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Por que os sinais contraditórios de Temer na economia não desanimam o mercado

Economistas dizem que governo interino tem ‘benefício da dúvida’ e esperam medidas estruturais para depois do impeachment

     

    Ao assumir o governo em 12 de maio de 2016, o presidente interino Michel Temer colocou o equilíbrio das contas públicas como uma de suas prioridades. O país vinha de dois anos seguidos de prejuízos e o peemedebista apontava o reequilíbrio orçamentário como fundamental para a retomada do crescimento da economia.

    A gestão das contas públicas era um dos principais problemas do governo de Dilma Rousseff, que está afastada temporariamente do Palácio do Planalto em razão de um processo de impeachment, cujo desfecho está marcado para agosto no Senado.

    Desde o início, Temer era visto como uma possibilidade de mudança de rota na trajetória da dívida do governo, percepção que ficou mais forte com o anúncio de Henrique Meirelles, um nome que tem simpatia de agentes do mercado, para o Ministério da Fazenda.

    A criação de um teto de gastos para o governo foi a primeira sinalização de que havia uma preocupação de não se gastar mais do que é arrecadado. A medida, que ainda precisa ser aprovada pelo Congresso, impede que o governo amplie suas despesas além da inflação. Mas depois da medida austera, vieram outras contraditórias, que criam novos gastos.

    A meta fiscal de 2016 foi alterada para absorver mais prejuízo. Agora o governo tem autorização do Congresso para gastar R$ 170,5 bilhões a mais do que arrecadar durante o ano. Para 2017, novo rombo, de R$ 139 bilhões. Assim, a dívida pública seguirá crescendo.

    O Planalto apoiou ainda medidas que criam mais gastos, como o reajuste de servidores federais e pacotes de ajuda aos Estados endividados.

    Apesar dos sinais contraditórios, os investidores dão um voto de confiança ao governo interino. O risco Brasil tem tido trajetória de queda e o dólar está mais barato - puxado também por fatores externos.

    O Nexo foi perguntar a economistas por que o mercado é mais tolerante com Temer do que foi com Dilma.

    • Antônio Carlos Porto Gonçalves, economista e professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças, da Fundação Getúlio Vargas.
    • Rafael Bistafa, economista da consultoria Rosenberg Associados.

    Como avalia as ações do governo interino em relação às contas públicas até aqui?

    Antônio Carlos Porto Gonçalves  A principal qualidade do governo não foi reduzir gastos - porque isso ele ainda não fez. Foi tornar claro que há um orçamento deficitário. Não há falsificação nem a ideia de que está tudo bem. Como interino, ele vai ter muito mais dificuldades em aprovar reduções substanciais. Quando se tornar permanente, as coisas podem ser diferentes com impacto maior.

    Rafael Bistafa  O governo sinalizou com uma boa medida de médio e longo prazo (teto), mas ainda não detalhou como esse teto vai ser cumprido. As despesas, mesmo se não contratar nenhum gasto novo, crescem inercialmente. Por exemplo, a despesa com previdência cresceu 4% em termos reais mesmo sem reajuste, por causa da inclusão de novos aposentados. Esperava-se medidas mais concretas logo após o afastamento da Dilma, veio só o teto dos gastos e mesmo assim junto com um monte de coisas antagônicas.

    Por que os gastos adicionais de Temer não são tão malvistos como os de Dilma?

    Antônio Carlos Porto Gonçalves  É porque o governo Dilma dizia que não havia gasto adicional, falsificava orçamento. É preciso ter um realismo muito grande em contas públicas, as pessoas não são bobas. A mudança que houve foi muito positiva. As pessoas não são contra o gastos, são contra dizer que não gastou.

    Rafael Bistafa O governo Dilma já tinha exaurido toda a credibilidade. Sempre apresentava metas ambiciosas e não entregava o resultado. Agora a equipe econômica é mais coesa, o governo acenou com uma carta de boas intenções e o mercado deu o benefício da dúvida. Se governo não entregar e começar a se distanciar muito do que foi proposto, vai acontecer como foi com a Dilma.

    Temer está guardando as medidas amargas para depois do impeachment, previsto para o fim de agosto?

    Antônio Carlos Porto Gonçalves  Não sei se amargas, são necessárias. Muito mais amargo é não fazer e depois ter um Estado quebrado em 2017, 2018. As medidas vão ser mais intensas e são muito boas. Não dá para desonerar e não ter uma arrecadação substituta, isso quebra o governo. E para atingir os R$ 139 bilhões de déficit previstos para 2017, vai ter que atuar tanto na área de gastos como na de receitas. O governo não tem condições de fazer isso ainda, mas acho que vai vir uma porção de medidas para tornar viável esse número proposto.

    Rafael Bistafa Tudo aponta que sim, esses são os sinais que são emitidos. Temer parece não querer propor nenhuma medida muito drástica ou muito impopular agora, nada que possa prejudicar as negociações do impeachment. Mas todo mundo espera que após o impeachment o governo venha com as medidas necessárias, que não são fáceis. Mas não dá para adiar por muito tempo.

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