Ir direto ao conteúdo

Como o movimento Black Lives Matter tenta interferir na política

Com as eleições americanas se aproximando, entidades ligadas ao grupo surgido após série de mortes de negros por policiais estruturaram propostas para o setor público

     

    Em 2014 o assassinato do jovem Michael Brown por um policial na cidade de Ferguson, nos Estados Unidos, gerou uma onda de manifestações contra o racismo e a violência policial no país.

    Os protestos se organizam em torno da hashtag #BlackLivesMatter, ou “as vidas dos negros importam”, em uma tradução livre. Eles fazem parte de um movimento no qual dezenas de grupos estão envolvidos.

    O Black Lives Matter não tem um “dono”, mas cerca de 50 associações que se mobilizaram pelos protestos estão se articulando agora em torno de uma pauta única, divulgada na segunda-feira (1º), em um momento no qual os Estados Unidos se preparam para as eleições presidenciais, marcadas para novembro.

    O precedente do Occupy Wall Street

    O Black Lives Matter tem sido alvo há tempos de questionamentos sobre sua capacidade de transformar a energia das ruas em políticas públicas e mudanças institucionais nos Estados Unidos.

    Críticos evocam um precedente: centrado ao redor da questão da desigualdade, o movimento Occupy teve início em setembro de 2011 no distrito financeiro de Wall Street, em Nova York. Manifestantes armaram barracas e iniciaram atividades políticas que se estenderam por seis meses no local e se espalharam pelo país.

    Mas, segundo críticos, a falta de lideranças e de exigências claras impediram que essa força gerasse mudanças estruturais.

    “Você pode chamar [o Black Lives Matter] de rebelde, ou você pode chamar de irracional. Não há uma análise clara sobre como A e B avançam, ou como a sua política muda X ou Y (...) O Occupy teve um poder de mobilização de algo como seis meses. Três anos depois, há algum traço restante do Occupy? Não que eu saiba”

    David J. Garrow

    Autor de ‘Aguentando a Cruz: Martin Luther King Jr e a Conferência de Liderança Cristã do Sul’, em entrevista concedida em janeiro de 2015 para o jornal americano ‘The New York Times’

    As reivindicações do Black Lives Matter

    As mais de 50 entidades debateram durante um ano para chegar a uma pauta de reivindicações coesa. Ela está sendo divulgada em meio à disputa entre o candidato republicano à presidência Donald Trump e a candidata democrata Hillary Clinton.

    O grupo afirma que não apoiará nenhum dos dois candidatos abertamente e planeja em um primeiro momento usar as pautas em campanhas locais por mudanças no policiamento e pela implementação de políticas comunitárias pelo país.

    “Nós queríamos intervir nesse momento político em que há todo esse trabalho inspirador que está resistindo à violência do Estado e ao poder corporativo”

    M. Adams

    Codiretor-executivo da Freedom Inc, uma organização sem fins lucrativos  ligada ao Black Lives Matter, em entrevista ao jornal americano “The New York Times”

    “Conforme a [campanha pela] eleição de 2016 continua, essa plataforma nos dá meios para intervir com uma agenda que resista ao poder corporativo e do Estado, uma oportunidade para implementar políticas que realmente valorizem a segurança e a humanidade das vidas negras, e, em linhas gerais, significa responsabilizar líderes eleitos”

    Michaela Brown

    Diretora do Baltimore Bloc, um dos grupos que se organizaram pela plataforma em nota

    Seis pontos da pauta do grupo

    Fim da guerra

    O grupo pede o que chama de “fim da guerra ao povo negro”. “Queremos o fim da criminalização, encarceramento e assassinato do nosso povo.” Isso inclui, por exemplo, o fim da pena de morte, a proibição do uso do histórico criminal para determinar o acesso a políticas habitacionais ou empréstimos. Atualmente, 41% das pessoas no corredor da morte dos Estados Unidos são negras.

    Reparações

    Eles também deseja reparações por danos causados “do colonialismo à escravidão através da restrição à comida e à habitação, encarceramento em massa e vigilância”. A escravidão foi abolida nacionalmente em 1865 nos Estados Unidos. O grupo pede, por exemplo, acesso universal e sem restrições a universidades e à educação técnica.

    Investimentos e desinvestimentos

    As entidades ligadas ao Black Lives Matter pedem mais investimento nas comunidades negras e menos em prisões, na polícia, em combustíveis fósseis e em vigilância. Entre as propostas nesse ponto também estão a descriminalização da prostituição e a descriminalização das drogas, além da redução de investimentos militares.

    Justiça econômica

    Para que a Justiça econômica seja atingida, o documento propõe a reestruturação fiscal de forma a distribuir renda e a criação de programas para promoção de emprego para os negros marginalizados.

    Entre as propostas também está o fim da Parceria Transpacífica, um acordo comercial costurado entre o governo de Barack Obama e outras grandes economias mundiais, mas que ainda não foi colocado em prática. Para críticos, ele poderia ter impacto negativo sobre empregos no país.

    Controle Comunitário

    O grupo pede mais democracia na política e nos serviços públicos. Entre as propostas está o controle das políticas de demissão, contratação, e disciplina das escolas por parte de pais, estudantes e outros membros das comunidades locais.

    Poder político

    O documento exige também mais “poder político independente e autodeterminação negra em todas as áreas da sociedade”. Isso inclui o financiamento público das eleições, verba para instituições ligadas ao movimento negro e acesso universal e igualitário à internet.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!