Foto: Reprodução

Ativistas descendentes de asiáticos propõem boicote à nova novela das 18h, "Sol Nascente”
 

“Sol Nascente”, próxima novela das seis que estreia no dia 29 de agosto na TV Globo, conta a história de amor entre dois amigos, filhos de imigrantes. Ele, De Angeli, de família italiana, será interpretado por Bruno Gagliasso. Ela, Tanaka, de família japonesa, será interpretada por Giovanna Antonelli.

A escolha de Antonelli para o papel pode causar certa estranheza, mas não é inexplicável. Apesar de seus traços remeterem pouco às características nipônicas, os imigrantes japoneses, tal qual os de outras nacionalidades, misturaram-se em meio à população brasileira, em maior ou menor escala, desde que chegaram ao Brasil, há mais de 100 anos. E a Globo encontrou uma saída para qualquer questionamento mais agudo: na trama, Antonelli é uma filha adotiva.

Foto: João Miguel Junior/TV Globo

Luís Melo como o japonês Tanaka e Giovanna Antonelli, como sua filha adotiva
 

A questão é que outros integrantes centrais do elenco tampouco têm características nipônicas: o patriarca da família da personagem de Antonelli, nascido e criado no Japão, por exemplo, será interpretado por Luís Melo.  

A falta de representatividade na novela vem sendo criticada em blogs e páginas do Facebook, num contexto em que descentes de imigrantes em São Paulo têm se organizado para debater o preconceito que suas famílias sofreram e sofrem no país. São jovens, na maior parte universitários e envolvidos em movimentos estudantis, filhos e netos de japoneses, taiwaneses e coreanos.

“Começamos a problematizar um pouco como as nossas comunidades e as nossas famílias reproduzem vários tipos de discursos e preconceitos raciais antinegritude, ao mesmo tempo, também estamos submetidos a um sistema de preconceito”, disse ao Nexo Fabio Ando Filho, um dos colaboradores do blog “Outra Coluna” e da página do Facebook Perigo Amarelo

Além dos dois projetos, entre as iniciativas que surgiram nos últimos tempos nesse sentido estão a página Asiáticos pela Diversidade, que abarca questões de gênero e sexualidade, e o canal do YouTube Yo Ban Boo.  

 

“Essas pequenas iniciativas foram meio que formando uma rede de gente que está pautando outras questões políticas a partir da perspectiva dos asiáticos”, diz Ando Filho.

Segundo ele, o movimento é em boa parte inspirado em mobilizações dos Estados Unidos, onde blogs sobre o tema, como o “Angry Asian Man” e o “Reappropriate” existem há décadas. Enquanto isso, tem se aproximado do meio acadêmico.

“Estamos dialogando com pessoas que estão há algum tempo pesquisando imigração japonesa e as relações com o Estado, com a violência dentro do Estado”, diz ele, que cita como exemplo Mario Okuhara, cujo projeto Abrangências revelou graves violações contra os imigrantes japoneses no período da Segunda Guerra Mundial, durante o governo de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra. Entre elas, o episódio no qual 6.500 imigrantes japoneses foram expulsos da cidade de Santos em 1943. 

 

#Boicoteamarelo

Com um elenco de cerca de 30 atores, há em “Sol Nascente” apenas quatro asiáticos (Dani Suzuki, Carol Nakamura, Geovanna Tominaga e Miwa Yanagizawa). “A Globo teve dificuldade para encontrar um bom ator japonês nessa faixa etária. E Melo, filho de índia com italiano, veio bem a calhar”, escreveu a colunista de TV do “Estado de S. Paulo”, Cristina Padiglione. 

Ando Filho compara a questão da novela das seis, na qual atores brancos ocidentais interpretam asiáticos, ao uso de “blackface” - prática teatral em que atores brancos pintam o rosto para representar personagens negros.

O mesmo aconteceu em 2014 com “Geração Brasil”, quando o ator Rodrigo Pandolfo usou fitas adesivas nos olhos e alisou os cabelos para interpretar o exagerado repórter coreano Shin Soo. “Você acaba reproduzindo estereótipos, vestindo um corpo de uma forma inapropriada, caricaturizada”, diz.

A construção da imagem do asiático no Brasil é feita desde o início do século 20, quando o governo passou a incentivar a vinda de imigrantes para compor a mão de obra nacional, após o término da escravidão.

Nesse imaginário, explicam historiadores, houve uma “castração” do homem asiático, ao mesmo tempo em que a mulher foi hipersexualizada.

Para o americano Jeffrey Lesser, em “A negociação da identidade nacional: Imigrantes, minorias e lutas pela etnicidade no Brasil”, a dualidade das imagens construídas sobre os gêneros dos imigrantes asiáticos representava a contradição da elite brasileira, que se via como moderna e avançada, mas cujas opiniões eram conservadoras e tradicionais.

“A raça amarela foi meio que hostilizada a partir dessas nuances como forma de pensar a modernidade brasileira. E esses discursos que estão sendo reproduzidos desde então agora vão estar materializados na novela, visíveis para todo mundo ver.” 

Fabio Ando Filho

Colaborador do blog “Outra Coluna” e da página do Facebook Perigo Amarelo.

Existe, ainda, um coletivo de atores ascendência asiática voltados para a questão da representatividade. Batizado de Oriente-se, o grupo busca a mudança de paradigmas nas produções, tanto audiovisuais quanto cênicas. “Há pouca representatividade de nossa etnia nas produções culturais cênicas, considerando-se que a comunidade oriental no Brasil contribui em grande escala para o desenvolvimento do país”, dizem.

 

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dava a entender que o Oriente-se apoia o boicote à novela “Sol Nascente”. O grupo, na verdade, afirma que não apoia o boicote e destaca ser “contra qualquer movimento que vá contra a livre expressão”. A informação foi corrigida às 13h04 de 28 de julho de 2016.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.