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Por que o litoral norte de São Paulo está sendo invadido por baleias jubarte

Os animais, quase extintos na década de 1960 até a caça ser proibida, têm aparecido no canal entre Ilhabela e São Sebastião

     

    Nas últimas semanas, moradores e turistas de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, têm avistado com certa frequência baleias jubarte fazendo acrobacias a algumas centenas de metros da costa. Baleias por vezes aparecem nas águas que dividem o arquipélago do continente, mas nunca foram vistas com tamanha constância e quantidade. 

    Baleias jubarte migram mais de 25 mil quilômetros a cada ano, indo das áreas de alimentação para as de reprodução. No verão, ficam em águas polares, deslocando-se aos trópicos no inverno para acasalar. No Brasil, vivem comumente na região dos Abrolhos, no sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Num raio maior, aparecem na faixa que vai do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Norte. E, por vezes, aparecem em menor quantidade em locais mais inusitados ao longo da costa, como o litoral de São Paulo.

    A questão é: o que tem provocado o aumento expressivo dos animais nessa região e, ainda, o que isso pode significar para a economia e o ecossistema locais?

    Há pontos positivos e negativos, explica ao Nexo Milton Marcondes, médico veterinário e coordenador de pesquisa do Projeto Baleia Jubarte, instituto dedicado à preservação do animal e localizado em Caravelas, na Bahia.

    As baleias jubarte quase foram extintas. A população havia reduzido 90% quando a caça da espécie foi proibida, em 1966 - o óleo dos animais era usado para iluminação e construção de casas coloniais. Desde então, graças aos esforços para preservá-las, o número de baleias tem voltado a subir. Hoje, calcula-se que haja cerca de 17 mil exemplares na costa brasileira, ante os pouco mais de 600 que restavam na década de 1960. O aumento do número de representantes da espécie pode explicar, ao menos em parte, sua maior incidência em locais menos comuns.

    “Pode ser que houvesse antes jubartes que iam até o litoral de São Paulo, mas por serem poucas, não víamos ou não tínhamos notícia”, sugere Marcondes. Além disso, lembra ele, o desenvolvimento das tecnologias de informação faz com que essas incidências sejam mais registradas e se espalhem rapidamente pela internet.

    Mas há ainda outra possibilidade para o desvio de rota, de natureza ambiental: a ocorrência dos fenômenos climáticos “El Niño” em 2015 e “La Niña” em 2016. “Mudanças climáticas mudam correntes marinhas e a distribuição de alimentos. Por isso as baleias podem ter saído do curso tradicional”, explica o veterinário.

    Possíveis consequências do aumento de jubartes

    Essas baleias têm entre 12 e 16 metros de comprimento e podem passar de 40 toneladas de peso. Quando saltam, retiram quase todo o seu corpo da água, provocando um espetáculo atraente ao turismo.

    Segundo Marcondes, caso a população de jubartes cresça e sua presença se torne constante no litoral norte de São Paulo, abre-se uma perspectiva interessante para o turismo de observação de baleias na região. “Além de ser vantajoso para a cidade, essa é uma ótima ferramenta para educar pessoas e dar um valor econômico para a conservação das baleias”, diz ele, citando o exemplo como moeda de troca para evitar o abate dos animais. “O turismo gera renda para muita gente, é um contra-argumento valioso para a caça.”

    Em contrapartida, os animais passarão a habitar um ambiente bem diferente do anterior à década de 1960, quando a população da espécie ocupava em abundância os mares. Há mais redes de pesca, barcos, portos, docas e navios. É necessário realizar um trabalho de conscientização com trabalhadores e velejadores locais para garantir que as baleias circulem pelas águas com segurança.

    Em Abrolhos, o Projeto Baleia Jubarte avisa velejadores sobre os locais nos quais as baleias geralmente ficam durante a temporada. Além disso, muitos pescadores trocaram suas redes de espera, que pernoitam boiando na água, pela rede de fundo, retirada no mesmo dia, que apresentam menos risco para os animais se enroscarem. Só neste ano, das 24 baleias encontradas encalhadas no litoral, seis ficaram presas em redes de pesca.

    “É importante que as pessoas avisem as instituições que trabalham com o resgate desses animais quando encontrarem algum [encalhado], mesmo que morto. Serve para estudarmos e entendermos o que está prejudicando a espécie”, conclui Marcondes.

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