Quem é Angela Davis, a Pantera Negra que vai virar filme

Acusada de participar de assassinatos na década de 70, militante estudou história das mulheres negras americanas e se tornou uma importante acadêmica dos EUA

     

    A produtora Codeblack Films comprou os direitos para filmar uma versão do livro “Angela Davis: Uma Autobiografia”, escrito pela ativista de 72 anos que foi uma das líderes do movimento pelos direitos civis dos negros durante as décadas de 60 e 70 nos Estados Unidos. Ela fez parte do grupo Panteras Negras.

    A Codeblack Films foi criada em 2012 pelo produtor Jeff Clanagan como uma divisão da produtora independente Lionsgate. A divisão tem foco no público negro americano.

    Angela trabalhará como produtora-executiva do próprio filme ao lado de sua sobrinha Eisa Davis, que está escrevendo o roteiro da obra, conforme revelou a revista “Vanity Fair”.

    Nascida em 1944 na cidade de Birmingham, no Alabama, Angela Davis é uma importante acadêmica dos Estados Unidos, conhecida pelo livro “Mulheres, Raça e Classe”, de 1980, que discute a identidade da mulher negra no país. Ela já foi tema de um documentário: “Libertem Angela Davis”, de 2011.

    Nascimento e formação política

    Angela Davis foi criada por professores de escola marxistas, no bairro de Dynamite Hill. O local recebe esse nome em referência às constantes explosões de casas causadas por atentados atribuídos à vizinhança branca que não aceitava a comunidade negra no local.

    Na época, movimentos extremistas racistas como o Ku Klux Klan tinham forte atuação no Estado, e rixas e linchamentos contra a população negra não eram incomuns.

    A militância de Davis começou cedo. Com 12 anos de idade, ela participou de um boicote a um ônibus que tinha vagas separadas para negros e brancos, uma prática comum na época. Aos 14 anos, recebeu uma bolsa e foi para Nova York, onde continuou seus estudos em um liceu esquerdista chamado Little Red School House.

     

    Em sua cidade de origem, a situação continuou tensa. No dia 15 de setembro de 1963, um mês após o pastor Martin Luther King Júnior dar o famoso discurso “Eu Tenho um Sonho” (“I Have a Dream”), no qual falou à população americana sobre seu ideal de igualdade racial, uma bomba explodiu pouco antes da missa do domingo na Igreja Batista de Birmingham, que tinha público predominantemente negro.

    Quatro jovens negras morreram, e muitas outras pessoas se feriram. Angela Davis conhecia algumas das vítimas.

    Na universidade

    Na década de 60, Davis passou a estudar na Universidade de Brandeis, no Estado de Massachusetts, onde teve aulas com o filósofo francês Herbert Marcuse.

    Ela se ligou a vários grupos. O mais famoso deles era o Partido dos Panteras Negras, que ficou conhecido por se contrapor à violência policial organizando patrulhas em guetos e por defender medidas extremas, como o armamento de todos os negros, isenção dos negros de pagamento de impostos e libertação de todos os negros da cadeia.

    Apesar disso, Davis trabalhava de forma mais íntima com o Che-Lumumba Club, um braço negro do partido comunista ao qual era filiada.

    Isso gerou problemas em sua carreira. Ela foi contratada como professora no campus de Los Angeles da Universidade da Califórnia, mas teve embates com a administração da instituição devido à sua ligação com o comunismo.

    Em 1969, Davis foi demitida, mas conseguiu ser recontratada após um processo na Justiça. Após o fim de seu contrato, no ano seguinte, teve, no entanto, que deixar a instituição.

    Envolvimento com os ‘Irmãos Soledad’

    Durante a década de 70, Davis também se envolveu na defesa de três membros do grupo Panteras Negras que cumpriam pena na prisão de Soledad, no Estado da Califórnia, John W. Cluchette, Fleeta Drumgo e George Lester Jackson.

    Eles foram acusados de matar um guarda branco após outros três presidiários terem sido mortos por um outro agente durante uma briga.

