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Como Temer e Serra aparecem na delação atribuída à Odebrecht

Acordo ainda não foi oficializado com o Ministério Público, mas executivos disseram que políticos se beneficiaram de dinheiro não declarado

     

    A delação de executivos da construtora Norberto Odebrecht ainda não foi oficializada, mas já incomoda o governo federal. Informações vazadas pela imprensa recentemente ligam o presidente interino, Michel Temer, e o ministro das Relações Exteriores, José Serra, ao uso de recursos de origem ilegal doados pela empresa. Uma eventual delação da Odebrecht é considerada aquela que tem o mais amplo  potencial de estrago para os políticos.

    Os rumores sobre a possível delação de executivos da maior empreiteira do país já agitam Brasília há algum tempo. O acordo chegou a ser comparado pelo ex-presidente da República José Sarney a uma “metralhadora ponto cem”, por seu alto poder de destruição. A conversa, divulgada em maio, foi uma das gravadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, também delator da Lava Jato.

    O estágio do acordo

    As revelações envolvendo os nomes de Michel Temer e José Serra foram feitas em entrevistas preliminares dos réus com membros do Ministério Público Federal. Cerca de 30 executivos da empreiteira, incluindo Marcelo Odebrecht, deram depoimentos em Curitiba.

    As entrevistas fazem parte da fase de negociação da delação premiada de executivos da Odebrecht. Nessa etapa, os réus oferecem informações preliminares e a defesa negocia com o Ministério Público a extensão dos benefícios que podem ser concedidos em troca.

    Somente em uma etapa seguinte a  Odebrecht se compromete a apresentar extratos bancários que comprovem as movimentações financeiras.

    Participaram das entrevistas procuradores da força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba, e membros da Procuradoria-Geral da República - que cuida das acusações em casos de quem tem foro privilegiado, como José Serra e de Michel Temer.

    Pelo menos por enquanto, as citações a Michel Temer e José Serra foram divulgadas apenas pela imprensa, e ainda não são confirmadas pelo Ministério Público. As informações registradas  nessa fase prévia a um possível acordo de delação são sigilosas.

    O jantar de Michel Temer

    A citação ao presidente interino Michel foi feita, segundo a revista “Veja”, pelo próprio Marcelo Odebrecht. O dono da maior empreiteira do país disse que acertou a doação de R$ 10 milhões em dinheiro vivo ao PMDB em um jantar no Palácio do Jaburu, com Michel Temer e seu agora ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.

    O jantar teria acontecido em maio de 2014 e os recursos seriam usados nas eleições daquele ano. Segundo o empreiteiro, os R$ 10 milhões saíram do setor da Odebrecht que ficou conhecido como “departamento de propina”.

    A assessoria do Planalto confirmou à revista que Temer se encontrou com Marcelo, mas disse que todas as doações feitas ao PMDB foram legais. Ao Tribunal Superior Eleitoral, o partido declarou ter recebido R$ 11 milhões da Odebrecht em 2014.

    O caixa dois para Serra

    Executivos da Odebrecht disseram também a procuradores que a empresa doou R$ 23 milhões à campanha presidencial de José Serra em 2010. Segundo publicou a “Folha de S. Paulo”, o dinheiro não entrou na contabilidade da campanha. Parte dos recursos teria sido paga no exterior.

    Oficialmente, segundo o que foi declarado ao Tribunal Superior Eleitoral, a Odebrecht doou R$ 2,4 milhões à campanha de José Serra em 2010. O valor representa pouco, cerca de 10%, perto do que a empreiteira diz ter pago via caixa dois. Na documentação da empresa, que usava apelidos para disfarçar operações envolvendo políticos, Serra era chamado de Vizinho e Careca.

    Em nota, José Serra disse que a arrecadação da campanha foi feita de acordo com a legislação em vigor, mas disse que a responsabilidade pelas doações era do PSDB.

    "A minha campanha foi conduzida na forma da lei e, no que diz respeito às finanças, era de responsabilidade do partido".

    Oposição quer afastamento de Temer

    Parlamentares de oposição entregaram à Procuradoria-Geral da República um pedido de afastamento do presidente interino Michel Temer antes da votação do impeachment no Senado. Na véspera de mais uma etapa do processo de impeachment, aliados de Dilma Rousseff querem também a demissão dos ministros citados pela Odebrecht: Eliseu Padilha e José Serra.

    O senador Lindbergh Farias disse acreditar que as citações aos integrantes do governo interino aumentam as chances de Dilma na votação do impeachment marcada para terça-feira (9). “Esses novos fatos dão um discurso para a gente e fazem aumentar a chance de mudar o voto dos senadores”.

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