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Como os filmes de Hector Babenco ecoaram na realidade

Diretor de 12 longas morreu na quarta-feira (13), aos 70 anos, após uma parada cardíaca

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    O último filme de Hector Babenco trata da vida. Ou, como ele definiu, de amor ao cinema. “Meu Amigo Hindu” é uma espécie de autobiografia não declarada sobre a história de um famoso diretor de cinema combatendo um câncer.

    Nascido na Argentina em 1946 e naturalizado brasileiro em 1977, Babenco teve câncer linfático na década de 1990. Morreu na quarta-feira (13), aos 70 anos, após uma parada cardíaca. 

    Foram 13 filmes ao longo de mais de 40 anos de carreira. Babenco levou o Brasil ao Oscar com “O Beijo da Mulher Aranha”, ao Globo de Ouro com “Pixote: A Lei do Mais Fraco” e a Cannes com “Carandiru”, “Coração Iluminado” e também “O Beijo...”.

    Em “Pixote”, talvez sua obra mais marcante, lançada no início dos anos 80, ele retratou as crianças abandonadas de São Paulo, que vivem pelas ruas da cidade.

    A descrição dessa tragédia social praticamente anteviu o fim do protagonista do filme, o garoto Fernando Ramos da Silva, que morreu assassinado pela polícia anos mais tarde, em 1987. Ele tinha então 19 anos. A trajetória de Fernando também virou filme, não de Babenco, mas de José Joffily, em “Quem matou Pixote?”, de 1996.

    “Pixote predomina neste trabalho de Babenco, que mostra um olhar áspero de uma vida que nenhum ser humano deveria ser obrigado a levar. E o que os olhos de Fernando Ramos da Silva, o jovem ator condenado, nos mostra não é para nos machucar, nem para nos acusar, assim como não mostra arrependimento - mostra apenas a aceitação de uma realidade diária desolada."

    Roger Ebert

    Crítico de cinema , em artigo

    Com a indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1982, o filme se tornou responsável por atrair atenção internacional ao diretor latino.

    Nos anos seguintes, ele produziria, com elenco internacional, “O Beijo da Mulher Aranha", “Ironweed” e “Brincando nos Campos do Senhor” - sendo os dois últimos fracassos de bilheteria, à despeito de elencos que incluíam Jack Nicholson e Meryl Streep. O retorno de Babenco ao reconhecimento cinematográfico viria em 2003, com “Carandiru”.

    "Sou um exilado no Brasil e um exilado na Argentina. Não consigo me fazer sentindo parte de nenhuma das culturas. E as duas coisas convivem em mim de forma poderosa"

    Hector Babenco

    Cineasta, em entrevista à “Folha” em 2015

    Os filmes de Hector Babenco

    1973 - "O Fabuloso Fittipaldi"

    O primeiro filme de Babenco foi um documentário sobre o piloto de Fórmula 1.

    1975 - “O Rei da Noite”

    Estrelado por Paulo José e Marilia Pêra, o longa mostra a história de Tertuliano, filho de uma família paulistana tradicional, que convive com a doença mental do pai, a boemia e alguns casos amorosos.

    1976 - "Lúcio Flávio, o passageiro da agonia"

    Drama sobre um assaltante de banco da época da ditadura era uma denuncia aos esquadrões da morte do regime militar.

    1981 - "Pixote: A Lei do mais Fraco"

    Retrato da vida dos meninos de rua de São Paulo. Pixote é um garoto que faz parte de um grupo de crianças de rua. Após deixar a Febem, conhece uma prostituta, papel de Marília Pera.

    1985 - "O Beijo da Mulher Aranha"

    Baseada no livro homônimo de Manuel Puig, mostra a interação entre um militante e um homossexual na cela de um presídio na América Latina. Falado em inglês com elenco internacional, o longa deu o Oscar de melhor ator para Willian Hurt e  recebeu outras três indicações (filme, direção e roteiro adaptado).

    1987 - “Ironweed”

    Feito nos EUA, o longa foi um fracasso de bilheteria, embora tenha reunido nele nomes como Jack Nicholson e Meryl Streep.

    1991 - “Brincando nos Campos do Senhor”

    Outro fracasso, o longa histórico de três horas de duração foi escrito em colaboração com o roteirista francês Jean-Claude Carrière. Conta a história de missionários na Amazônia brasileira.

    1998 - “Coração Iluminado”

    Homem retorna a Argentina 20 anos após ter deixado seu país natal, para se reencontrar com seu pai.

    2003 - “Carandiru”

    Baseado nas memórias do médico Dráuzio Varella, publicadas em “Estação Carandiru”, longa retrata o massacre ocorrido na casa de detenção em outubro de 1992. O projeto, que tem no elenco Rodrigo Santoro, Wagner Moura, Caio Blat e Milhem Cortaz, foi um dos mais custosos do cinema brasileiro.

    2007 - “O Passado”

    Outra adaptação literária (agora do romance de Alan Pauls), foi filmado na Argentina com o ator mexicano Gael García Bernal no papel do protagonista, um homem que se separa da mulher após 12 anos de união.

    2014 - “Words with Gods”

    O filme é uma união de diversos curtas que abordam a ideia de religião, dirigidos por cineastas diferentes, entre eles Babenco, Guillermo Arriaga, Álex de la Iglesia e Amos Gitai.

    2015 - "Meu Amigo Hindu"

    Como “O Beijo da Mulher Aranha”, o último filme de Babenco também é falado em inglês - opção escolhida quando o ator americano Willem Dafoe entrou para o elenco para interpretar o protagonista Diego. Inspirado na própria história de seu criador, Diego é um famoso diretor de cinema que enfrenta um câncer e recebe da Morte (Selton Mello) o tempo necessário para dirigir um último filme. Maria Fernanda Cândido e Bárbara Paz (esposa de Babenco) também fazem parte do longa.

     

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