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Por que os pontos de interesse de Pokémon Go são distribuídos de maneira desigual na cidade

O mapa de Pokémon Go é um reflexo de como a cidade é usada: lugares com menor circulação de pessoas tem menos pontos de interesse. E isso pode gerar um círculo vicioso

    O desempenho do jogador do Pokémon Go depende diretamente da sua disposição em sair de casa e andar pela cidade. O aplicativo funciona conectado ao GPS do celular e caminhar é a única maneira de interagir com a parte virtual do jogo: capturar pokémons, coletar itens nas pokéstops e batalhar nos ginásios para ganhar experiência e avançar.

     

    No entanto, quem baixou o aplicativo desde o lançamento do jogo no Brasil, no início de agosto, certamente já seu deu conta que algumas áreas da cidade oferecem mais oportunidades de jogo do que outras. Há áreas do mapa do jogo que são praticamente desertas. Isso vale tanto para a oferta de pokémons para capturar quanto para o número de pokéstops e ginásios de batalha disponíveis.

    Não coincidentemente, as áreas centrais das grandes cidades concentram mais pontos de interesse dentro do jogo, enquanto as zonas mais distantes desses lugares - periféricas, no sentido literal da palavra - têm menos sorte. Isso não acontece apenas no Brasil, mas também em outros lugares do mundo.

    Existe uma razão para isso. E há também maneiras de corrigir essa desigualdade de ofertas, ao menos no jogo - e gerar pequenas, mas significativas mudanças de ocupação das cidades no mundo real.

    Como são escolhidos os pontos de interesse em Pokémon Go

    Em Pokémon Go, os pontos de interesse são baseados no mapa de um jogo anterior da Niantic, produtora de games. Trata-se do Ingress, uma espécie de precursor do Pokémon Go: nele, jogadores que representam facções de um mundo futurista precisam ir até lugares reais que funcionam como “portais” para capturá-los.

    O Ingress ainda existe e, apesar de não ser um jogo popular, tem uma legião de jogadores e fãs fiéis. O mapa do jogo usava como referência alguns pontos de interesse do Google Maps - mas também aceitava sugestões dos usuários.

    De tempos em tempos, os jogadores do Ingress eram convidados a enviar à produtora do jogo sugestões de lugares do mundo real que seriam adequados para servir como “portais” para complementar e enriquecer as informações do mapa do jogo.

    O mapa do Pokémon Go usa como referência o mapa de outro jogo: Ingress

    Para o Ingress, um portal precisava ser um ponto geográfico de significado cultural ou social naquela comunidade. As sugestões que atendiam a esse critério eram incorporadas no jogo na forma de novos pontos: prédios públicos, monumentos, estátuas, praças, pontos turísticos, ginásios esportivos, igrejas, parques, estabelecimentos comerciais e casas de shows são alguns dos exemplos.

    O mapa definitivo do Ingress foi usado quase literalmente na produção de Pokémon Go. Ou seja: todos os pontos de interesse do jogo recém-lançado pela Niantic são, com pouquíssimas exceções, “portais” no Ingress. E áreas que não eram frequentadas por jogadores do Ingress saíram perdendo nessa adaptação.

    É por isso que o sistema do jogo tem fotos de todas as Pokéstops - muitas vezes, desatualizadas. Esse material foi enviado por usuários do Ingress.

    Mapa do jogo é um reflexo da desigualdade de ocupação das cidades

    O resultado dessa mecânica é que apenas áreas centrais das grandes cidades são contempladas com pontos de interesse de Pokémon Go - que, por enquanto, não aceita que os usuários façam sugestões sobre novos pontos.

    Um mapa que mostra a quantidade de ginásios e pokéstops pela cidade de São Paulo dá uma boa dimensão disso: as maiores concentrações estão no centro da cidade e no centro expandido, onde há mais circulação de pessoas.

    O mapa de Pokémon Go acaba se tornando um bom termômetro sobre as regiões da cidade com oferta de pontos de lazer, cultura, esporte e vivência.

    Dependendo do contexto, esses “desertos” do Pokémon Go ficam em regiões rurais, afastadas do centro das grandes cidades. Em outros casos, refletem bairros e regiões urbanas com baixa circulação de pessoas e pontos de interesse cultural, como zonas residencias.

    Uma terceira consequência é que essas áreas de vazio no jogo também identificam áreas de baixa renda - especialmente no Brasil, que tem um histórico de desigualdade social que se reflete na maneira como os indivíduos ocupam as cidades.

    Como mudar isso (no Pokémon Go)

    Pokémon Go é um jogo gratuito e que funciona em smartphones simples. A popularidade dele também faz com que a demanda venha de todas as classes sociais, idades e regiões da cidade.

    Para equilibrar os pontos de interesse do jogo e incluir oportunidades de avançar mesmo em áreas periféricas, usuários sugerem uma série de ações por parte da produtora do jogo.

    Como melhorar a igualdade do mapa de Pokémon Go

    Aceitar sugestões de usuários.

    Um formulário dentro do aplicativo resolveria o problema: os jogadores tiram fotos de pontos que seguem alguns critérios na cidade e a equipe do jogo avalia, de acordo com a quantidade de sugestões para o mesmo lugar, quais devem virar oficiais no mapa.

    Usar programação para distribuir.

    Um algoritmo seria capaz de comparar regiões da cidade e identificar maior densidade de pontos de interesse em determinados lugares. Daí, usando informações de mapas como o do Google, seria possível começar a implantar esses pontos automaticamente, em estabelecimentos comerciais e públicos em áreas de menor densidade.

    Olhar para a quantidade de jogadores.

    O jogo registra as informações de GPS de todos seus usuários. Analisando esses metadados, seria possível compilar um mapa de regiões onde a proporção entre jogadores e pontos de interesse é desigual - e equilibrá-la.

    O algoritmo como ferramenta política

    O arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl é famoso pelos projetos que priorizam ciclistas, pedestres e a ocupação do espaço público por pessoas. Ele é um defensor da ideia de que é possível melhorar a qualidade de vida na cidade por meio de um planejamento urbano que favoreça o uso e a ocupação das ruas por pessoas.

    A ideia principal de Gehl é que as cidades devem funcionar de maneira que as pessoas passem mais tempo nos espaços públicos - assim, eles se tornam lugares mais seguros, interessantes e inclusivos.

     

    A popularidade de Pokémon Go é alta e, nesse momento, tem impacto real na maneira como as pessoas usam o espaço público. A dinâmica do jogo atrai a ideia de trocar uma viagem de carro ou de ônibus por uma caminhada, ou abandonar a preguiça e sair para comprar algo a pé em vez de pedir pela internet.

    Há exemplos efetivos tomando conta das grandes cidades. Desde o lançamento do jogo, alguns pontos na região da Avenida Paulista e no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, mudaram de cara: no fim de semana, na hora do almoço e depois das seis da tarde, elas concentram um número grande de pessoas caçando pokémons.

    Essas áreas já eram bem ocupadas antes do jogo, mas agora têm outra dimensão. Outros aplicativos de realidade aumentada, agora e no futuro, que encorajem o uso do espaço urbano em áreas em que as pessoas saem menos à rua podem também mudar a cara desses espaços.

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