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Marx, funk e o controle do conteúdo dado em sala de aula

Paródia feita por alunos explicando a teoria do filósofo alemão em escola do Paraná viralizou na internet, gerou reação nas redes sociais e levou ao afastamento temporário de professora

     

    Alunos do primeiro ano do ensino médio do Colégio Estadual Professora Maria Gai Grendel, em Curitiba, capital do Paraná, fizeram uma paródia com o funk “Baile de Favela”, hit do último verão. Na letra, citam conceitos do pensamento de Karl Marx, como a mais-valia e a luta de classes.

    A atividade, proposta pela professora de sociologia Gabriela Viola, lembra as cantigas entoadas em cursinhos para ajudar a memorizar um conteúdo. No entanto, um vídeo da paródia que viralizou na internet levou ao afastamento temporário da professora de suas funções, no dia 4 de julho.

    O ponto polêmico não está na mistura prosaica entre o filósofo do século 19 e o popular gênero musical - o humorista Marcelo Adnet fez o mesmo em 2010 com muito menos alarde -, e sim no conteúdo da canção.

    Críticos da paródia acusaram a professora de “doutrinar” os alunos, que entoam versos como “Os burgueses não moram na favela / Estão nas empresas explorando a galera”.

    A ressignificação do funk

    O Núcleo Regional de Educação, braço administrativo da Secretaria de Educação do Paraná, alegou ter afastado a professora para proteger sua integridade física, após comentários agressivos feitos nas redes sociais por pessoas que assistiram ao vídeo.

    Embora não tenha questionado o conteúdo passado por Viola aos alunos, previsto no currículo escolar e o ponto nevrálgico na internet, a administração pôs em xeque o uso do funk em sala de aula. 

    “O uso do funk teve fins pedagógicos. Foi uma metodologia escolhida por mim, pois eu parto do princípio da realidade do aluno. Eu moro nessa comunidade, eu conheço essa realidade. Não escutamos música clássica. Julgar e dizer que a música clássica é superior ao funk é etnocêntrico e preconceituoso”, disse a professora ao Nexo.

    “Qual era a proposta do trabalho e da sociologia? Pegar o que vem pronto, desconstruir e construir algo novo. Fizemos uma ressignificação da letra e do funk”, completou Viola.

    Nos dias que se seguiram ao afastamento, os alunos se manifestaram pedindo a volta da educadora, usando na internet a hashtag #VoltaGabi. No dia 6 de julho, eles organizaram uma manifestação na escola e cantaram mais uma vez a paródia, durante o intervalo.

    O sindicato de professores do Paraná, APP-Sindicato, também questionou a medida. “Para ser afastada das suas funções, [a professora] precisa ter seu caso avaliado em uma sindicância, não pode simplesmente ser excluída da escola pela direção”, diz um texto publicado na página da organização. 

    Nesta segunda-feira (16), Viola voltou a dar aulas com a autorização do governo, que disse pretender monitorar mais de perto suas atividades - o que contraria as diretrizes de que o educador tem liberdade em sala de aula para ministrar o conteúdo acadêmico.

    “É um atentado contra o direito de cátedra dela. A aula estava dentro do planejamento escolar e o conteúdo também”, disse ao Nexo a também professora Vanda Santana, secretária-geral do APP-Sindicato.  

    A questão da Escola Sem Partido

    O ensino de sociologia, assim como o de filosofia, tornou-se parte do currículo escolar público e privado em 2006, por resolução da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.

    A medida tinha por objetivo passar aos alunos conceitos que facilitem a compreensão das relações sociais que os cercam, na escola, no trabalho, na família e na vida política.

    Isso inclui, também, passar um conteúdo básico sobre os teóricos que construíram o pensamento sociológico, como Marx, Émile Durkheim e Max Weber.

    Um movimento chamado Escola Sem Partido, porém, considera a matéria ideológica e tem feito questionamentos públicos sobre o que considera uma “doutrinação de esquerda” por parte de alguns professores.

    Responsável por três projetos de lei atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, o movimento tipifica o crime de “assédio ideológico” em sala de aula e exige uma educação considerada “apartidária”. Para tanto, professores devem ser monitorados, segundo seus adeptos.

    Críticos da Escola Sem Partido alegam que não existe educação isenta e que tirar o espaço de debate e reflexão nas aulas é educar crianças e jovens sem senso crítico.

    “Se os projetos de lei vingarem, o Brasil estabelecerá um paradoxo: sob a vigência do Escola Sem Partido emergirá uma escola sem voz, sem liberdade, sem divergências, sem cidadania, sem questionamento, sem reflexão, sem política, sem economia, sem artes, sem apropriação de cultura, ou seja, uma escola sem educação!”, escreveu sobre o tema Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

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