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Epidemia de zika pode acabar em um ano e meio. No que isso altera as políticas de saúde

Compreender a dinâmica de propagação do vírus zika leva a repensar o desenvolvimento de vacinas, combate ao mosquito transmissor e restrição a engravidar

 

Um estudo publicado na revista “Science” na quinta-feira (14) faz projeções sobre qual deve ser a propagação do vírus zika na América Latina.

Uma epidemia ocorre quando uma doença transmissível se propaga rapidamente dentro de uma grande população. De acordo com o estudo, a epidemia de zika, que teve início em 2015, deve ter duração total de três anos.

Em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, Neil Ferguson, pesquisador-chefe do trabalho “Combatendo o vírus zika na América Latina” afirma que ainda falta cerca de um ano e meio para que a epidemia na região chegue ao fim.

Segundo o trabalho, um novo surto do vírus deve voltar a ocorrer após cerca de uma década.

Isso se deve à dinâmica natural de transmissão da doença, e não a medidas que visam a erradicação do mosquito Aedes aegypti - que transmite não só o vírus da zika, mas também da dengue e chikungunya - por exemplo.

O trabalho chega a afirmar que a epidemia atual não pode ser contida. E que combater o Aedes aegypti pode, ironicamente, atrasar o seu fim.

Compreender como o vírus se comporta dentro do contexto da América Latina muda a forma como se pensam políticas públicas sobre o tema.

“A epidemia atual não pode ser contida. Na melhor das hipóteses, intervenções podem mitigar seu impacto sobre a saúde. Encarando de forma mais otimista, a dinâmica natural da epidemia deve dar uma janela de vários anos para desenvolver novas intervenções antes que novos surtos de grande escala ocorram”

Estudo ‘Combatendo o vírus da zika na América Latina’, publicado no dia 14 de julho na revista ‘Science’

O vírus da zika colocou as autoridades de saúde em alerta por causa de sua consequência mais grave: se contraído por gestantes, causa má formação do sistema nervoso dos fetos. Ele está relacionado a casos de microcefalia, quando o cérebro do feto não cresce dentro do normal.

O que o estudo levou em consideração

De acordo com o trabalho, três fatores determinam o tamanho e a velocidade de propagação de uma nova doença e o risco de que ela se torne endêmica em uma população - ou seja, continue a existir sem a necessidade de que a infecção venha de fora, como ocorre atualmente com o vírus da dengue.

Fatores

‘Transmissibilidade da infecção’

É determinada pela forma como o vírus se reproduz e o número médio de novos casos gerados por uma pessoa contaminada.

No caso do zika, isso varia com as particularidades geográficas de cada região - locais mais chuvosos facilitam a reprodução do mosquito Aedes aegypti e aumentam a transmissibilidade do vírus, por exemplo.

Tempo de geração

É o intervalo médio entre a infecção de uma pessoa pelo vírus e a infecção de uma segunda por meio dela. Ele diz respeito à velocidade de propagação de uma infecção.

Conectividade das populações

A mobilidade da população humana entre uma região e outra - definida pela forma como a economia funciona e pelos meios de transporte, entre outros fatores - influencia a probabilidade de que uma infecção presente em um lugar chegue em outro.

Conclusões

Ciclo da epidemia

Além de afirmar que a epidemia deve terminar em cerca de três anos, a previsão do trabalho é de que uma nova epidemia deve surgir após uma década.

Para afirmar isso, o trabalho parte de um conceito chamado de “imunidade de rebanho”, que diz respeito à maneira como, quando uma parte de um grupo ganha resistência a uma doença, dificulta que essa se espalhe para o grupo inteiro.

Quem ganha resistência a um vírus deixa também de se tornar um agente para a sua transmissão. Ou seja, outros participantes do grupo que não são imunes também ficam mais protegidos, o que contribui para que a epidemia se encerre.

