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Qual o debate sobre a origem dos humanos que chegaram à América

Análises genéticas mostram que ameríndios têm traços genéticos de populações nativas da Australásia, e não só da Ásia, como se acreditava

Durante décadas, a ciência coletou evidências que indicavam que os povos nativos americanos - indígenas de países na América do Sul, na América Central e na América do Norte - tinham uma origem comum: etnias asiáticas, vindas da região da Sibéria.

Há cerca de duas décadas, porém, um novo modelo surgiu. Crânios encontrados em Minas Gerais mostraram que os nativos americanos tinham semelhanças morfológicas com povos australianos.

Até então, essa teoria era embasada somente por evidências morfológicas e pouco aceita pela comunidade internacional. Análises genéticas mais recentes, no entanto, mostram que o homem pode ter chegado à América antes do que se imaginava.

Da Ásia para a América

A teoria mais aceita sobre a origem dos primeiros humanos a chegar ao continente americano diz que coletores-caçadores asiáticos chegaram à América atravessando o estreito de Bering, como é conhecida a região marítima entre os oceanos Pacífico e Atlântico que une a Sibéria aos Estados Unidos.

Onde fica

 

De acordo com evidências arqueológicas, isso teria acontecido há cerca de 10 mil anos. Povos de origem asiática teriam atravessado o estreito - que, naquela época, não era separado pelo mar - e, aos poucos, ocupado a América toda, até o sul.

A teoria é baseada em evidências arqueológicas, morfológicas, genéticas e até linguísticas. Os povos nativos americanos, portanto, foram identificados como descendentes diretos de Homo sapiens de etnias orientais-asiáticas.

Até pouco mais de 20 anos atrás, não existia dúvida sobre a solidez dessa teoria. No entanto, a descoberta de cerca de 80 fósseis de crânios em uma gruta na região metropolitana de Belo Horizonte, em 1970, abriu caminho para que um arqueólogo e antropólogo brasileiro apresentasse um modelo diferente de colonização das Américas.

Esses hominídeos, que tem semelhanças genéticas com povos da Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné e algumas ilhas da Indonésia, eram caçadores coletores que se alimentam de folhas, frutas, vegetais e, apenas ocasionalmente, de carne. Eles foram contemporâneos de animais da megafauna, como é chamado o conjunto de animais pré-históricos de grandes proporções, como tigres-de-dente-de-sabre, mamutes e, tatus-gigante e preguiças-gigante.

De onde viemos

No fim dos anos 1980, o arqueólogo e antropólogo Walter Neves analisou a morfologia, isto é, o formato e as características físicas dos crânios encontrados nos anos 1970. Na ocasião, ele identificou que esses crânios eram mais parecidos com os de etnias africanas e australianas do que com o dos asiáticos.

Neves batizou um dos crânios de Luzia, em homenagem a Lucy, um fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos encontrado na África em 1974, o fóssil de hominídeo mais antigo já descoberto.

A descoberta não mudava o fato de que os indígenas americanos atuais tinham traços genéticos e morfológicos de povos asiáticos, e não de australianos. Mas Luzia era uma evidência de que a história talvez não estivesse sendo contada exatamente como aconteceu.

Por isso, a partir de 1989, Neves consolidou e propôs um modelo que teoriza que, antes dos imigrantes asiáticos que vieram à América há 10 mil anos, o nosso continente teria recebido outro fluxo migratório. Os primeiros Homo sapiens que chegaram à América também teriam vindo pelo estreito de Bering, mas faziam parte de outros grupos étnicos, da Oceania e da África.

Os traços desses humanos não seriam mais encontrados nos povos ameríndios atuais porque eles teriam desaparecido - ou por eliminação pelos indivíduos que chegaram depois, há 10 mil anos, ou por assimilação por meio de cruzamentos.

Foto: Luciana Monte/Flickr/Alguns direitos reservados
Megatherium, a preguiça gigante: animal foi extinto há cerca de 10 mil anos
 

A teoria de Neves batia de frente com o modelo mais aceito sobre os pioneiros no continente e mudava radicalmente a história da presença humana na América. Embora contestada por muitas correntes de arqueólogos e antropólogos, especialmente no exterior, ela ganhou força quando, em 2004, um pesquisador argentino identificou uma população ameríndia que viveu até o século 16 na região da Califórnia, nos EUA, e que tinha características morfolóides não-asiáticas.

No entanto, a parte principal da teoria de Neves foi comprovada por análises genéticas conduzidas em 2014. Em um estudo publicado pela revista “Nature” em 2015, uma equipe da Universidade de Harvard identificou, por meio de mapas de genes, indígenas da região da Amazônia com traços genéticos ancestrais mais próximos aos de populações indígenas Australianas, da Nova Guiné e das Ilhas Andamão, no Oceano Índico, do que aos de povos asiáticos ou nativos americanos vivos hoje.

As conclusões do estudo sugerem que a colonização americana tenha acontecido por duas etnias diferentes, ainda que não necessariamente em momentos diferentes.

Quem chegou antes?

Até 2014, Luzia era o esqueleto de Homo sapiens mais antigo encontrado na América. Isso mudou com uma descoberta feita no México, que encontrou em uma caverna submarina o fóssil de um esqueleto de uma adolescente que morreu entre 13 mil e 14 mil anos atrás.

A análise de DNA mostrou que Naia, como foi batizado o esqueleto, tinha semelhanças com linhagens genéticas asiáticas.

A descoberta bagunça um pouco a cronologia da migração humana para a América, mas não anula os achados das outras pesquisas. Agora, pesquisadores do mundo todo se debruçam sobre as evidências novas e antigas para tentar costurar uma história que dê conta de todas elas.

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