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O que cada tipo de música diz sobre a personalidade do ouvinte

Pesquisadores criaram uma nova forma de classificação não baseada em estilos musicais para definir a qual traço de personalidade cada tipo de música corresponde

 

 

Esqueça o perfil do Facebook. Se quiser conhecer uma pessoa melhor, preste atenção em sua playlist. Essa é a conclusão do artigo acadêmico “A Música É Você: Preferências por Dimensões de Atributos Refletem Personalidade” (em tradução livre).

Publicado na revista “Psicologia da Música” em 2016, o trabalho busca compreender a ligação entre personalidades e os tipos de música que as pessoas tendem a ouvir.

Segundo os autores, traços individuais como otimismo, comportamento neurótico ou abertura a novidades dizem mais sobre gosto musical do que outros fatores como origem, idade ou extrato social. A música também pode, inversamente, servir como uma “janela da alma”.

O artigo acadêmico é de coautoria de pesquisadores das universidades de McGill e Cambridge. Eles afirmam no trabalho que suas descobertas podem ser utilizadas para aprimorar os algoritmos de serviços de “streaming” de música como Pandora ou Spotify, que recomendam músicas para os usuários.

Terapias a base de música também podem se beneficiar das descobertas. Elas têm sido utilizadas para melhorar o ânimo de doentes sob estresse e sofrimento, ou para estabelecer novos meios de expressão e interação para pacientes com problemas como autismo.

Entender a personalidade dos pacientes pode ajudar a definir qual tipo de música prescrever.

Pesquisadores superaram classificações como rock ou sertanejo

Um dos grandes desafios da psicologia musical, na qual o trabalho se baseia, é classificar a música de uma forma que possa ser utilizada pela ciência. Um mesmo estilo, e até um álbum de um único autor pode conter ao mesmo tempo músicas alegres, agitadas e simples e outras tristes, lentas e complexas.

Em entrevista ao site da universidade de Stanford, Daniel Levitin, da Universidade de McGill, afirma que “gêneros não vêm da teoria científica, mas dos selos idiossincráticos que as gravadoras ligam à música para fins de marketing e publicidade”.

Antes de estudar a ligação entre psicologia e o tipo de música que cada um ouve, os pesquisadores buscaram, portanto, criar uma classificação que fizesse sentido para a pesquisa.

Ao invés de estilos como rock, sertanejo, música clássica ou jazz, eles  buscaram divisões mais precisas que expressem o humor evocado por cada música. Para isso, os pesquisadores reuniram 76 juízes sem treinamento musical formal para classificar 100 músicas pouco conhecidas pertencentes a 26 gêneros musicais.

Por meio de análises estatísticas sobre a opinião dos juízes, as músicas foram divididas em três dimensões:

Dimensões musicais usadas na pesquisa

Excitação

É usado para definir músicas mais ou menos agitadas, de acordo com sua energia e intensidade. “Single Ladies”, da cantora Beyoncé, pode ser considerada uma música com altos níveis de excitação. A versão do cantor e trompetista de jazz Chet Baker da canção “The Thrill is Gone” tem baixos níveis de excitação.

Impacto emocional (“valence”)

Os especialistas também buscaram medir as emoções ou humor evocado pelas canções. Por exemplo, felicidade, ou a música “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil, têm valência positiva. O termo usado em inglês para essa classificação é “valence”.

Profundidade

É o termo usado pelos pesquisadores para definir se a música é mais ou menos complexa, ou sofisticada. A música “Parabéns a Você”, por exemplo, tem baixa complexidade.

Tais categorias dão aos autores ferramentas para classificar músicas de uma forma que ultrapassa as barreiras de gêneros.

Como funcionou o teste de complexidade

Os testes de complexidade foram realizados com 9.500 participantes recrutados via Facebook. Suas personalidades foram identificadas e cruzadas com as preferências musicais, que foram divididas de acordo com os parâmetros adotados pelo trabalho. Os testes mostraram, por exemplo, que:

  • Pessoas neuróticas tendem a procurar músicas com emoções e intensidade negativas.
  • Pessoas liberais, “abertas a novas experiências”, preferiam músicas geralmente definidas como “inteligentes, sofisticadas, inspiradoras, complexas e pensativas” e músicas mais intensas e rebeldes. Eles não se interessavam por músicas convencionais, com batidas de pop radiofônico, por exemplo.
  • Pessoas extrovertidas preferiram canções com emoções positivas e mais ligadas a batidas pop convencionais.
  • Otimismo estava associado a uma preferência maior por músicas energéticas e rítmicas.
 

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