Como cientistas tentam criar órgãos humanos a partir de porcos

Experiências ainda estão no começo, mas já despertam novas questões éticas no desenvolvimento da ciência

 

Cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente compõem a quimera, um monstro da mitologia grega. O termo também é usado para definir algo que é fruto da imaginação, absurdo ou fantasia.

No início de junho, pesquisadores da Universidade da Califórnia criaram um embrião parte humano e parte porco, o que a ciência chama de quimera genética.

Eles desenvolveram um embrião por 28 dias antes de encerrar essa rodada do estudo e analisar o material obtido. Para que o porco nascesse, ele deveria se desenvolver por 114 dias.

O objetivo do estudo, cujos dados preliminares foram revelados em reportagem especial da BBC, é criar um porco com pâncreas formado majoritariamente por células humanas.

Os órgãos restantes corresponderiam aos de um porco normal. Caso pesquisas do tipo tenham sucesso, no futuro esses animais poderiam servir como fonte de órgãos para seres humanos que precisam de doações.

Ao alterar o conteúdo genético do porco, no entanto, é possível que cientistas não mudem apenas órgãos isolados. Especula-se que até mesmo seus cérebros poderiam sofrer alterações, um fato que traz à tona novos dilemas éticos.

“Eles são como mulas que servirão de fontes de órgãos que poderão ser transplantados em humanos. Uma mula é fruto de um burro macho com uma égua. Cavalos e burros são de espécies diferentes com números diferentes de cromossomos, mas eles são capazes de procriar juntos”

Julian Savulescu

Professor de ética prática da Universidade de Oxford, em artigo publicado no site Aeon em parceria com o Centro para Ética Prática de Oxford Uehiro

Porcos são usados em pesquisas para desenvolvimento de órgãos humanos porque têm ciclos de desenvolvimento rápido. Após um ano, um porco pode ser doador.

Gorilas, que também têm órgãos com um tamanho próximo ao do ser humano, por exemplo, só atingem maturidade aos sete anos. Além disso, órgãos como fígado, coração e rim do porco são similares aos humanos.

Como funciona quimera genética

Outros estudos

Essa não é a primeira vez que cientistas buscam criar quimeras. Técnicas diferentes foram usadas para produzir, por exemplo, um camundongo com o pâncreas de um rato e camundongos com fígados constituídos quase que exclusivamente de células humanas. Cientistas também desenvolveram orelhas com formato humano nos corpos de ratos, mas, no caso, a cartilagem não é formada por células humanas.

Crispr

Nesse caso específico, os cientistas estão utilizando uma técnica de manipulação genética chamada Crispr, que permite editar parcelas específicas do material genético.

Eles removeram a parcela do DNA responsável para o desenvolvimento do pâncreas do porco. Isso cria um ‘vazio genético’ no trecho em que essa parte do DNA costumava ficar.

Células-tronco

Os cientistas introduziram células-tronco pluripotentes induzidas (iPS, na sigla em inglês) no embrião. ‘Pluripotente’ é o nome dado ao tipo de célula-tronco capaz de se desenvolver em qualquer tecido do corpo humano.

As células-tronco pluripotentes induzidas são criadas em laboratório a partir de células adultas normais - no caso, células da pele -, e também possuem essa capacidade.

Como o sistema imunológico do porco ainda não está desenvolvido, as células não são rejeitadas quando injetadas no embrião. Elas ocupam o ‘vazio genético’ gerado através da Crispr.

Pâncreas

O embrião é inserido no útero de uma porca. O material genético do próprio embrião do porco define a maior parte de seu desenvolvimento. Mas, como o trecho referente ao pâncreas foi retirado, é a célula-tronco humana a maior definidora da forma como o pâncreas se desenvolve.

Ou seja, um pâncreas derivado principalmente de células humanas poderia se desenvolver dentro do porco.

“Nossa esperança é que o embrião do porco se desenvolva normalmente, mas o pâncreas seja feito quase que exclusivamente de células humanas e possa ser compatível com o transplante em pacientes”

Pablo Ross

Biólogo reprodutivo e líder da pesquisa da Universidade da Califórnia que desenvolveu um embrião de porco com adição de célula humana, em entrevista concedida em junho ao jornal britânico ‘The Guardian’

Células não humanas

Vasos sanguíneos do órgão deverão ser formados por células de porco. Também é possível que a superfície das células humanas se altere durante seu desenvolvimento. Isso poderia fazer com que, após um transplante, o órgão fosse rejeitado pelo corpo humano.

