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Por que a Aids ainda é um problema grave no Brasil

Aids continua a matar, tem caído de forma desigual entre as regiões e tem crescido entre as gerações mais jovens, especialmente entre homens que fazem sexo com homens, segundo análise de pesquisador

     

     

    Em um relatório divulgado no dia 11 de julho, a ONU (Organização das Nações Unidas) alertou para o risco de uma ressurgência da epidemia global de Aids - ou seja, uma nova aceleração da propagação da doença. Anualmente, 1,9 milhão de pessoas continuam a ser infectadas pelo vírus do HIV, que causa a doença. 

    No Brasil, o governo diz que a situação está estável. Em comunicado à imprensa após a divulgação do relatório, o Ministério da Saúde afirmou que há “estabilidade em relação ao número de novos casos de HIV no país”. Eles eram 43 mil novos casos em 2010 e, em 2015, 44 mil, segundo projeções da ONU.

    Apesar disso, os dados sobre a infecção pelo vírus e o desenvolvimento da Aids continuam a preocupar, afirmam pesquisadores consultados pelo Nexo.

    A Aids ainda é uma epidemia no Brasil

    Uma epidemia ocorre quando uma doença transmissível se propaga rapidamente dentro de uma grande população. Em entrevista ao Nexo, o infectologista Ricardo Vasconcelos, afirma que há uma epidemia de HIV no país, “uma vez que um grande número de pessoas se infecta todos os anos”.

    Segundo Gabriela Calazans, especialista em saúde coletiva que atua junto ao centro de referência e treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo e pesquisadora do departamento de Medicina Preventiva da faculdade de Medicina da USP, apesar de não ser novidade para os mais jovens, a Aids tem menos de 40 anos e pode ser considerada uma doença recente.

    O fato de que tem "crescimento inesperado na população, faz que com que se considere que é uma epidemia”, diz. O próprio Ministério da Saúde trata tanto o HIV quanto a Aids como epidemias e publica anualmente um boletim epidemiológico sobre o tema.

    40 mil

    É o número de novos casos de Aids detectados anualmente no Brasil, segundo dados do boletim epidemiológico, do Ministério da Saúde

    O infectologista José Valdez Madruga, diretor de pesquisa do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo, alerta para o fato de não haver queda no número de infectados nos últimos anos.

    A evolução dos números em uma década

     

     

    A geração de jovens nascidos na década de 90

    A Associação Brasileira Interdisciplinar Sobre Aids é uma ONG que acompanha políticas públicas e o acesso à informação sobre HIV e sobre a Aids no país. Recentemente ela lançou o relatório “Mito vs Realidade: sobre a resposta brasileira à epidemia de HIV e Aids em 2016”.

    Presente na publicação, o artigo “Da Estabilização à Reemergência: Os Desafios para O Enfrentamento da Epidemia de HIV/Aids no Brasil” sistematiza alguns dos principais pontos que preocupam quem estuda o tema.

    Ele foi escrito por Alexandre Grangeiro, pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP. Grangeiro organizou os dados inicialmente para uma audiência pública na Câmara dos Deputados sobre o assunto, requerida pelo deputado Odorico Monteiro (PT) e realizada em junho de 2015.

    As informações foram coletadas com o próprio Ministério da Saúde e permitem identificar com quantos anos alguém nascido em 1980, por exemplo, teve a Aids detectada.

    Cruzando essas informações com dados populacionais medidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é possível identificar a taxa de infecção de pessoas de 15 e 23 anos para as gerações nascidas nas décadas de 70, 80 ou 90, por exemplo.

    Segundo cálculos realizados por Grangeiro, nenhuma geração de jovens esteve tão exposta à Aids quanto a nascida na década de 90 - a geração dos anos 2000 tem, no máximo, 16 anos, por isso é impossível compará-la com as anteriores.

    É importante entender como a epidemia de Aids se apresenta entre as gerações mais jovens porque seu comportamento sexual tende a ter grande influência em como ela se propagará daqui para a frente.

    Os gráficos abaixo mostram a incidência da doença entre as gerações de jovens nascidos nas décadas de 70, 80 e 90. A taxa relaciona o número de pessoas infectadas para cada 100 mil habitantes da mesma idade.

    Cada uma das idades, de 15 a 23 anos, está indicada por uma linha colorida de uma cor, e as gerações a que elas correspondem estão indicadas pelo eixo horizontal do gráfico. A geração da década de 90 apresenta as maiores incidências para qualquer idade.

    Aids e os jovens, por geração

     

    O problema é maior entre homens que fazem sexo com outros homens, que compõem historicamente um grupo particularmente afetado. O relatório da ONU sobre HIV agrupa pesquisas sobre o uso de camisinha entre homens que fazem sexo com outros homens quando questionados sobre sua última relação sexual.

    O Brasil está entre os países da América Latina em que apenas entre 50% e 75% dos homens desse grupo utilizaram a camisinha em sua última relação.

    Aids e os jovens homossexuais, por geração

     

    “As gerações mais novas estão se infectando em uma proporção maior do que as gerações que se infectaram quando a doença surgiu, ou do que as que se infectaram no momento em que surgiram os instrumentos de tratamento, quando a Aids perdeu aquela característica de ser uma doença contra a qual se podia fazer pouco”

    Alexandre Grangeiro

    Sociólogo especializado em saúde pública, pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, em entrevista ao Nexo

    Mudança de comportamento sexual

    De acordo com Grangeiro, os dados levam a crer que é possível que o país esteja passando por uma mudança geracional de comportamento em relação à preocupação com o HIV.

    “Análises preliminares apontam que novas gerações estão iniciando a prática sexual mais cedo, tendo um maior número de parceiros sexuais e utilizando com menor frequência o preservativo em relações não estáveis”, afirma.

    “Hoje vivemos uma situação em que pessoas com HIV vivem muito bem continuam bonitas, com o corpo em forma, não têm mais o estigma que tiveram. Essa geração não viu a cara feia da Aids, a história do Cazuza agonizando, debilitado pela doença”

    José Valdez Madruga

    Diretor de pesquisa do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo

    Questionado pelo Nexo, o Ministério da Saúde não se manifestou sobre a questão do aumento da taxa de infecção entre os mais jovens.

    Doença continua a matar no Brasil

    Outro dado preocupante é que, apesar da existência de tratamento, a Aids continua a matar no país.

    12.449

    É o número de mortes registradas em decorrência da Aids em 2014 no Brasil

    Incidência é desigual entre regiões

    De acordo com Grangeiro, a variação da incidência de Aids para cada 100 mil habitantes não ocorre de forma uniforme no país. A única região que apresenta tendência clara de queda é a Sudeste, afirma.

    Como concentra 50% dos casos do país, a variação local é uma das grandes responsáveis pela melhora dos indicadores brasileiros como um todo, afirma o trabalho de Grangeiro.

    Outras regiões têm tido, no entanto, piora.

    • No Norte, a incidência era de 21,6 casos para cada 100 mil habitantes em 2010. Em 2014 essa taxa  era de 25,7.
    • No Nordeste, a taxa era de 14,3 em 2010, e de 15,2 para cada 100 mil habitantes em 2014. Os dados são do boletim epidemiológico de 2015.

    Desigualdade entre regiões

     

    José Valdez Madruga, do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo, destaca Amazonas e Rio Grande do Sul entre os Estados onde o aumento da infecção ocorre de forma mais acentuada.

    Questionado pelo Nexo, o Ministério da Saúde não comentou sobre a queda desigual da incidência de Aids entre as regiões.

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