Ir direto ao conteúdo

Livro reúne frases de Brizola. O que ele dizia de PMDB, Lula, Cunha e dos evangélicos na política

Para pedetista, Cunha era a 'pior parte' do governo de Anthony Garotinho, no Rio, e PMDB se transformaria em 'partido conservador que finge que é liberal'

    No ano em que completaria 94 anos, Leonel Brizola ganhou, na quarta-feira (20), um livro que reúne algumas de suas frases polêmicas sobre política e economia.

    Morto em 2004, Brizola era hábil no manejo da língua para criticar oponentes e defender seu legado. Alinhado à esquerda, herdeiro do trabalhismo do ex-presidente Getúlio Vargas e exilado durante a ditadura militar, foi governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. Em 1979, fundou o PDT.

    Uma das militantes do PDT gaúcho, Estado de Brizola, era Dilma Rousseff, hoje presidente afastada da República. Ela trocou a legenda pelo PT apenas no ano 2000.

    Juliana Brizola, neta do ex-governador e hoje deputada estadual do Rio Grande do Sul, elaborou, ao lado da jornalista Rejane Guerra, uma compilação de frases, fotos e documentos do pedetista, reunidos em livro editado pela Letra Capital.

    A obra tem um tom de homenagem elogiosa ao pedetista e não explora as contradições do político, como ter apoiado o ex-presidente Fernando Collor quando ele era alvo de um processo de impeachment, em 1992.

    Contudo, serve de registro sobre como Brizola pensava em temas que permanecem atuais, como o PMDB e o PT, a ascensão da bancada evangélica, o combate à corrupção e o deputado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Aqui estão algumas delas:

    PMDB

    “Para mim o PMDB vai se transformar cada vez mais numa espécie de PSD daquela época. Um partido conservador que finge que é liberal”

    A frase não tem data nem contexto especificados, mas ele se referia ao PSD, não o de hoje, de Gilberto Kassab, e sim uma das legendas que apoiavam Getúlio Vargas, ao lado do antigo PTB, de Brizola. Enquanto o PSD era mais ligado à elite, o PTB se vinculava aos trabalhadores. Essas siglas deram origem a outros partidos após a redemocratização: o antigo PTB virou o PDT, o PSD hoje é o partido presidido por Gilberto Kassab, e o PTB é liderado por Roberto Jefferson, condenado no mensalão.

    Eduardo Cunha

    “Veja este problema, com tantas denúncias e reclamações, talvez [ele] seja a pior parte do governo”

    A frase é uma referência a Eduardo Cunha, então presidente da Companhia Estadual de Habitação do Rio, no governo de Anthony Garotinho. Ela consta de um abaixo-assinado pedindo o afastamento de Cunha por acusações de má-gestão, em 2000.

    Lula e o PT

    “O Lula que veio para reformar está sendo reformado”

    A frase é uma referência à contratação do marqueteiro Duda Mendonça para a campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2002, vencida pelo petista. Na eleição anterior, em 1998, Brizola havia sido candidato a vice-presidente na chapa de Lula, derrotada por Fernando Henrique Cardoso.

    “Os petistas consideravam que a história do trabalhismo começou com eles, como se antes das greves do ABC paulista não tivesse acontecido nada”

    A frase não tem data nem contexto especificados, mas o trabalhismo ao qual ele se refere é uma corrente política desenvolvida, no Brasil, por Getúlio Vargas: opera por meio de um líder carismático que constrói uma relação de proximidade com os trabalhadores concedendo direitos e realizando reformas. Servia também para afastar os operários das doutrinas socialista e anarquista.

    Combate à corrupção

    “Ser radical em política é querer chegar à raiz dos problemas. E há muitas questões em que não se pode deixar de ser radical. Por exemplo, ser radical contra corrupção”

    A frase foi dita em entrevista ao historiador Moniz Bandeira, em 1978.

    Disputa por recursos públicos

    “Os pobres não têm lobby. Ninguém pede por eles, e pouca gente procura melhorar a vida daqueles que vivem à margem da sociedade”

    A frase é um comentário sobre a atuação da equipe econômica do ex-presidente Lula, em 2004, segundo ano do mandato do petista.

    Ascendência dos evangélicos na política

    “O governo está vivendo um protestantismo exagerado”

    A frase foi dita ao pedir para o então governador do Rio, Anthony Garotinho, para que acabasse com a influência dos evangélicos. A data não é informada no livro.

    “Esses pastores querem é estação de rádio e dinheiro. São adoradores dos bezerros de ouro”

    A frase é uma das críticas do político aos líderes evangélicos, em 2000.

    Política de alianças

    “Para empurrar o caminhão toda ajuda é bem-vinda”

    A frase tenta explicar o apoio que Ciro Gomes, então no PPS e respaldado pelo PDT, vinha recebendo do PFL e do PPB em sua candidatura a presidente da República em 2002. A aliança foi criticada à época porque o PFL (hoje DEM) era sucessor da Arena, que sustentou o regime militar, e o PPB (hoje PP) era uma legenda com políticos que também apoiaram a ditadura, como Paulo Maluf.

    Desunião da esquerda

    “Divididos, seremos sempre degraus para a direita subir”

    A frase não tem data nem contexto especificados.

     

    ESTAVA ERRADO: Moniz Bandeira é um historiador, e não uma jornalista, como afirmava a versão inicial deste texto. A informação foi corrigida às 10h de 21 de julho de 2016.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!