos se opunham a que isso pudesse ocorrer. Em agosto, a cifra subiu para 76%. Para o ex-presidente, o acordo defendido por Santos beneficia muito mais as Farc do que o restante dos colombianos.

    De volta às instituições

     
     

    Outros fatores

    Além do antagonismo entre Santos e Uribe, pesam ainda no humor dos colombianos fatores difusos, como o desempenho da economia. O mau humor em relação ao cenário geral do país influencia o humor em relação ao processo de paz também. Apenas 35% elogiam a gestão econômica do governo nessa matéria.

    A crise política na vizinha Venezuela é outro fator. Em agosto de 2015, a fronteira entre os dois países foi fechada, por ordem do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. A reabertura, um ano depois, provoca uma inundação de venezuelanos em busca de suprimentos que faltam em território venezuelano. Para 60% dos colombianos, Santos maneja mal essa situação bilateral.

    Além disso, 88% dos colombianos criticam a postura do governo nas negociações com caminhoneiros, que têm feito paralisações no país. E 60% criticam o que seria uma segunda etapa das negociações de paz, envolvendo outro grupo guerrilheiro, o ELN (Exército de Libertação Nacional).

    Avaliações por área

     

    O que é o acordo de paz e a guerra em si

     

    Governo e guerrilha se empenham há quatro anos nos termos do documento que pode encerrar um dos conflitos armados mais persistentes do mundo. O diálogo ocorre em Cuba, com apoio dos governos da Venezuela e da Noruega.

    O conflito teve início em 1964, mas suas raízes vêm desde 1948, quando movimentos de trabalhadores rurais que pediam uma ampla reforma agrária começaram a enfrentar grandes proprietários de terras e a força pública.

    A guerrilha, de origem marxista, cresceu nos anos 1960, 1970 e 1980, no contexto da Guerra Fria, que opunha um polo capitalista liderado pelos EUA a um polo comunista, orbitando ao redor da extinta URSS.

    Nos anos 1990 e 2000, fontes de financiamento da guerrilha como o sequestro e o tráfico de drogas assumiram maior protagonismo nas ações do movimento, que perdeu força ideológica. A pressão de grupos armados de direita - os chamados paramilitares - também pressionou as Farc, assim como uma tentativa frustrada de incorporar os guerrilheiros na vida política pacífica.

    O acordo proposto está baseado em cinco itens principais: reparação às vítimas, limpeza de terrenos infestados por minas e outros explosivos, combate ao tráfico de drogas, entrada dos guerrilheiros desmobilizados na vida política e realização de uma ampla reforma agrária.

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