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Quando vergonha pública e linchamento virtual saem do controle

O cantor Biel anunciou que pausaria a carreira depois das críticas e insultos motivados por uma denúncia de assédio. Às vezes, no entanto, a mobilização das redes sociais atinge indivíduos comuns - e de maneira desproporcional

     

    O cantor pop Biel anunciou, no dia 3 de agosto, que faria uma pausa na carreira. Biel era uma das maiores apostas da gravadora Warner para a música pop brasileira em 2016. Tem música na trilha sonora de uma novela da Rede Globo, agenda lotada de shows e redes sociais com milhões de seguidores.

    O motivo do afastamento: as reações negativas, às dezenas de milhares, que o cantor recebeu nas redes sociais depois de uma denúncia de assédio feita por uma jornalista do site IG, em junho, de fazer piada do caso e culpar a vítima por “prejudicar sua carreira”.

    Não é a primeira vez que a pressão em massa de usuários nas redes sociais tem desdobramentos concretos. Figuras públicas, principalmente, precisam tomar cuidado com o que dizem em seus perfis e o que fazem na vida real. Mesmo quem não é famoso corre o risco de ter um post printado e compartilhado aos milhões.

    O avanço do vigilantismo virtual tem múltiplas dimensões: por um lado, é uma ferramenta poderosa quando usada para coibir e punir publicamente manifestações de machismo, racismo e outros preconceitos por parte de pessoas ou instituições.

    Biel é uma figura pública, que influencia fãs jovens, foi acusado de um crime e tripudiou sobre o assunto. O vigilantismo virtual foi implacável, mas é um caso claro em que o alvo das críticas subestimou o poder da rede e reincidiu no erro.

    O mesmo princípio se aplica ao episódio em que um bar paulistano, o Quitandinha, foi acusado de negligenciar assistência a clientes que teriam sofrido assédio sexual e agressão dentro do bar: o estabelecimento reagiu de maneira considerada insatisfatória pelos usuários que acompanharam o caso - o bar ganhou reputação negativa e milhares de avaliações ruins no Facebook.

    Por outro lado, esse tipo de controle das narrativas na internet também pode ter consequências destrutivas e desproporcionais. Há situações em que as atitudes que despertam o linchamento virtual tem teor criminal menos grave.

    E em algumas histórias, cidadãos comuns tiveram carreira, vida pessoal e saúde mental e emocional afetadas severamente em razão de um comentário infeliz ou reprovável em redes sociais, cuja reação ganhou dimensões descontroladas.

    Por fim, há também quem tenha sido perseguido online sem sequer ter feito nada criminoso ou moralmente reprovável: pessoas que só expressaram sua opinião, foram expostas propositalmente ou se tornaram vítimas de boatos infundados.

    Para que serve a vergonha pública

    A ideia central desse tipo de manifestação coletiva contra alguém na internet é causar vergonha. E infligir vergonha no outro é um mecanismo social empregado ao longo dos tempos pelas sociedades para aumentar a cooperação dos indivíduos com as regras sociais.

    “A vergonha é o que deve ocorrer quando um indivíduo falha em cooperar com o grupo. Ela regula o comportamento social e serve como advertência de punição.”

    Jennifer Jacquet

    Professora de Estudos Ambientais da Universidade de Nova York e autora do livro “Is shame necessary?: new uses for an old tool”

    A vergonha foi usada ao longo da história como ferramenta de controle em punições legais que determinavam açoitamento público, por exemplo, ou quando o regime nazista instituiu o uso de uma braçadeira com a estrela de David para os judeus.

    A professora de Estudos Ambientais da Universidade de Nova York, Jennifer Jacquet, autora do livro “Is shame necessary?: new uses for an old tool” (A vergonha é necessária?: novos usos para uma velha ferramenta), diz em seu livro que a exposição pública de alguém que tem um comportamento reprovável tem uma função social desejável.

    Ela defende que envergonhar publicamente um indivíduo ou uma marca tem o poder de mudar comportamentos sociais tanto dos alvos da vergonha quanto daqueles que entram em contato com o ato - e pode causar mudanças reais naqueles indivíduos.

    Além disso, a mobilização também ajuda a chamar atenção do poder público para um caso, o que pode render alguma ação legal se o ato executado pelo indivíduo for, além de algo moralmente reprovável, um crime.

