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Qual o efeito do Pokémon Go em quem tem problemas de socialização

Pessoas com dificuldade de relacionamento conseguiram sair de casa pela primeira vez em muito tempo para ‘caçar’ as criaturas

     

    Em uma semana desde seu lançamento, em 5 de julho, o Pokémon Go se tornou uma febre nos países em que está disponível. O jogo eletrônico permite capturar virtualmente as criaturas pelas ruas, tal como acontecia na série de animação de sucesso nos anos 1990.

    O Pokémon Go também teve outro efeito, este inesperado diante da popularidade já prevista para a brincadeira: ajudar pessoas com depressão ou problemas sociais a se sentirem melhor.

    “Pokémon Go fará maravilhas para a minha saúde mental, me dando motivo e propósito para sair de casa”, escreveu uma mulher no Twitter. Não só ela, mas dezenas de outros usuários da rede deram depoimentos semelhantes, dizendo que o jogo os motivou a deixar suas casas pela primeira vez em muito tempo a fim de explorar as redondezas.

    Como funciona o Pokémon Go

    Disponível na Austrália, na Nova Zelândia e nos Estados Unidos, o Pokémon Go é um aplicativo de realidade aumentada para smarthphones.

    Nele, usuários visualizam na tela de seus celulares as pequenas criaturas em lugares por onde andam: ruas, shoppings, parques, academias e até hospitais. É como se elas de fato existissem naqueles locais em que o jogador se encontra presencialmente.

    Eles devem então capturá-las usando Pokébolas virtuais - compartimentos esféricos que armazenam os Pokémons -, treinar as criaturas e levá-las em batalhas com outros jogadores - o que promove por vezes um encontro presencial entre as pessoas pela cidade.

    O jogo tornou-se rapidamente um sucesso, tendo já mais adeptos que o Tinder - aplicativo de paqueras on-line lançado em 2012. Segundo a “Business Insider”, ele está caminhando para se tornar maior do que o Twitter, criado em 2006. 

    Devido ao sucesso logo de cara, a plataforma enfrentou problemas de conexão nos primeiros dias em que esteve no ar. Além disso, alguns usuários relataram acidentes por não prestarem atenção por onde andavam. Há suspeitas de que, em Missouri, nos EUA, o jogo tenha sido usado para atrair vítimas em assaltos.

    Não há ainda previsão de lançamento do jogo no Brasil.

    Como o jogo está ajudando pessoas

    “Eu tenho problemas de motivação desde que tenho nove anos e desenvolvi uma depressão severa. Depois disso, quando tinha 15, desenvolvi estresse pós-traumático devido a uma relação abusiva que me deixou completamente sociofóbica e mal conseguindo deixar minha casa”, disse uma garota de 18 anos ao “BuzzFeed”. “Assim que baixei o Pokémon Go consegui sair de casa, caminhei por horas e percebi que estava aproveitando isso.”

    Pode ter a ver com a recompensa instantânea, sugere ela. “Sair e ter uma afirmação positiva na hora é o que faz estar fora uma experiência boa.” 

    O psicólogo David Wang concorda. “O jogo pode ter um impacto mais imediato em pessoas que têm depressão, fobia e ansiedade”, disse ele ao Nexo.  “Você é posto numa jornada e isso ajuda as pessoas a terem a sensação de que estão ganhando algo com isso. O resto é consequência.”

    Ironicamente, o novo jogo causa um efeito justamente oposto àquele que deu origem ao universo Pokémon. Lançado para videogames, os primeiros jogos da série acabavam por manter as pessoas em casa e imersas, isoladamente, na brincadeira.   

    Mas, segundo Wang, embora videogames causem esse efeito, têm também um histórico de serem um contato inicial para uma vida social mais saudável. “Qualquer jogo que crie uma comunidade virtual pode gerar dependência, mas pode também criar uma possibilidade social mais confortável para pessoas que têm dificuldade em se relacionar.” De acordo com o psicólogo, acontece por vezes de essas relações virtuais se desenvolverem para algo maior.

    Para além da criação de uma comunidade, lembra o psicólogo, o Pokémon Go exige que as pessoas de fato estejam na rua. “O exercício ajuda muito. Em saúde mental, sempre incentivamos as pessoas a fazerem atividades físicas diárias.”

    “[O jogo] não cura nada exatamente (nada realmente cura), mas estar lá fora no sol e talvez sair para uma caminhada com um amigo ou dois enquanto se pega alguns Pokémons soa como algo que ajuda”, escreveu a repórter Jessica Lachenal, do site de cultura pop “The Mary Sue”

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