Questões éticas

Como esse tipo de pesquisa é relativamente novo, questões éticas são objeto de debates, à medida que não se sabe exatamente como serão os animais resultantes das modificações. Em 2009, legisladores chegaram a tentar proibir nos Estados Unidos pesquisas com quimeras genéticas.

Em setembro de 2015, a National Institutes of Health, uma entidade governamental americana de fomento a pesquisa médica, afirmou que não apoiaria pesquisas com quimeras até que se soubesse mais sobre suas implicações.

Um dos temores é de que as células humanas inseridas no embrião possam afetar também o cérebro desses animais. Essa possibilidade não está, no entanto, confirmada.

A hipótese do pesquisador de células-tronco Hiromitsu Nakauchi é de que as células humanas influenciam exclusivamente os trechos editados através de técnicas como a Crispr.

Em entrevista à BBC, o pesquisador Pablo Ross, que lidera o estudo, procurou afastar esse tipo de preocupação, e afirmou que o potencial para que o cérebro do porco seja afetado é baixo.

Em artigo publicado no site Aeon em parceria com o Centro de Ética Prática da Universidade de Oxford Uehiro, ligado à Fundação Japonesa Uehiro, o professor Julian Savulescu afirmou que, mesmo que a possibilidade de desenvolvimento de um cérebro com traços humanos em porcos seja baixo, é possível que essa não seja a realidade em outras pesquisas do tipo.

Por exemplo: pesquisadores americanos estão trabalhando no desenvolvimento de quimeras para criar neurônios humanos para tratar a doença de Parkinson.

As modificações, nesse caso, influenciariam diretamente o cérebro do animal, o que levanta a hipótese de que os animais desenvolvam características cognitivas diferentes daquelas de um porco comum.

Precaução

Principalmente no princípio da criação de porcos para a retirada de órgãos, seria um desafio determinar se essas habilidades cognitivas superiores de fato existiriam.

Segundo Savulescu, na falta de uma conclusão definitiva, os porcos deveriam ser tratados, por precaução, de forma diferenciada.

“Quimeras humano-porco têm o potencial para uma habilidade cognitiva muito mais alta, então, na falta de evidências conclusivas, o posicionamento padrão deverá ser de tratá-las com um status moral alto até que novas pesquisas confirmem ou invalidem [essa hipótese]”

Julian Savulescu

Professor de ética prática da Universidade de Oxford, em artigo publicado no site Aeon em parceria com o Centro para Ética Prática de Oxford Uehiro

Nova fonte de sofrimento

Além disso, defensores dos direitos dos animais, que se opõem a formas industriais de criação para o abate e consumo humano, por exemplo, veem nessa técnica mais um meio de gerar sofrimento nos bichos.

“Eu tenho nervosismo quanto a abrir uma nova fonte de sofrimento animal. Antes de tudo vamos fazer com que muito mais pessoas doem seus órgãos. Se continuar havendo falta de órgãos após isso, podemos considerar usar porcos, mas contanto que comamos menos carne para que não haja um aumento total no número de porcos mortos sendo usado para propósitos humanos”

Peter Stevenson

Militante da ONG Compassion World Farming, que atua contra técnicas industriais de criação de animais, em entrevista à BBC

Opinião da Igreja Católica sobre o tema

O questionamento ético também tem um fundo religioso. Para parte da opinião pública, é chocante que cientistas humanos cheguem a um domínio tão profundo de manipulação genética.

“Uma das preocupações que muitas das pessoas têm é de que haja algo sacrossanto sobre o que significa ser humano expresso no nosso DNA. E que, ao inseri-lo em outros animais e dar a eles, potencialmente, alguma das capacidades humanas seria uma forma de violação - uma forma, talvez, de brincar de Deus”

Jason Robert

Bioético da Universidade do Estado do Arizona, em entrevista concedida em maio à estação de rádio NPR

Em entrevista à revista especializada “Scientific American”, o pesquisador Juan Carlos Izpisua Belmonte afirmou que o papa Francisco deu a bênção para que esse tipo de pesquisa seja realizada na Espanha, já que serviria para ajudar a humanidade.

“Eu sou da Espanha e a Espanha tem sido bastante aberta a esse campo de pesquisa com células tronco. E eles nos permitiram estudar até o ponto em que o animal nasce. Em teoria nós poderíamos ter um porco nascido com um órgão humano. Não foi fácil. Embora a Espanha seja bastante aberta a esse campo da pesquisa com células-tronco, ao mesmo tempo é um país muito católico, então tivemos que passar pelo Papa. E ele muito gentilmente disse sim. Isso é para ajudar as pessoas”

Juan Carlos Izpisua Belmonte

Pesquisador especialista em expressão genética, em entrevista à revista Scientific American

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