    O lado perigoso da vergonha pública

    No entanto, Jacquet alerta para o poder que a internet coloca na mão das multidões, para o bem e para o mal. A perseguição virtual de pessoas comuns, para ela, é um problema porque muitas vezes gera consequências desproporcionais para o indivíduo em comparação à infração que ele cometeu. E é alimentado pelo viés de grupo, fenômeno social que gera sentimento de ódio ou medo em relação àqueles que consideramos diferentes.

    O linchamento virtual adquire outro caráter quando lembramos que as informações que publicamos e registramos na rede são difíceis de apagar. Além do impacto imediato na vida da pessoa que foi linchada, ela pode seguir sendo punida por uma mancha enorme em sua reputação pelo resto da vida: basta uma busca no Google.

    “[No início, nos linchamentos virtuais] era como se as hierarquias estivessem sendo desmontadas, como se a justiça se tornasse democrática. Com o tempo, entretanto, essas campanhas [de linchamento virtual] se multiplicaram e passaram a visar não só instituições e figuras públicas mais poderosas, mas qualquer um que desse a impressão de ter feito alguma coisa ofensiva. Comecei também a refletir sobre o desequilíbrio entre a gravidade do crime e a inclemência do castigo.”

    Jon Ronson

    Escritor, autor do livro “So You’ve Been Publicly Shamed”, em artigo para a revista Piauí

    A impessoalidade, a rapidez e a grande quantidade de pessoas nas redes sociais também fazem com que a pessoa que decide fazer um comentário para repudiar, envergonhar ou insultar alguém que fez algo ruim não se sinta exatamente responsável pelas consequências daquele ato.

    É uma lógica parecida com a que gera um linchamento, a violência coletiva real contra alguém. Como cada indivíduo manda apenas uma mensagem, não fica claro como esse gesto faz parte de um corpo maior, que pode ser realmente prejudicial.

    “Imagino que quando a vergonha é entregue como um ataque remoto de drones, ninguém precisa pensar sobre o quão feroz nosso poder coletivo pode ser”, reflete o escritor Jon Ronson, no livro “So You’ve Been Publicly Shamed” (“Então você foi envergonhado publicamente”).

    Em muitos dos casos mais famosos de linchamento virtual, pessoas comuns têm a vida despedaçada. Perdem emprego, precisam sair de casa, recebem ameaças e, muitas vezes, desenvolvem distúrbios psiquiátricos, como depressão e ansiedade. Em caso de crimes reais, como injúria racial, muitas vezes a perseguição virtual e o dano à reputação duram mais tempo do que a própria pena determinada pela justiça.

    Casos emblemáticos de linchamentos virtuais de pessoas comuns

    Justine Sacco

    Trata-se de um dos casos mais marcantes de linchamento virtual nas redes sociais. Em 2013, a norte-americana tinha 170 seguidores quando, logo antes de uma viagem à África do Sul, publicou tweets com piadas racistas. Uma delas dizia: “Vou para a África. Espero não contrair AIDS. Brincadeira. Sou branca”.

    Ela disse que a piada tinha uma conotação sarcástica. “Para mim, o comentário era tão maluco que achei impossível alguém pensar que fosse literal”, falou em uma entrevista. Justine foi demitida do cargo de executiva de uma empresa de comunicação, foi execrada publicamente por veículos jornalísticos e decidiu passar um mês na Etiópia para fazer trabalho voluntário.

    Hoje, Sacco tem outro emprego, mas diz que as consequências do episódio ainda ecoam. “Sou solteira - então simplesmente não posso mais sair com ninguém, porque todo mundo dá um Google na pessoa com quem pensa em sair. Isso eu também perdi.”

    Mayara Petruso

    Em 2010, a estudante paulista Mayara Petruso fez comentários racistas sobre nordestinos no Twitter. A repercussão foi tão grande que ela precisou abandonar a faculdade, sair de casa em razão das ameaças e foi demitida do emprego. Seus dados pessoais e endereço foram expostos na internet.

    Na época, o jornalista Luis Nassif defendeu que a rede abandonasse a perseguição à menina. “Não se pode utilizar um canhão para matar um mosquito”, escreveu.

    Em 2012, Petruso foi condenada pela Justiça de São Paulo a 1 ano e 5 meses de reclusão pelos comentários racistas.

    Alycia Ann Lynch

    Em 2013, a norte-americana de 22 anos publicou no Twitter uma foto de sua fantasia de Halloween. Coberta de sangue e vestida de roupas esportivas, ela legendou: “vítima da maratona de Boston”.

    A brincadeira de mau gosto rendeu dezenas de milhares de mensagens com ameaças e insultos. Ela foi demitida do emprego e precisou se trancar em casa, já que seu endereço e dados pessoais foram compartilhados na rede.