Com novos nascimentos, aumenta o número de pessoas que não foram infectadas pelo vírus e que, por isso, não têm resistência a ele. Dessa forma, a imunidade de rebanho diminui e uma nova epidemia tende a surgir.

“Como o vírus é incapaz de infectar a mesma pessoa duas vezes - graças ao fato de que o sistema imunológico cria anticorpos para matá-lo -, a epidemia alcança um estágio no qual sobram muito poucas pessoas para infectar para que a transmissão se sustente”

Neil Ferguson

Pesquisador-chefe do trabalho 'Combatendo o vírus zika na América Latina'

Doença endêmica

A projeção dos pesquisadores é de que o vírus se tornará “endêmico” na América Latina. Ou seja, não será totalmente erradicado e continuará a ser transmitido, como ocorre, por exemplo, com o sarampo ou a catapora.

De acordo com o trabalho, isso não significa que ocorrerão epidemias todos os anos, mas que deve se esperar que a transmissão ocorra em algum lugar no continente anualmente, como ocorre hoje com a dengue.

El Niño

A transmissibilidade do vírus da zika pode ser alterada por variações climáticas de longo prazo, causadas, por exemplo, pelo fenômeno climático El Niño. Essas alterações no clima poderiam afetar o comportamento do mosquito e impedir que o vírus se torne endêmico. Nesse caso, haveria epidemias mais esporádicas, mas de maior escala.

A pesquisa destaca que os dados disponíveis não permitem explicar por que a escala da transmissão do vírus da zika na América Latina foi muito maior do que qualquer outra registrada anteriormente, ou se há um risco de uma epidemia na Ásia.

Qual o impacto das descobertas sobre políticas de saúde pública

Modelos prevendo a forma da epidemia se propagar são úteis para se pensar medidas de saúde pública.

“Um entendimento mais completo da dinâmica e dos fatores que impulsionam a epidemia é necessário para entender os riscos de prazo mais amplo e priorizar quais intervenções devem ser feitas”

Estudo ‘Combatendo o vírus da zika na América Latina’, publicado no dia 14 de julho na revista ‘Science’

Pontos a serem repensados

Vacinas

A pesquisa aponta que as vacinas atualmente em desenvolvimento podem ficar prontas quando a epidemia já tiver passado. Nesse momento, poderá não haver casos suficientes de infecção por zika na América Latina para que os testes da vacina ocorram.

“Nossa análise sugere que há tempo limitado para iniciar estudos de teste de eficácia [de vacinas] sobre a epidemia atual antes de que a incidência se torne insuficiente para medir seus impactos”, afirma o trabalho.

Os pesquisadores recomendam que testes do tipo sejam pré-aprovados em um grande número de áreas em que epidemias podem surgir. Isso faria com pudessem ser rapidamente iniciados assim que a transmissão fosse detectada nessas áreas.

Controle do mosquito

O trabalho também sugere que o controle do mosquito Aedes aegypti é improvável. As medidas atuais podem servir para desacelerar a propagação da doença, mas não barrarão todo o desenvolvimento da epidemia.

Tempo entre epidemias

Ao evitar que mais pessoas sejam contaminadas ao mesmo tempo, essas medidas podem ter o efeito de atrasar o desenvolvimento da “imunidade de rebanho” e prolongar o tempo da epidemia em curso. O mesmo fator pode diminuir o intervalo até a próxima epidemia.

Gravidez

Especialistas em saúde pública têm recomendado que mulheres evitem engravidar. A crítica é de que, na prática, é difícil que sigam essa recomendação por um período muito longo de tempo.

De acordo com o estudo, é necessário entender a forma como a epidemia se comporta em cada local para determinar de maneira mais precisa quando o alerta antigravidez deve ser levantado e por quanto tempo deve ser mantido.

“Isso tornaria a aderência [à recomendação] mais palpável e ao mesmo tempo manteria os benefícios quanto à redução potencial de risco”, afirma o trabalho.

 

 

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