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Qual a relação entre fogo em florestas e o aquecimento global

Número de focos de queimadas e incêndios florestais aumentou 64% no período entre janeiro e julho no Brasil comparado com o mesmo intervalo de tempo de 2015

     

    Impulsionadas pela seca, as queimadas e incêndios florestais de 2015 foram as maiores em cinco anos. Em 2016, nem a seca nem o fogo têm dado trégua. 

    O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou cerca de 47 mil focos de queimadas e incêndios florestais no Brasil até o fim de julho, um aumento de 64% frente a 2015, com destaque para Estados do Norte com vegetação amazônica, como Acre e Amazonas.

    São os piores dados para o período desde 2004. O país está no início da temporada de queimadas, que atinge o pico em setembro.

    Na região Norte, a estiagem é tão intensa que o Rio Madeira está com a navegação limitada de Rondônia a Amazonas. Barcos têm encalhado com mais frequência, e o tempo de viagem dobrou.

    Além do impacto local momentâneo, os dados sobre incêndios são preocupantes porque quando as florestas queimam, gás carbônico e metano são liberados na atmosfera.

    Eles contribuem para o aquecimento global e podem mudar o clima da Amazônia, criando o ambiente propício para que outros grandes incêndios ocorram com mais frequência. Trata-se de um ciclo vicioso.

    Focos de incêndio e queimadas no Brasil

     

    Apesar de haver indícios de que o aquecimento global está aumentando o período de seca na região amazônica, cientistas são cautelosos em estabelecer uma relação direta entre a seca atual, os incêndios e o fenômeno climático.

    Eles destacam que a estiagem particularmente forte em 2016 pode ser em parte explicada pelo El Niño, o fenômeno atmosférico-oceânico que aquece as águas do Oceano Pacífico Equatorial. Ele altera os padrões de chuvas e temperatura no mundo inteiro. Mas a seca atual pode ser um prenúncio do que está por vir.

    “É complicado associar diretamente essa seca em particular com o aquecimento global, mas sabemos que as queimadas contribuem para o fenômeno. E com mais mudanças climáticas teremos mais eventos de seca extrema na Amazônia”, afirmou em entrevista ao Nexo Henrique Barbosa, pesquisador do Instituto de Física da USP.

    Barbosa colabora com o desenvolvimento de um modelo brasileiro para o estudo de mudanças climáticas globais.

    Glossário

    • Queimada é o nome dado para o uso do fogo de forma controlada para viabilizar a agricultura ou renovar as pastagens
    • Incêndio florestal é o nome dado para o fogo sem controle, que pode ser provocado por causas naturais ou pelo homem - queimadas podem se transformar em incêndios florestais

    O impacto no aquecimento global

    Atualmente, o Brasil figura entre os maiores emissores de gás carbônico, o principal causador do efeito estufa, do mundo. Mas o país estaria bem atrás no ranking se não fosse pelo desmatamento e por queimadas.

    Para produzir açúcar e a celulose que fazem parte de sua estrutura, árvores capturam carbono. Quando elas são queimadas, liberam esse carbono em gases causadores do efeito estufa.

    Segundo Henrique Barbosa, do Instituto de Física da USP, apenas uma quantidade pequena da madeira desmatada - aquela que tem maior valor - não é queimada.

    75%

    Das emissões de CO2 do país vêm de desmatamento e queimadas, segundo dados publicados em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

    Publicado em 2009, o artigo “Fogo no Sistema da Terra” mostrou que a contribuição das queimadas e incêndios para o aquecimento global é maior do que se pensava até então. Queimadas ligadas ao desmatamento de áreas florestais respondem por 19 % do aquecimento global promovido pela ação do homem desde a era pré-industrial. A revolução industrial ocorreu entre 1760 e 1830.

    “Essa é uma estimativa conservadora baseada nas emissões de CO2 relacionadas a fogos de desflorestamento [ou seja, para a retirada de florestas]”, afirma o estudo.

    O trabalho é assinado por um grupo de pesquisadores de várias partes do globo. Entre eles está Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.

    O impacto do aquecimento global

    No mesmo artigo, os pesquisadores destacam que a capacidade do homem de controlar o fogo pode cair no futuro, à medida que as mudanças climáticas intensificam queimadas e incêndios.

    “O fogo é obviamente uma das principais consequências das mudanças climáticas, mas ele não é apenas isso, ele retroalimenta o aquecimento, que alimenta mais fogos”, afirmou na época da divulgação da pesquisa Thomas Swetnam, da Universidade do Arizona. Ele é coautor do trabalho.

    Segundo Henrique Barbosa, do Instituto de Física da USP, estudos indicam que a Amazônia está entre os biomas que terão uma incidência maior de secas como consequência do aquecimento global.

    “Esperamos redução de chuvas na Amazônia, aumento de duração da estação seca e eventos de seca de maior magnitude. Em estudos recentes, vemos que nas últimas duas décadas ocorreram três secas intensas [Uma em 2005, outra em 2010 e a atual]. O intervalo entre cada evento costumava ser de cerca de dez anos”

    Henrique Barbosa

    do Instituto de Física da USP, em entrevista ao Nexo

    Publicado em 2013 na prestigiosa revista Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America), o artigo “Aumento da estação seca no sul da Amazônia em décadas recentes e projeções para sua implicação para mudanças climáticas”, afirma que o período de seca na Amazônia tem se tornado mais longo desde 1979.

    O trabalho é cauteloso em dizer de forma definitiva que o fenômeno é causado pelo aquecimento global causado pelo homem, mas ressalta que essa hipótese faz sentido. “Nós não sabemos o que causou a mudança, embora ela lembre os efeitos de mudanças climáticas causadas pelo homem”, afirma o estudo, organizado pela geofísica Rong Fu, da Universidade do Texas.

    Caso o ritmo de aumento do período de seca continue na metade do ritmo observado, “a longa estação de seca e fogo que contribuiu para a seca de 2005 se tornará a nova norma até o final do século 21”, afirma o trabalho. Em 2005, a região sul da Amazônia passou pela sua pior seca em um período de 40 anos.

    Como o homem impulsiona o fogo

    Fazer uma queimada é o jeito mais barato de se limpar uma área para aproveitá-la para fins agropecuários. A técnica não é necessariamente ruim, se for feita de forma controlada e em lugares permitidos. O problema é que, no Brasil, grande parte dos focos acontece em áreas protegidas, onde qualquer tipo de queimada é ilegal.

    É por isso que o problema se repete, com variações numéricas de acordo com o clima, ano após ano. Os períodos mais secos são os que têm maior número de queimadas.

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