    Quando o linchamento virtual desvia o foco

    Nas redes sociais, alguns debates chamaram atenção para outra consequência do linchamento virtual: quando o caso toma corpo, ele pode tomar como o único inimigo a ser combatido.

    Na fúria de punir alguém por ser racista, machista ou homofóbico, a discussão acaba se voltando apenas contra aquele indivíduo, e não dialoga com o problema estrutural e social que geraram aquele discurso em primeiro lugar - e prevalência do mesmo discurso no cotidiano, mas da boca de outras pessoas.

    A colunista Ruth Manus, do jornal “O Estado de S. Paulo”, chamou atenção para isso em sua publicação mais recente no site, no dia 3 de agosto. “Que bom que todo esse nojo veio à tona. Que lindo ver tanta revolta. Mas que delícia seria se o Biel estivesse sozinho nessa. Se o Biel fosse a exceção. A aberração. Que delícia seria não encontrar meia dúzia de Biel todo dia, no escritório, no bar, no metrô, no elevador, no jantar da família. Que fácil seria se o Biel fosse só um”, escreveu.

    “Nessas redes sociais a gente é muito duro com o erro dos outros e pouquíssimo com o nosso. Se a gente invertesse isso, sabendo que todo mundo erra, seria muito mais simples pra todo mundo. Hoje eu penso duas vezes antes de criticar alguém.”

    Milly Lacombe

    Jornalista, em uma entrevista à revista Trip, sobre um episódio em que foi humilhada publicamente por um erro factual em 2006

    O caso Biel

    A repórter assediada por Biel registrou um boletim de ocorrência depois de, durante uma entrevista, o cantor tê-la chamado de “gostosinha” e dito “se te pego, te quebro no meio”. Um áudio da conversa foi divulgado e o caso escalou: a repercussão foi ruim, o vídeo de desculpas publicado por ele no YouTube demorou demais e não foi bem recebido pelo público.

    O episódio rendeu cancelamento de shows, contratos publicitários e a revogação do convite que Biel tinha recebido para conduzir a tocha olímpica em Fortaleza.

    Mesmo assim, os erros continuaram. Em um show particular, o cantor incorporou a frase que disse à jornalista na letra de uma música improvisada. E, poucos dias depois, em uma entrevista, tentou culpar a repórter por ter “prejudicado sua carreira”.

    Duas semanas depois do caso, a jornalista que fez a denúncia foi demitida do IG sob a justificativa de corte de custos. A avalanche de críticas, comentários depreciativos e cobranças de usuários lotaram todos os perfis nas redes sociais do cantor, e usuários começaram a vasculhar seu perfil do Twitter em busca de mensagens antigas que o constrangessem.

    Foto: Maximilian Haack/Flickr/Alguns direitos reservados
    Twitter, junto com o Facebook, concentram os casos mais populares de linchamento virtual

    Encontraram publicações de 2011, quando o cantor tinha 15 anos, em que ele fazia comentários racistas, machistas e transfóbicos, além de fazer piada sobre celebridades das quais ele se aproximou depois de famoso, como Fátima Bernardes e Faustão. A hashtag “#ErrarÉHumanoRepetirÉBiel” ficou no topo dos assuntos mais discutidos do Twitter na quarta-feira, 3 de agosto.

    No dia seguinte, Biel anunciou por meio de sua assessoria de imprensa que “daria um tempo” na carreira. Para especialistas em redes sociais e gerenciamento de crise entrevistados pelo Nexo, a crise pública da imagem do cantor poderia ter sido evitada: para eles, faltou à equipe e ao artista dimensionar adequadamente a gravidade da denúncia contra Biel e, principalmente, da repercussão, além de agir rapidamente e de maneira que as desculpas fossem percebidas como sinceras e efetivas.

    “No primeiro dia do primeiro escândalo, deviam ter trabalhado para que ele reconhecesse o problema, pedindo desculpas e se colocando à disposição para reverter esse tipo de comportamento em um âmbito mais global”, refletiu Ian Black, diretor executivo da agência New Vegas, especializada em comunicação institucional nas redes sociais.

    Marcel Bely, especialista em conteúdo e interação para redes sociais e sócio da agência Queen Content, concorda. “Se o cantor fosse instruído e educado corretamente [pela equipe] sobre a questão do respeito com as mulheres, ele se sentiria envergonhado com a sua atitude e poderia até ter defendido a jornalista quando ela foi demitida de sua função - ou começar a ajudar ONGs que trabalham com mulheres em situação de vulnerabilidade”, explicou.

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