    Parte do movimento negro encarou as acusações como perseguição contra a atividade política do trio. Eles não tinham parentesco, mas foram apelidados de “Irmãos Soledad” (“Soledad Brothers”) - o termo irmão (“brother”) é usado por militantes negros americanos para identificar companheiros de luta política.

     

    Em agosto de 1970, o julgamento de Jackson descambou para violência. O irmão de 17 anos do acusado, Jonathan, invadiu o tribunal de Marin County onde o julgamento ocorria e fez o juiz Harold Haley como refém.

    Quatro pessoas foram mortas, incluindo Jonathan e Haley. O fuzil de onde partiu a bala que matou o juiz era registrado em nome de Angela Davis, que a partir de então entrou na lista das dez pessoas mais procuradas dos Estados Unidos.

    No sul do país, casas exibiam o cartaz “Angela Davis - irmã, você é bem-vinda nesta casa”. Após meses como fugitiva, ela foi presa em outubro em Nova York.

    Posteriormente, ela afirmou que fugiu porque, se tivesse sido pega no calor dos eventos, “teria sido morta”.  Um movimento transnacional se organizou em defesa da militante. Os Rolling Stones escrevem a música “Sweet Black Angel (Black Angel)” em homenagem à militante. “Ela está contando os minutos/Ela está contando os dias/Ela é um doce anjo negro/Não um doce escravo negro”, diz a letra.

     

    No dia 5 de janeiro de 1971, Davis foi acusada de assassinato, sequestro e conspiração. Além da arma, a versão segundo a qual estava apaixonada por Jackson foi usada na acusação. Ela ficou presa por 18 meses antes de ser absolvida, em junho de 1972.

    Militância na década de 1970

    Em sua militância, Angela Davis aliou questões femininas às causas negras. Ela fez questão de diferenciar os problemas da mulher negra do feminismo defendido pelas brancas.

    Estas lutavam por questões como emancipação feminina e aborto. Em seu livro de 1980 “Mulheres, Raça e Classe”, Davis ressaltou que aquelas, as mulheres negras, já lidavam com questões assim há tempos. Ocupavam, por exemplo, posições no mercado de trabalho, apesar de isso ocorrer em posições pouco privilegiadas.

    “Proporcionalmente, mais mulheres negras sempre trabalharam fora de casa do que as suas irmãs brancas. O enorme espaço que o trabalho ocupou na vida das mulheres negras segue hoje um modelo estabelecido desde o início da escravatura. Como escravas, o trabalho compulsoriamente ofuscou qualquer outro aspeto da existência feminina. Parece assim, que o ponto de partida de qualquer exploração da vida das mulheres negras sob a escravatura começa com a apreciação do papel de trabalhadoras.”

    Angela Davis

    No livro ‘Mulheres, Raça e Classe’, de 1980

    Posicionamento contra o sistema carcerário

    Após seu período na cadeia, Davis passou a encarar o sistema carcerário americano como um produto das políticas racistas oriundas do tempo da escravidão. Em 2003, ela lançou o livro “As prisões são obsoletas?” (“Are Prisons Obsolete?”), no qual argumenta que as cadeias servem apenas ao propósito de deslocar problemas sociais sem resolvê-los em essência.

    “A prisão funciona ideologicamente como um local abstrato onde os indesejáveis são depositados, nos livrando da responsabilidade de pensar sobre os reais problemas afligindo as comunidades das quais os prisioneiros são retirados em números desproporcionais. Esse é o papel ideológico que que a prisão executa - ela nos alivia da responsabilidade de pensar seriamente sobre os problemas da nossa sociedade, especialmente os produzidos pelo racismo e, cada vez mais, pelo capitalismo global”

    Angela Davis

    Em sua obra “As prisões são obsoletas?”

    Davis continuou militando durante a década de 80. Entre 1980 e 1984, ela se candidatou como vice-presidente na chapa de Gus Hall pelo Partido Comunista americano. Após especulações conservadoras sobre sexualidade, ela admitiu, em 1995, à revista “Out”, que era lésbica.

    Atualmente, Davis ocupa uma cadeira no campus de Santa Cruz, na Universidade da Califórnia, onde ensina Kant, Hegel, Platão, Merleau-Ponty, Theodore Adorno, e um de seus mentores, Herbert Marcuse.

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