Por que homens têm resistência em procurar ajuda para problemas emocionais

Segundo psicólogos, há um conflito interno entre o ideal de masculinidade e o reconhecimento de fraquezas

     

    “Quando tínhamos 18 anos, meus amigos homens eram incapazes de expressar seus sentimentos”, disse Emma Watson em seu discurso sobre feminismo nas Nações Unidas, em 2014. A frase passou despercebida em meio as importantes declarações feitas pela atriz em torno das questões de gênero e dos direitos das mulheres naquela dia. Porém a lembrança tem um contexto fundamental.

    Mortes por suicídio são cerca de três vezes maiores entre homens do que entre mulheres. Uma explicação para isso é a de que há uma grande resistência masculina em buscar auxílio psicológico quando necessário.

    “Isso é um fato. Em se tratando dos problemas físicos e emocionais, a procura masculina por tratamento é menor. Ela é vista como fraqueza e não como possibilidade. É como se você tivesse se entregando, desistindo”, disse ao Nexo Aurélio Melo, psicólogo do Mackenzie.

    O psicólogo Ronald F. Levand, da Nova Southeastern University, nos EUA, cunhou o termo “alexitimia masculina normativa” para se referir à dificuldade de homens para expressar seus sentimentos. Basicamente: “sem palavras para as emoções”.

    Há, de fato, uma influência do imaginário construído em torno do gênero sobre o comportamento de homens em relação à saúde, e não apenas psicológica, mas também física. “Papéis masculinos tendem a estar associados a maiores níveis de força, independência e comportamentos de risco”, diz uma cartilha da Associação Brasileira de Psicologia sobre o tema. E, embora isso esteja melhorando com o tempo, os efeitos ainda são expressivos.

    “Eu vejo homens sofrendo de problemas psicológicos, incapazes de buscarem ajuda, por medo de que isso faça deles menos homens. Vejo homens com concepções frágeis, inseguras e distorcidas do que constitui sucesso masculino”

    Emma Watson

    Atriz, em discurso na ONU

    O problema das estatísticas

    Dados dos EUA dizem que mulheres sofrem mais depressão do que homens. Uma a cada quatro ou cinco apresentam os sintomas da doença, enquanto entre eles, o número é de um para um grupo de oito a dez homens. 

    O problema, porém, é que a estatística pode estar errada, apontam especialistas. “Provavelmente, homens sofrem de depressão tanto quanto mulheres, mas ela não é diagnosticada”, diz Julie Totten, presidente da organização americana Famílias pela Conscientização sobre Depressão, ao site “Care Giver’. 

    “Homens com depressão refletem isso com agressividade ou abusando de drogas e álcool. Mulheres com depressão, por outro lado, se culpam, mas depois pedem ajuda a médicos.” Depressão, no geral, é vista como uma doença “de mulheres”.

    As consequências para quem está próximo

    Em “I Don’t Want to Talk About It: Overcoming the Secret Legacy of Male Depression” (não quero falar sobre isso: superando o legado secreto da depressão masculina, em tradução livre): a psicoterapeuta Terrence Real reflete sobre a posição de mulheres que vivem com homens que sofrem de depressão. “Elas não podem confrontá-los sobre sua doença - pois isso é visto como algo vergonhoso - nem minimizá-los”, escreve.

    Psicólogos recomendam algumas atitudes para quem vive próximo a alguém com depressão, porém recusa tratamento. Buscar ajuda, acompanhar o filho/companheiro/amigo ao médico, ouvi-lo sobre o problema e tentar demonstrar como isso afeta outros ao seu redor estão entre as instruções.

    Atualmente, vídeos na internet também têm sido uma saída para muitos homens que resistem em verbalizar o que sentem. “Real Men, Real Depression”, (homem real, depressão real) do National Institute of Mental Health (NIMH, organização dos Estados Unidos), por exemplo, retrata homens considerados “durões”, como bombeiros e policiais, falando sobre a doença e as possibilidades de tratamento.

    Os papéis de gênero

    Os comentários feitos por Emma Watson sobre os estereótipos masculinos em meio a um discurso sobre feminismo não eram mera digressão. As duas coisas, lembra ela, estão extremamente ligadas. Estereótipos de gênero são reproduzidos tanto por homens quanto por mulheres, por meio de comentários e reações como “recomponha-se” ou “seja homem”.

    “Quando homens se livrarem da prisão de seus estereótipos, mulheres também vão, como consequência”, disse. Se homens não se virem na obrigação de assumir uma personalidade agressiva e rude para serem aceitos, mulheres não se sentirão compelidas a serem submissas. “Se homens não acharem que precisam controlar, mulheres não sentirão que devem ser controladas”, diz a atriz.

    A campanha lançada pelas Nações Unidas no dia do discurso, “He for She” (ele por ela), tinha justamente como objetivo conscientizar homens para essa questão: a de que todos têm responsabilidades para desconstruir os papéis de gênero.

    “A psicologia tenta explicar essa relação da cultura de gênero com o discurso da saúde, conscientizar que os homens precisam tanto quanto as mulheres de serviço de saúde, de cuidados. Eles não são diferentes em relação a isso, embora se achem diferentes.”

    Aurélio Melo

    Psicólogo da Mackenzie

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