Qual a relação entre uma história de terror criada na Internet e uma tentativa de assassinato

Criada em 2009 em um fórum on-line, a história do ‘Slender Man’ ganhou atenção mundial em 2014, quando foi citada por garotas que tentaram matar uma colega

     

    Em 2014, duas meninas de 12 anos esfaquearam 19 vezes uma garota da mesma idade e a abandonaram em um bosque no município de Waukesha, no Estado americano de Wisconsin.

    Elas acreditavam que, se sacrificassem a colega, o Slender Man, uma figura sobrenatural alta, que geralmente veste terno, sem rosto e com tentáculos, as levaria para viver como servas em sua mansão na floresta. O personagem foi criado em 2009 em um fórum on-line.

    A vítima conseguiu rastejar até uma estrada próxima ao local, onde foi encontrada por um ciclista. Ela sobreviveu, apesar de, segundo médicos, uma das facadas ter chegado perto de atingir uma artéria próxima ao coração.

    Na quarta-feira (27), a Justiça americana confirmou uma decisão de 2015 segundo a qual ambas as garotas deverão ser julgadas como adultas -  a legislação do Estado de Wisconsin prevê que pessoas com pelo menos dez anos de idade devem ser julgadas como adultos para o caso de crimes graves.

    Se fossem julgadas como crianças em uma corte juvenil, suas penas poderiam ser de até 25 anos. Julgadas como adultas, podem ter pena de até 65 anos.

    Ao contrário de outras lendas urbanas, a do Slender Man foi construída colaborativamente on-line, o que significa que é possível rastrear a história desde que começou a circular.

    Publicado em 2012 na revista acadêmica “Information, Communication & Society”, o artigo “Horror Colaborativo: O Slender Man, Marble Hornets e Negociações de gênero” (“Open-Sourcing Horror: The Slender Man, Marble Hornets and Genre Negotiation”), da pesquisadora em comunicação Shira Chess conta a história do personagem desde o começo.

    Como a história do Slender Man surgiu e se desenvolveu

    Fórum on-line

    No dia 8 de junho de 2009, um membro anônimo do fórum on-line Something Awful que se identificava como Gerogerigegege começou um novo tópico no qual postou duas fotos que havia editado e desafiou outros membros a ‘criar imagens paranormais através do Photoshop’

    Fotos

    Durante dois dias, os membros postaram uma série de obras sombrias, adicionando, por exemplo, imagens semitransparentes ao fundo das fotografias.

    Surgimento

    No dia 10 de junho, Eric Knudsen, que se identificava na rede como Victor Surge, postou o texto ‘nós não queríamos ir, não queríamos matá-los, mas seu silêncio persistente e braços alongados nos aterrorizavam e reconfortavam ao mesmo tempo…’ junto a duas fotos editadas e um artigo falso de jornal que falava sobre um homem esguio (‘slender’, em inglês) e sem rosto que perseguia crianças.

    ‘Quase que instantaneamente um interesse obsessivo com o Slender Man tomou conta das discussões do fórum’, afirma Shira Chess.

     
    Foto: Reprodução
    Uma das primeiras representações de Slender Man de Victor Surge
    Uma das primeiras representações de Slender Man de Victor Surge
     

    Trabalho colaborativo

    De acordo com a pesquisadora, adições constantes foram incluídas à lenda, como novas fotografias, desenhos e pequenos textos de ficção.

    Outros sites

    A história extrapolou a discussão do Something Awful e chegou, por exemplo, à página sobre paranormalidade do fórum 4Chan e ao site colaborativo de histórias de terror Creepy Pasta, que foi onde as garotas entraram em contato com o personagem.

    O Slender Man também deu origem a uma série de vídeos na internet chamada ‘Marble Hornets’. No Brasil, o blog Fear of Slender foi mantido entre 2012 e 2014.

    “Conforme essa criatura nefasta era desenvolvida através de discussões no fórum, o personagem foi rapidamente negociado, explicado e aperfeiçoado através de convenções de gênero e personagem”

    Shira Chess

    Pesquisadora em comunicaç��o, no artigo de 2011 'Horror Colaborativo: O Slender Man, Marble Hornets e Negociações de gênero'

    As versões do Slender Man variam. Em algumas, ele tem tentáculos e não braços, por exemplo. Há histórias nas quais mata pessoalmente suas vítimas. Em outras leva, de alguma forma, as pessoas a matarem umas às outras.

    Influência sobre o crime

    O crime cometido pelas duas garotas levantou discussões sobre o impacto negativo de histórias de terror sobre jovens. Isso fez com que o site Creepy Pasta emitisse um comunicado em que afirma “se seu filho tem problemas com temas muito violentos, destrutivos ou depressivos, é realmente muito importante se certificar que ele não está interagindo com coisas que poderão exacerbar isso”.

    Em um artigo de 2014, Shira Chess critica a ideia de que se uma criança “se envolver com material criativo on-line, poderá de alguma forma ser sugada para um mundo no qual não pode diferenciar a ficção da realidade - e onde está fadada a cometer atos violentos”.

    Para Shira, isso é o mesmo do que dizer que “qualquer adolescente incompreendido e qualquer ato de violência é responsabilidade de um personagem de internet”.

    Outros crimes envolvem a história de terror

    Garota em Ohio

    Em junho de 2014, a mãe de uma garota de 13 anos afirmou que sua filha, que tem problemas de saúde mental, a atacou com uma faca de cozinha inspirada por sua obsessão pelo Slender Man.

    Casal em Las Vegas

    Também em junho de 2014, Jerad Miller e Amanda Miller mataram dois policiais a tiros enquanto almoçavam em um restaurante em Las Vegas. Após uma troca de tiros com outros policiais que foram ao local, se suicidaram.

    Uma vizinha afirmou que Jerad costumava se vestir de Slender Man e como o personagem Coringa, inimigo do Batman, e que Amanda, sua esposa, se vestia como a personagem Arlequina, também inimiga do herói.

    Incêndio criminoso

    Em setembro de 2014, uma garota de 14 anos tentou matar sua mãe e seu irmão ateando fogo na casa em que viviam na cidade de Port Richey, Florida. A garota foi encontrada em um parque lendo o mangá Soul Eater, e disse à polícia que vinha lendo textos sobre o Slender Man.

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